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ÍBrmtin JSutiToratíç
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CULTVRA
E OPVLENCIA
DO BRASIL
POR SUAS DROGAS, E MINAS
AIOHHJVqO H
; " ' '
Mv
CULTU
OPULÊNCIA
POR SUAS DROGAS, E MINAS,
Com varias noticias curió fas do modo de ftvzer o Áííucar ;, plantar,
& beneficiar o Tabaco \ tirar Ouro das Minas ;•'& deícu- ,
brir as da Prata ;
B dos grandes emolumentos , que efta Cmquifia da America Meridional
*dá ao Rejno dePORTVGAL com eftes^ & outros géne-
ros , & Contratos Reacs.
O T* T* \ ~~ '
DE AND RE JOÃO ANTONIL
O F F E B^E C I D <j4
Aos que defejaó ver glorificado nos Altares ao Venerarei Padre joseph de anchieta
Siccrdote da Companhia de j E S U , Milenário Apoítolico , & novo Thau-
marnran rloBrafi!.
LISBOA,
KaOfficinaReal D E S LA N D E S I A N A;
Com as licenças necejfarias Anno de 1 7 1 1 .
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^0 áâ SEWJÍO^ES <DE E3\($E*
nhos } & Lavradores do Affucâry (rdoT^a*
baço , útrkm cji4efeoc cupão em tirar Ouro d$$
\ <£\dmas do Estado do^Brâfií.
EVE tantoo Brafil ao Vene-
ravel Padre Jofeph de Anchie-
ta, hum dos primeiros* ÔCrfraii
fervorofos Miffionarios defta
America Meridional ,* que a boca cheá
o chama feu grande Apoftoio > & no-
vo Thaumaturgo , pela luz Euangeii*
ca, quecommunicou a tantos milhares
de índios , & pelos innumeraveis mila-
gres > que obfou em vida , & obra conti-
nuamente invocado para beneficio de toa-
dos. Porem çonfeífar e&as obrigaçoens,
1 1
> i
& nao cooperar ás glorias de taõ infígrre
Bemfeitor ,naõbafta para hum verdadei-
ro agradecimento , devido juftamente,
& efperado. Para excitar pois efte piado-
ío afFeólo nos ânimos de todos os que
mais facilmente podem ajudar como a-
gradecidos > & liberaes obra taõfanta,
como he a Canonização de hum Varaõ
tamlliuftre, procurey acompanhar efta
jufta petição com alguma dadiva , que
pudeífe agradar, & íer de algua utilidade
aos que nos Engenhos doAfíucar, nos
Partidos, & nas Lavouras do Tabaco,
& iiás Minas do Ouro experimenta 5 o fa-
vor do Ceo com notável aumento dos
bens temporaes. Portanto com eítalimi-
tada offerraprovocoaquelia género fa li-
beralidade y quenaõ confente fer rogada,
por ruõ parecer que dando quer vender
benefícios. E ao meímo Venerável Pa-
dre Jofephde Anchieta peço encarecida-
mente , que queira alcançar de Deos cen-
tupli-
mm
tuplicada remuneração na Terra, & no
Ceo, a quem fe determinar a promover
com alguma efmola as fuás honras ; para
que publicadas nos Templos, &celebra-
das nos ALtaresYacreeentem tambeni ma-
yor gloria áquelle Senhor , que he hon-
rado nas honras do&Santos,& glorifica*
. I ;" ! ! I t ; :.: )
dó em fuás glorias
I11HI
mur
wm&^^mz çê^^5ei£a?c^ic ^*^^*i-^*29^*^-5
IMEIRAPARTE. \
■ E ■ noá a
OPVLENCIA DO BRASIL
Na Lavra do AíTucar.
E N G E N H O R E A L
Moentc , & corrente.
T R A T A - S E
-■
2) 0 íÁ/00'r do Engenho do AJfucarJosFeitò-
res,& outros Ofjiciaes, que nellefe Occupao,
4 nas obrigaçoenr , óg falarios.
Da z5A4oenda , Fabrica ;, & Officims do En-
genho, & do que em cada bua iMasJfç fat*
Da T Janta das C anuas , (ua conducçaÕ , &*
moagem: &• de como [e fa^ purga , &» en-
caixa- o Jjjucar no Recôncavo da^ "Bahia no
"Br a/i! para o %eyno de Tortugal , &- Jew
emolumentos.
PROE-
I
U EM chamou às Oíficinas, em que Tê
fabrica o AíTucar, Engenhos , acertou
verdadeiramente no nome.Poi q cjiiem
quer q as vé , Sc confidera com a refle-
xão, cj merecem; he obrigado a coníefr
far , que ía&tiuns dos pr-incipaes partos , & inven-
çoens do Engenho humano , o qual comopequera
porção do Divino , íempre- fè moftra no íeu modo
de obrar , admirável.
Dos Engenhos bons fe chamaõ Reaes , outros
inferiores vulgarmente Engenhocas. Os Reaes ga*-
nhãraõeíteapeliido, por terem todas as partes , de
que fe compõem , Sc todas as Oficinas perfeitas ,
chea^de grande numero de Eícravos , com muitos
Cannaveaes próprios, & outros obrigados' á Moeu*
da: & principalmente por terem a Realeza de moe-
rem com agua , ádifferença de outros * que moem
com Cavalíos , & Boys , Sc faõ menos providos, Sc
aparelhados; ou pelo menos com menor perfeição,
& largueza, das officinas neceílarias > Sc com pouco
numero deEícravos, para fazerem , como dizem, o
Engenho Moente , Sc Corrente.
E por-
iii
:
JE porque algum dia folgaey.de ver hum dos
mais afamados , que ha no Recôncavo á beira-mar
da Bahia , aquém chamaô o Engenho de Serigippe
do Conde; movido de hua louvável curiofidade ,
procurey no efpaço de oito , ou dez dias , que ahi
efííve,, tomar noticia de tudo o que o fazia taõ ce-
lebrado^ quafi Rey dos Engenhos Reaes. Evalcn.
dome das informaçoens , que me deo , quem o àd-
mimftrou mais de trinta anhos; com conhecida \n-
teljigcncia , & com acrecentamemo igual à indu-
ílru : Sc da experiência de hum famofo Meftre de
Aílucar , que cincoenta annos íe oceupou neííe oÇ.
ficío com venturofo íòcceflo., & dos mais Officiaes
de nome, aos quaes miudamente perguntei o, q a ca'?
da qual pertencia ;me reíofvia deixar qefte borrão
tudoaquillcyquem limitação do tempo fobredito
apreíTadameme , mas com attençao ajuntey , 6c
eftendi com o mefmo e%!o , 8c modo de falia/ cla-
ro ; & chaõ , que fe ufa nos Engenhos : para que
m qúe naõ fabem o que cufta.a doçura do Aflucar
4- quem o lavra, o conheçaõ, & fintaõ menos da r
por elle o ..preço, que vai :3c quem de novo entrar
m .adismíftraçaõ de algu Engenho , tenha eftas no*
Xicus praâicas , dirigidas a obrar com acerto ; que
he o que em toda a oceupaçao íe deve defejar , &
intentar. £ para mayor clareza, 8c ordem , reparti
em variosCapitulos tudo o que pertence* cita Dro-
ga*
ga, &a quem por cila, & nella traba-Iba > come*
çando , depois de relatar as obrigaçoens de eada
qual , defde a primeira origem do Aflucar na Carr»
na > ate íua cabal perfeição nas Caixas , conforme
o meu limitado cabedal ■; que pelo menos fervirá,
para dar a outros de melhor capacidade | & pe.ona
mais ligeira , ôc bem aparada , algum eftimulo de
aperfeiçoar efte embrião. E íe alguém quizer faber
oAuthor defte curioíò,& mil trabaihojelle hg hum
amigo do bem publico chamado
0 Amiymo %ofcam
I L LUSTRÍS SI MO1 S ENH O R.- ■'
Evi efte livro intitulado Cultura , Êf 0p«*
__ \^le?icia do Brafil ^ mencionado na petição aci-
ma^ fendo a obra de engenho, pela boa difpofiçac,
com que o feu Auchor o compoz, he muito me-
recedora da licença, (j pede : porque por efte meyo
íaberáõ os que fe quizerem pairar ao Eftado do Bra-
fil, o muito que cuftaõ as Culturas doAíTucar,Ta-
baço , & Ouro, que faõ mais doces de pofsuir no
Reyno; q de cavar no Brafil. Naõ contem efte livro
coufa, quç íeja contra nofsa Santa Fé , ou bonsco-
ftumes, 8c por ifso fe póJe eftampar com letras de
Ouro. Efte he o meu parecer, que ponho aos pcs de
V. ílluftriffimá, para mandar fazer ó que for fervi-
do. Santa Anna de Lisboa em oito de Novembro de
17ío.
Fr. Pado de Sao Boaventura.
Naõ
„
Ao contem efte Tratado coufa fufpeitoía
contra nofsa Santa Fè , & pureza dos bons
coftumes , & affim fendo V.Illuftriflima fervido pó*
de conceder a licença , que pede o Au;hor. Trin*
dade em jo.ckTSÍovembro de 1710*
Fr. Manoel da Gonceyçaõ.
í
Iftas as informaçoens, pode- (e imprimir o li-
vro inmuháo^Cultnra^ Opulência do Bra-
fã y Sc impreílo tornará para íe conferir, 8t dar H-
oença que corra , Sc íerri eila naõ correrá. Lisboa j*
4e Dezembro de 1710.
Moniz. HaJJâ. &ãonteiro. Ribeiro.
Fr. Encarnação. Rocha. Barreto.
T)o Ordinário.
■ ■ . ■ • ■
POde-fe imprimir o livro intitulado, Cultura s
Qf Opulência do Bra/il, 8c impreílo torne pa«
rafe conferir, Sc dar licença que corra , & íemeiia
naõ correrá. Lisboa iz. de Dezembro de 1710.
B. de Tagafle,
Do
■Ha
T>o Taco.
E
N H o r:
I o livro , que V. M AGESTADE foy fervido
remeterme : íeu Author André Joaõ Anto-
njJ ; & fobrenaõ achar n-e.l.I-e coufa que encontre o
Real ferviçode V. Mageftade, me parece fera mui*
toutil para o Comercio: porque defpertará as dili*
gencias , & incitará a que íe procurem taõ fáceis ia-
rerefles. Julga-o muito digno da licença que pede,
V. Mageftade ordenará o que for fervido. Saõ Do-
mingos de Lisboa ij.de Janeyro 171 1.
Fr. Manoel Guilherme.
Ue fe poíTaifTprJmir,vifl2sas licenças do S5-
to OíHcio,&Ordinario,& depois de impreflo
tornará á Mefa para fe conferir, & taxar , 8c
fem iílonaõ correrá.Lisboa 17.de Janeyro de 1711,
Oliveira. Lacerda. Carneiro.
Botelho. Çofla»
COncorda com o íeu origina!. Convento da
Santiílima Trindade de Lisboa j. de Março
de 171 1.
Fr. Manoel da Conceycao* -
Vido eftar conforme com (eu original? pode
correr. Lisboa j.de Março de 171 1.
Monix. Hajfe. Adonteyro. Ribeyro. Rocha,
Fr. Encarnação. Barreto.
p
Ode correr. Lisboa6.de Março de 171 1.
M. Bi ff o de lagafte.
T
Axaõ efte livro em dous toftões. Lisboa 6.
de Março de 17x1.
Duque P. Oliveyra. Botelho, Pereyra*
I $
.
-■-•
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:
LIV
CA PITVLO L
T>o cabedal , que ha deter o Senhor de hum
Engenho %eal.
SER Senhor" de Engenho , he titulo , a que
muitos afpiraó ; porque traz configo o fer fer-
vido, obedecido, & refpeitado de muitos. E íe
for , qual deve fer , homem de cabedal , & go-
verno •, bem fe pode eílimar no Brafil o fer Se-
nhor de Engenho,quanto proporcionadamen-
te fe eftimaõ os Titules entre os Fidalgos do Reyno. Porque
Engenhos ha na Bahia, que dao ao Senhor quatro mil pães de
Aííucar , & outros pouco menos , com canna obrigada à Mo-
enda, de cujo rendimento logra o Engenho ao menos a anieía-
de , como de qualquer outra 5 que nelle livremente íèmoe: &
em algumas partes , ainda mais que a ametade.
Dos Senhores dependem os Lavradores, que tem Parti;-
dos arrendados em terras do mefmo Engenho, como os Cida-
dãos dos Fidalgos : & quanto os Senhores -faõ mais poííantes s
& bem aparelhados de todo o neceífario , aíFaveis 3 ôc verda-
deyros ; tanto mais faó procu r ados , ainda dos que naõ tem a
A caiuu
li»
_____
* Cultura ,
canna cativa , ou por antiga obrigação , ou por preço , qne pa-
raino receberão.
Servem ao Senhor do Engenho em vários officios, além
dos Efcravos de enxada, Sc fouce, que tem nas Fazendas, &
na Moenda j & fora os Mulatos, & Mulatas , Negros, & Ne-
gras de cafa, ouoccupados em outras partes j Barqueiros,
Canoeiros , Calafates , Ca rapinas Carreiros , Oleiros Va-
queiros , Paftores , & Pefcadores. Tem mais cada Senhor de-
ites neceíTanamente humMeftre de Afincar, hum Banquei-
ro , & hum Contrabanqueiro, hum Purgador, hum Caixeiro
no Engenho ,8c outro na Cidade, Feitores nos Partidos, 6c
Roças, hum Feitor Mor do Engenho : ¶oEípiritual,
lmm Sacerdote feuCapellaõ : & cada qual deftes Officiaes
temíoldadâ*
Toda a Efcravaria (que nos mayores Engenhos paíTa o
numero de cento & cincoenta > & duzentas Peças , contando
asdos Partidos) quer mantimentos , & farda, medicamen-
tos > enfermaria,. & Enfermeiro : & paraiííofaõ neceífanas
Roças-de muitas mil covas de Mandioca. Querem os Barcos
velame , cabos , cordas , & breu. Querem as Fornalhas, que
por fete, & oito mezes ardem de dia, ôc de noite , muita lenha:
Scparaifib ha mifter dous Barcos velejados , para íè bufcâc
nos Portos , indo. hum atraz do outro fem parar , 6r muito
dinheiro para a comprar : ou. grandes mattos , com muitos
carros, & muitas juntas de Boys, parafe trazer. Queremos
Canna veaes também fuás barcas, & carros com dobradas ef-
qiupaçoens de Boys ; querem. enxadas , .&r fouces. Querem as
Serranas machados, & ferras. Quer a Moenda de toda a ca -
fta de Paos de ley de fobrecel lente, êc muitos quintaes de aço,
& de ferro. Quer a Carpétaria madeiras felec>as,&: fortes para
Efteyos, Vigas, Afpas,.& Rodas: & pelo menos os inírrumen-
tos mais uíuaes, a faber Serras,Trados, Verrumas,Compaflbs,
Regras,Efcopros,Enxós,Goivas,Machados,Martellos,Can-
tins,
&• Opulência do TZr-ajil. 3
tins , & Junteiras , pregos , & Plainas. Quer a Fabrica do Áf-
fucar Paroes, & Caldeiras, Tachas, & Bacias, fr outros
muitos inítrumentos menores, todos de cobre j cujo preço
paíTadeoitomil cruzados, ainda quando fe vende naõtain,
caro, como nosannospreíentes. S ao finalmente neceíTarias,
além das fanzallas dos Efcravos, & além das moradas doCa-
pellaó, Feitores, Meítre, Purgador , Banqueiro ,& Caixei-
ro , húa Capella decente com feus ornamentos , & todo o apa-
relho do Altar } & húas cafas para o Senhor do Engenho, com
feu Quarto feparado para os Hofpedes, que no Brafil , falto
totalmente de Eftalagens , faó contínuos * & o Edifício do
Engenho , forte ,.& efpaçofo t com as mais OínanaS , & cala
de purgar, Caixaria, Lambiquej & outras cotiías, que por
miúdas, aquifeefcufa apontalías, & delias fe faltara em leu
lugar. . . „
O que tudo bem confiderado : affim como obriga antins
Homens de baftante cabedal, & debom juizo , a quererem
antes fer Lavradores poflantes de Canna , com hum , ou ctous
Partidos de mil pães de Aflucar , com trinta , ou quarenta Ef-
cravos de enxada , & fouce 5.do que fer Senhores de Engenho
por poucos annos , com a lida, & attençaÕ , que pede o gover-
nodetodaeiTa fabrica : affim he para pafmar, corno hojefe
atrevem tantos a levantar Engenhocas , tanto que chegarão a
ter algum numero deEfcravos, & acharão quem bies empre-
ftaflealeuma quantidade de dinheiro, para começar a tratar
de h„a obra, de que nao fao capazes por falta de governo, &
deas-encia \ & muito mais por ficarem logo na primeira faíra
tam empenhados com dividas, que nafegunda outerceiraja
fe declaraÕ perdidos : fendo juntamente caufa, que os que fia-
rão délles dando-lhes fazenda, 6c dinheiro -, também quf
Wem- & q outros zombem da fua mal fundada prefumpçao,
que tam depreífa converteo em palha feccaaquella primei,
ra verdura de húa apparente, mas enganoíaeíperança. f
■ ■ ; A 2 li aia
Cultura ,
E ainda que nem todos os Engenhos íejaõ Reaes , nem ro-
dos puxem por tantos gaftos , quantos ate aqui temos apon-
tado: com tudo, entenda cada qual, que com as mortes , &
/ugidas dos fervos, &■ cõ a perda de muitos Cavallos, & Boys,
&com as fcccas , que de improviíò apertão , & mirraõ a Can-
na, & com os defaftres , queacadapafso fuccedem j crecem
os gaftos mais do que fe cuidava. Entenda também , que os
Pedreiros, & Carapinas , &" outros Offieiaes defejofos de ga-
nhar á cu ftaalhea, lhe facilitarão tudo de tal forte , que lhe
parecerá o mefmo levantar hum Engenho, quehúafanzalla
de Negros : &r quãdo começar a ajuntar os aviamentos , acha-
ra ter já defpendido tudo o que tinha, antes de fe. pôr pedra
íoore pedra, & naõ terá com q pagar as foldadas ; crecendo de
improvifo os gaftos , como por caufa das enxurradas os Rios.
lambem, fe naõ tiver a capacidade, modo, & agencia,
que fe requer, na boa difpofiçaõ , à governo de tudo , na elei-
ção dos Feitores, & Oífkiaes , na boa correípondencia com
os Lavradores , no trato da gente fujeita , na confervacaõ , &
lavoura das Terras, que poíTue,& na verdade , & pontualida-
de com os Mercadores , & outros feusCorrefpondentes na
J^raçai achará confufaõ , & ignominia no Titulo de Senhor
de Lngenho, donde efperava acrecentamento de eftimaçaoj
^cde credito. Por iílb, tendo jà faltado do que pertence ao
cabedal , que ha de ter h tratarei agora de como fe ha de havec
no governo: & primeiramente da com pra, & confervacaõ das
I erras, ik íeus Arrendamentos aos Lavradores, q tem : & lo-
go dxeleiçaó dos Officiaes, que ha de ad mittir ao feu ferviço >
apontando as obrigaçoens, & as foldadas de cada hum delles ,
contorniç o eftylo dos Engenhos Reaes da Bahia: & ultima-
mente do governo domcftico da fua familia, Filhos , & Efcra-
vos, recebimento dosHofpedes, & pontualidade em dar faús^
laçao aquém deve j do que depende a confervacaõ do feu cre-
dito , que he o melhor cabedal dos que fe prezaó de honrados,
C A-
&- Opulência. eh cBraftL
CAPITULO II.
Como fe ha de haver o Senhor do Engenho na compra ,
Qf conjervaçaú das Terras , & nos Arrenda-
mentos delias.
SE o Senhor do Engenho naõ conhecer a qualidade das
Terras, comprará Salões por Maflapés , & Apicús por
Saloens. Por iflb, vai ha- fedas informaçoens dos Lavradores
mais entendidos : & attentc naõ fomente á barateza do preço,
mas também a todas as conveniências , que fe haõ de bufcar j
para ter Fazenda com Cannaveaes, Paftos, Aguas, Roças , Sc
Mattos 3 & em falta deites, commodidade para ter a lenha
mais perto, que puder fer, & para efcufar outros inconvenien-
tes, que os velhos lhe poderáõ apontar, que faõ osMeftres,
aquemeníinou o tempo , 6c a experiência , o que os moços
ignoraó.
Muitos vendem as Terras , que tem , por cançadas , ou
faltas de lenha : outros , porque fe naõ atrevem a ouvir tantos
recados, femelhantes aos que fe davaõ a Job, do Partido quei-
mado, dos Boys atolados , dos Efcravos mortos, & doAf-
fucar perdido. Outros obrigados a vender contra vontade
/por caufa dos Acredores, q os apertão, bem pôde fer que ofFe-
reçaó Terras novas ,& fortes } porém o comprador corre en-
tão outro rifco de comprar demandas eternas , pelas obriga-
ções, & hypothecas , a que eftaõ por repetidas vezes fujeitas.
Por tanto neíTe cafo falle o comprador com os Letrados : per-
gunte aos Acredores, que he o que pertendem; Sc fe for necef-
fario, com authoridade do Juiz cite a todos , para faber o que
na verdade fe deve : nem conclua a compra , antes de ver com
A 3 feus
!li
tf Cultura,
feus olhos , que he o que compra ; que títulos de domínio tem
© vendedor ; & fe os ditos bens faõ vinculados , ou livres : & fe
tem parte nelles Orfaos, Mofteiros, ou Igrejas ; para que
fenaõ falte ao fazer da efcritura a alguma condição , ou fo-
lennidade neceífaria. Veja também as demarcaçoens das
Terras } fe foraõ medidas por Juftiça -, & fe os Marcos eftafr
em fer, ou fe ha mifter aviventallos ; que taes faõ os Cohereos ,
afaber, fe amigos de juftiça , de verdade , & de paz ; ou pe-
lo contrario trapaceiros , defenquietos , & violentos : porque
Jiaõ ha peyor pefte 3 que hum mao vizinho.
Feita a compra , naõ falte a feu tempo á palavra , que deo}
pague, & feja pontual nefta parte • ôcattente á confervaçaõ*
&c melhoramento do que comprou, & principalmente ufede
toda a diligencia , para defender os Marcos, & as Aguas, de q
neceílita para moer o feu Engenho : êcmoílre aos Filhos, 6c
aos Feitores os ditos Marcos 5 para q faibaó o que lhes perten-
ce,^ poflaõ evitar demandas^ pleitos, que faõ húa continua
deíenquietaçaõ da Alma > & hum continuo fangrador de rios
de dinheiro, que vay a entrar nas cafas dos Advogados , Soli.
citadores.,&Efcrivaens,com pouco proveito de quem pro-
move o pleito, ainda quando alcança, depois de tantos gaftos3
& defgoftos, em feu favor a fen tença. Nem deixe os papeis, &
as efcnturas , que tem na caixa da Mulher , ou fobre húa meza
expofta ao pó, ao vento, á traça, .& aocopimj para que de-
pois naõ feja neceíTario mandar dizer muitas Miflas a Santo
António, para achar algum papel importante, quedefappa-
xeceo , quando houver mifter exhibillo. Porque lhe acontece-
rá, que a Criada, ou Serva tire duas , ou três folhas da caixa
da Senhora , para embu.ru.lhar com cilas o que mais lhe agra-
dar: 6c o Filho mais pequeno tirará também algumas da me-
za, para pintar caretas , ou para fazer barquinhos de papel,
em que naveguem mofcas, & grillos : ou finalmente o vento
fará , que voem fora da. cajfa fem pennas .
Para
v E Opulência do "Brafil. f
Para ter Lavradores obrigados ao Engenho, lie necefíario
paflarlhes Arrendamento das Terras , em que haó de plantar.
Eftescoftumaõ fazer-fe por nove annos, ôchum dedefpejo,
com obrigação de deixaré plantadas tantasTarefas deCànna:
ou por dezoito annos, & mais , com as obrigaçoens , & nume-
ro de Tarefas , que afoitarem , conforme o eoítume da Ter-
ra. Porém ha-fe de advertir , que os que pedem arrendamen-
to ', fejaô Fazendeiros , & naó deftruidores da Fazenda ; de
forte j que fejaó de proveito , èc naó de dano. E na Efcritura
do Arrendamento fe hão de por as condições neceíTarias. : v.g ;
que naó tirem paos reaes : que naó admittaó outros em feU lu-
gar nas Terras , que arrendaó, fem confentimento do Senhor
delias : 6c outras , que fe julgarem neceíTarias , para que algum
delles, mais confiado, de Lavrador fe naó faça logo Senhor.
E para iíTo feria boa prevenção, ter hua formula , ou nota de
Arrendamentos , feita por algum Letrado dos mais experi-
mentados, com declaração de como fe haverão defpejando;
acerca das BemfeitoriaS} para que o fim do tempo do Arren-
damento naó feja principio de demandas eternas. .
.««»> «s*3 Stat jS4! Sâ £È8§& £& Sísí &&J!èâÊ&
«S*fflUfej^vííí'feí
C A P I T U L O III.
Comofe ha de haver o Senhor do Engenho com os Lá?
vr adores y & outros vizinhos ; Çjy. âíles com o
Senhor*
Ter muita fazenda cria r comummente nos homens ri*
cos, & poderofos, defprezo da gente mais nobre : St par
iíTo Deos facilmente lha tira , para que fe naó firvaó delia pa-
ra crecer era foberba. Quem chegou a ter titulo de Senhor,
parece, que em todos quer dependência de fervos. E ifto prin.
1
Cultura +
cipalmente Te vêem alguns Senhores,que tem Lavradores em
Terras do Engenho 3 ou de canna obrigada a moer nelle; tra-
tando-os com altivez , & arrogância. Donde nace o ferem
malquiftos, & murmurados dos que os naõ podem íbfrer:&
que muitos fe alegrem com as perdas , Sc defaílres , que de re-
pentepadecem ; pedindo os miferaveis opprimidos a cada
paíío juíliça a Deos,,por fe verem tam avexados -y & defejando
verãos feus oppreflbres humilhados , para que aprendaõ a
naõ tratar mal aos humildes : aflim como o Medico defeja , &
procura tirar fora a malignidade, & abundância do humor
peccante, que faz ao corpo indifpofto, &: doente } para lhe
dar defta forte naõ fomente vida, mas também perfeita faude.
Nada pois tenha o Senhor do Engenho de altivo ; nada de
arrogante , & foberbo : antes fej a muito arTavel com todos3 &
olhe para os feus Lavradores,como para verdadeiros amigos*
poistaesfaõ na verdade, quando fe defentranhaõ , para tra-
zerem os feus Partidos bem plantados , ôt limpos , com gran-
de emolumento do Engenho : & délhes todo o adjutorio^que
puder , em feus apertos, aílim com a authoridade, como com
a fazenda. Nem ponha menor cuidado em fer muito jufto, &
verdadeiro , quando chegar o tempo de moer a Canna , & de
fazer, Sc encaixar os AíTucares : porque naõ feria juíliça to-
mar para íi os dias de moer, que deve dar aos Lavradores por
leu turno j,ou dar a hum mais dias ,-que a outro j ou mifturar
o- AíTucar, que fe fez de hum Lavrador, com o da Tarefa de
outroscueicolherparafiomelhor, & dar ao\ Lavrador o fo-
menos , E para evitar eftas duvidas , & qualquer outra fufpei-
ta femelhante , avife, ou mande avifar com tempo a quem
por direito fefegue, para que polia cortar, & carrear a Caa-
na , ôc tella na Moenda ao feu dia : & haja nas- Formas feu í£
nal, para que fediílingaó das outras. Nemeítranhe, que os
Lavradores queiraõ ver noTendal , & Cafa de purgar, no.
Balcaó , & Cafa de encaixar , ao feu AíTucar j pois tanto lhes
cuftou.
&- Opulência ao Jira/u. t f
cuftou chegalloapôrneííeeftado, & tanta amargura preces
deo a eíta limitada doçura. . : •
Também feria final de ter ruim coração , fazer mavizi.
nhança aosque moem a Canna livre em outros Engenhos , fó
porque a naõ moem no feu: nem ter boa correfpondencia eora
os Senhores de outros Engenhos , fó porque cada qual dellcs
folo-a.de moer tanto , eomo outro s ou porque a algum delles
lhevay melhor, com menos gafto ,.& fem perdas. E fe a enve-
já entre os primeiros Irmãos ,. que houve no Mundovfoy tam
arrojada, que chegou a enfanguentar as mãos de Caim com
o fatigue de Abel, porque Abel levava a bençaõdoCeo, &
Caim naõ, por fua culpa: quem duvida, que poderia chegar
a renovarfemelhantes Tragedias ainda hoje entre os paren-
tes > pois ha no Brafil muitas paragens , em que os Senhores de
Engenho faõ entre fi muito chegadas por fangue, Sr pouco
unidos por charidade, fendo ointereíTea caufa de toda a dif-
cordia , & bailando tal vez hum pao quefe tire , ou hum Boy
que entre em hum Cannaveal pordefeuido, para declararei
odioefeondido, & para armar demandas, & pendências mos-
taes ? O unicoremedio pois , para atalhar pezados defgoftoSj
foe haver-fe com toda a urbanidade , & primor ; pedindo li-
cença para tudo, cada vez que for neceífario valer-fc do que
tem os vizinhos : & perfuadirfe , quefenegaõ o que fe pede,,
fera, porque a neceflidade os obriga. E quando ainda fe co-
nheceíre,quet)negar-fehepordefprimor> a verdadeiras &
mais nobre vingançaferá,dar logo a quem negou o que fe pe-
dio , na primeira occafiao dobrado do que pede, para que de^
íta forte caya por bom modo na cota de como devia proceder»
Sobre todos porém os que fe devem haver com mayor ref-
peito para com o Senhor do Engenho* faõ os Lavradores,, que:
tem Partidos obrigados à fua Moenda ; & muito mais os qu&
lavraõ em Terras, que o Senhor lhes tem arrendado .-particu-
larmente , quando deita forte começarão fua vida , & chegai
mo*
__
— «.
I
*o Cultura,
raõ por efta via a ter cabedal -, porque a ingratidão , Sc o faltar
ao refpeito, 6c cortezia devida, henota digna de fer muito
eítranhada : 6c hum agradecimento obfequioíb cativa aos âni-
mos de todos com correntes de ouro. Porém efte refpeito nú-
ca ha de fer tal, que incline a obrar contra juftiçaj principal-
mente quando foíTem induzidos a fazer coufa contra ria á ley
de Deos: como feria, a jurar em demandas crimes , ou eiveis
contra a verdade , 6c a por-fe mal com os que com razaõ fe de-
fendem. E o que tenho dito dos Senhores do Engenho , digo
também $as Senhoras : as quaes , pofto que mereçaõ mayor
refpeito das outras, naõhaódepreYumir, que devem fer tra-
tadas como Rainhas j nem que as Mulheres dos Lavradores
hão de fer fuás Criadas , Scapparecer entre ellas como a Lua
entre as Eftrcllas menores.
C A P I T U L O IV.
Como fe ha de haver o Senhor do Engenho tia elet*
çaõ das Pefíoas , &* Officiaes , que admittir ao
fett fervigo : Qf primeiramente da eleição
do Capellao»
SE em alguma coufa mais que em outra, hade moftraro
Senhor do Engenho a fua capacidade , 6c prudência j eíla
fem duvida he a boa eleição das FeiToas , 6c Oííiciaes , que ha
de admittir ao feuferviço para o bom governo do Engenho.
Porq fendo a eleição filha da Prudcncia ; com razaõ fe argui-
ra de imprudente , quem efeolher Peffoas , ou de ruim vi*
da, ou ineptas para o que haõ de fazer. E claro eftá, que
huns com a ruim vida deíagradaráõ a Deos , 6c aos homens, &c
foráõ caufa de muitos, 6cbempezadosdefgoítoSj &c outros
com
E Opulência da 'Bra/il. t $
com a ineptidão caufaráõ dano naõ ordinário â Fazenda. E
iírolbepoderádeftranhar com razaõ, naõ fó ôs^de cafapor
mais chegados a queimarfe , ou a chamufcar-fe eõcfcu trato;
mas também os de fora .• 6c principalmente os Lavradores ,
obrigados a experimentar fem culpa os prejuízos , que fefe-
guem ao feu malogrado fuor i de naõ faberem os QfBciaes o
que requero feu O ffkió.
O primeiro, que fehadeefcolher com circuttfpeeçaõ , Sc
informação fecreta do feu procedimento, & íaber , he o Ca-
pellaõ, a quem fe ha de encomendar o enfino de tudoaque
pertence ávida Chriftaã ; para deita forte fatisfazer á mayor
das obrigações, que tem : a qual he doutrinar, ou mandar
doutrinar a família , & Efcravos, naõ)à por hum Crioulo y òii
por hum Feitor,que quando muito poderàenfinarlhes vocal«
menteasOraçoens,&: os Mandamentos daLey de Deos, $c
da Igreja ; mas por quem faiba explicarlhes o que hão de crer»
o que hão de obrar , & como haõ de pedir a Deos aquiílo , de
que neceílitaõ. E para iíTo fe íor necefíario dar ao Capellaõ ai*
gumacoufa mais do que fe coítuma j entenda , que efte fera -é
melhor dinheiro , que fe dará em boa maõ»
Tem pois o Capellaõ obrigação de dizer IVlkTa na Ca-
pella do Engenho nos Domingos , & dias fantos , ficandolhe
fivreaapplicaçaõ das Mulas nos outros dias dafemana por
quemquizer: falvofefe concertar de outra forte com o Se*
nhor da Capella,rccebendo eftipendio proporcionado ao tra-
balho. E nos mefmos Domingos , & dias faiitos ,ou pelo me*
nos nos Domingos , fe fe admittir comeffca obrigação ,. expli-^
earàa Doutrina Chriftaã, a faber os prineipaes miyfteriosda
Fé , & o que Deos , & a Santa Igreja mandaõ, que fe guarde.
Qiiam grande mal he o peceado mortal' : Que penalhe tem
Deos aparelhado.nefta >&" na outra vida , aonde a%&kna vive,
& vivirâ immortalmente. Que remédio nos deo Deos naE n=
earnaçaõ, ôcMorte de Jefu Chriíto feu SantiflimoFilho, para
tt -"Cultura,
que fe nos perdoaffem aílim as culpas, como as penas, que pe-
las culpas fe devem pagar. De que modo havemos deconfef-
farospeccados3&pediraDeosperdaõ dellescom verdadei-
ro arrependimento, Scpropofito firme de naõ tornar a com-
mettellos , ajudados da graça divina. Em queconíiíle fazer
penitencia de feuspeccados. Quem eílá no Santiflimo Sacra-
mento do Altar : Porque eftá ahi , ôc fe recebe : Com que dií-
pofiçaõ fe ha de receber em vida, ôc por Viatico na doença
mortal. Quanto im porta ganhar as Indulgências, para defeon-
tar o que fe deve pagar no Purgatório. Como cada qual fe ha
de encomendar a Deos paranaõcahirempeccado, & ofíè-
recerlhe pela manhãa todo o trabalho do dia. Quanto faõ di-
gnos de abominação os Feiticeiros,& Curadores de palavras,
6c os que a elles recorrem, deixando a Deos , de quem vem to-
do o remédio ■: os que daõ peçonha, ou bebidas (como di-
zem1) para abrandar , & inclinar as vontades : os Borrachos,
©s Amancebados, os Ladrões, os Vingativos, os Murmura-
dores, òeosquejuraõfalfo, ou por malignidade, ou porin-
tereíle , ou por refpeitos humanos. E finalmente que premio,
&c que pena ha de dar Deos eternamente a cada qual , confor*
me obrou nefla vida.
Procurará também a approvaçaõ para ouvir de confiftaõ
aos feus Applicados -y & para que fendo Sacerdote , & Mini-
ftrodeDeos, lhespofla fervir frequentemente de remédio 5
naõ fe contentando fó com acudir no artigo da morte aos do-
entes. Mas advirta naadminiftraçaõ deite Sacramento , aue
naõ he Senhor delle, por muita authoridade que tenha : por-
que fe o Penitente naõ for difpofto , por caufa de eftar aman-
cebado, ou andar com ódio do próximo , ou por naõ tratar de
reftituirafama,ou a fazenda, que deve -, ainda que folie. o
mefmo Senhor do Engenho, o naõ ha de abfolver : & nifto
poderia haver , por rcfpeito humano , grande encargo de cõf-
ciencia , & culpa bem grave.
Corre
&• Opulência do 'Braftl. i j
* .:": Corre também, por fua conta pôr a todos em paz , :& ata*
l!*ar diícordias : & procurar , que na Çapella , em que affiíte,
feja Deos honrado , & a Virgem Senhora noíla, cantandolhe
nos Sabbados as Ladainhas ; & nos mezes , em que o Enge-
nho rtaõ moe , o terçodo Rofario : naõ confentindo rifadas ,
nem converfaçoens, & praticasindecentes 3 naõ fó na Capei-
la, mas nem ainda no CopiarVparticularmente quando íe cele-
bra o fanto Sacrifício da Miíía.
Advirta alem difto de nàõ receber Noy vos , nem bautí-
zarfóra de algum cafo de neceflidade, nem defobrigâr na
Quarefma peílòa alguma 3 fem licença in fcriptis do Vigário,
a quem pertencer daila -, nem fazer coufa , que toque á jurif-
dicçao dos Párocos ; para que nao encorra nas penas , & cen-
furas, que íbbreiíTbfaó decretadas y & debalde fe queixe do
feu defcuido , ou ignorância.
Finalmente faça muito por morar fora de caía do Senhor
do Engenho : porque afíim convém a ambos -y pois he Sacer-
dote , & naô Criado , familiar de Deos , & não de outro ho-
mem : nem tenha em cafa Êfcrava para o feu ferviço } que naó
feja adiantada na idade : nem fe faça Mercador ao divino , oií
ao humano^ porque tudo ifto muito fe oppoem ao eftado Cle~
rical, que profeífa , & fe lhe prohibe por vários Stimmos Pora*
tiíices.
O que fe coftuma darão Capelíaõ cada anno pelo feu tra-
balho, quando tem as Miífas da femana livres ,. faõ quarenta*.
ou cincoenta mil reis : & com o que lhe dao os ÀppIicadosr
vem a fazer húa porçaõ competente , bem ganhada , fe guar-
dar tudo o q acima eílá dito. E fe houver de enfinar aos filhos
do Senhor do Engenho 5 fe lhe acrece titara o que for juílo , ôc
eorrefpondente ao trabalho.
No dia , em que fe bota a Canna a moer , fe o Senhor do
Engenho naõ convidar ao Vigário ; o Capelíaõ benzerá o En-
genho A ôc pedirá a Deos ,o^uedèbonirendimento,s & livre
*4 Cultura ,
aos que nelle trabalhão de todo odefaftre. E quando no fim
dafafrao Engenho pej ar y procurará, quetodosdemaDeos
as graças na Capella.
C A P I T U L O V.
Do Feitor Mor do Engenho , Qf dos outros Feitores
menores , que ajftfiem na Moenda , Fazendas , .
Qf Partidos da Qanna :fuas obrigaçoensj
&' foldadas*
S braços , de que fe vai o Senhor do Engenho , para o
bom governo da Gente , & da Fazenda , faõ os Feito-
res. Porém, fe cada hum delles quizer fer cabeça, fera o go-
verno monítruofo, 6c hum verdadeiro retrato do Caõ Cfer-
bero, a quem os Poetas fabulofamente daó três cabeças. Eu
naõ digo , que fe naõ dé authoridade aos Feitores : digo , que
efta authoridade ha de fer bem ordenada , & dependen te , naõ
abfolutaj de forte, que os menores fe hajaõ com fubord ma-
ção ao mayor , Sc todos ao Senhor , a quem fervem. Convém,
queosEfcravosfeperfuadaõ, que o Feitor Mor tem muito
poder para lhes mandar -, & para os reprehender , & cafhgar,
quando for neceíTario : porém de tal forte, q também faibaó ,
que podem recorrer ao Senhor j & q haó de fer ouvidos , como
pede a juftiça.Nem os outros Feitores, por terem mando, haõ
de crer, que o feu poder naó he coartado, nem limitado , prin-
cipalmente no que heeaítigar, & prender. Por tanto o Se-
nhor ha de declarar muito bem a authoridade, queda a cada
hum delles , & mais ao Mayor : & fe excederem , ha de puxar
pelas rédeas com a r.epreheníaó ,que os exceíícs merecem:
mas naõ diante dosEfcravos, para que outra vez fe naó levan-
tem contra o Feitor -} Sceíteleve a mal de fer rcprehendido
diante
&- Opulência do TZrafiL 15
diante delles , & fe naõ atreva a governallos. Só bafíarà , que
por terceira petToa fe faça entender ao Efcravo, quepadeceo,
&: a alguns outros dos mais antigos da Fazenda,, que o Se-
nhor eííranhou muito ao Feitor o excello, que commetteo;
&:que quando fe naõ emende, o ha de defpedir certamente.
Aos Feitores de nenhuma maneira fe deve confentir o dar
couces, principalmente nas barrigas das Mulheres, que an-
daó pejadas; nem dar com pao aos Efcravos : porque na có-
lera fè naó medem os golpes; 8c pode ferir mortalmente na ca-
beça a hum Eícravo de muito preííimo, que vai muito dinhei-
ro, Sc perdello. Reprehendellos , & chegarlhes com hum ci-
pó âs coitas com algumas varancadas , he o que fe lhes pôde,
& deve permittir para eníino. Prender os fugitivos , & os que
brigarão com feridas , ou fe embebedarão , para que o Senhor
os mande caítigar, como merecem j he diligencia digna de
louvor. Porém amarrar, & caíligar com cipó, até correr o fan*
gue ; Sc meter no tronco , ou em liíia corrente por mezes £ef-
tando o Senhor na Cidade ) aEfcrava , que naõ quiz confen-
tir no peceado y ouao Eícravo , que deo fielmente conta da
infidelidade, violência, & crueldade do Feitor , queparaif-
ío armou delitos fingidos riflo de nenhum modo fehadefo~
frerj porque feria ter hum Lobo carniceiro y$c naõ hum Fei«
tor moderado , & Chriítaó.
Obrigação do Feitor Mor doEngenho He governar a gcn
te , & repartia a a feu tempo , como he bem , para o ferviço, Á<
elle pertence faber do Senhor , a quem fe hadeavifar para que
corte a Canna 5 & mandarlhe logo recado.. Tratar de aviar os
Barcos , & osCarros para bufear a Canna , formas , & lenha.
Dar conta ao Senhor de tudo o que he neceííario para o apa*
relho do Engenho , antes de começara moer -, & logo acaba-
da a fafra , arrumar tudo em feu lugar. Vigiar, que ninguém
falte áfiiâ obrigação : êc acudir depreíía a qualquer defaírres á
fueceda, para lhe dar,quãto puder fer^o rexnedio.Adoecendb
Cultura ,
qualquer E/cravo, deve iivrallo do trabalho 5 &;pôr outro em
íeu lugar : 6c dar parte ao Senhor, para que trate de õ mandar
curar 5 6c ao Capellaõ , para que o ouça deconfillaõ , & o dis-
ponha, crecendo a doença,com os mais Sacramétos para mor-
rer. Advirta , que fe naõ metaò no carro -os Boys , que traba-
lharão muito nos dias antecedentes : 6c que em todo o ferviço
aílim como fe dá algum defcanço aos Boys , òc aos Cavallcs ;
aílim fe dé , & com mayor razaõ , por fuás efquipaçcens aos
Efcravos.
O Feitor da Moenda chama a feu tempo as Efcravas , re-
cebe a Canna , 6c a manda vir, & meter bem nos Eixos , & ti-
rar o bagaço : attentando, q as Negras naõ. durmão, pelo pe-
rigo que ha , de Mearem prezas , 6c moidas , felhes naõ cor-
tarem as mãos , quando iílo fueceda 5 6c mandando junta-
mente divertir a agua da Roda , para que pare. Procura , que
de vinte 6c quatro em vinte & quatro horas fe lave a Moenda,
Sc que o Caldo vá limpo , & fe guinde para o Paról. Pergunta
quanto Caldo ha mifter nasCaldeiras,para que faiba com efte
avifo, fe ha de moer mais Canna , ou parar , atè que fe dé va-
#aõ , para que naõ azede o que jâ eítá no Paról.
Os Feitores , que eílaõ nos Partidos , & mais Fazendas ,
{em à fua conta defender as Terras : ■& avifar logo ao Senhor,
fe ha quem fc metta dentro das Roças , Cannaveaes , & Mat-
tos , para tomar o que naõ he íeu. Aíliítir aonde os Efcravos
trabalhão , para que fe faça o ferviço , como he bem. Saber os
tempos de plantar , limpar, & cortar a Canna, & de fazer
Roças. Conhecer a diveríidade das Terras , que ha , para fer-
virfe delias para o que forem capazes de dar. Tomar a cada
Efcravo a Tarefa , 6c as mãos , que he obrigado entregar. At-
tentar para os caminhos dos Carros , que fejaõ taes , que por
elles fe poíía conduzira Canna,6c a lenha, de forte que naõ fi-
quem na lama : & que também os Carros fe concertem quan-
do for necefiario. Ver , que cada Efcravo tenha fua fou-
ce,
& Opulência do 'Bra/ii. * ?
■çe, & enxada , Sc o mais , que ha miíter para o ferviço. E efte-
ja muito attento , que fe naõ pegue o togo nos Cannaveaes
por defcuido dos Negros boçaesyque ás vezes deixaó ao ven-
to o tiçaó de fogo, que levâraõcomfigo para ufârem do ca-
chimbo: êcem vendo qualquer lavareda, acuda-lhelogo com
toda a gente , & corte com fouces o caminho á chama , que
vay crecendo ,com grande perigo de fe perderem em mèya
hora muitas Tarefas deCanna,
Ainda que fe faiba aTarefa da Canna , que hum Negro
ha de plantar em hum dia , & a que ha de cortar ; quantas Co-
vas de Mandioca ha de fazer , & arrancar ; Sc que medida de
lenha ha de dar , como fe dirá em feu lugar : com tudo, haõ de
attentaros Feitores â idade, & ás forças de cada qual , para
diminuírem o trabalho aos que elles manifeítamente vem,
que naõ podem com tanto: como faõ as Mulheres pejadas de-
pois de féis mezes , & as que ha pouco que paríraõ , 8c criaõy
os velhos , ôc as velhasj 6c os que fahíraõ ainda convalecentes
de algúa grave doença.
Ao Feitor Mor daõ nos Engenhos ReaesTeíTenta mil reis.1
Áo Feitor da Moenda, aonde fe moe por fete , 6c oito mezes»
quarenta, ou cincoenta mil reis , particularmente fe fe lhe en-
comenda algum outro fer viço :mas aonde ha menos que fa-
zer 3 Sc naõ fe occupa em outra coufa , daõ trinta mil reis. Aos
que aíliftem nos Partidos, & Fazendas , também hoje, aonde
a lida he grande, daõ quarenta, ou quarenta & cinco mil reis.
B
C A-
C A P I T U LO VI.
Do Meftre do ^Afjucar , Ç$* Soto-meftré a quem cha?
maõ Banqueiro y Q? do feu Ajudmte, a quem
chamao udjudabanqueiro.
■
A Quem faz o ÁíTucar ,- com razaõ fé dá o nome de Me-
ftre ; porque o feu obrar pede intelligencia , attençaõ y
Sc experiência : & eíla , naõbafta quefeja qualquer 5 mas he
neceíTaria a experiência local ,: a faber , dokigar , Sc qualida-
de da Canna , aonde íe planta , St fe moe : porque os Canna-
veaes de hua parte, daõ Canna muito forte $.& de outra, mui-
to fraca. Diverfo çumo tem a Canna das Várzeas, do que tem
a dos Outeiros : a das Várzeas vem muito aguacenta, Sc o cal-
do delia tem muito que purgar nas Caldeiras , & pede mais
decoada: a dos Outeiros vem bé aíTiicarada5&: o feu caldo pe-
de menos tempo, &c menos decoada para fe purificar, Sc cla-
rificar. Nas Tachas ha Melado, que quer mayor cozimento^
& ha outro de menor : hum , logo fe eondenfa na batedeira:
outro , mais de vagar. Das três Temperas , que fe haõ de fazer
para encher as formas^depende o purgar-fe o Afilicar bem, ou
mal , conforme ellas faõ. Se o M eílre fe fiar dos Caldeireiros ,
Sc dos Tacheiros , húas vezes cançados, outras fonorentos, Sc
outras alegres mais do que convém , Sc com a cabeça efquen-
tadajacontecerlhe-haver perdida hua, Sc outra Meladura,
fem lhe poder dar remédio. Porifio vigie em coufa de tanta
importância : Sc fe o Banqueiro , Sc o Ajudabanqueiro naõ ti-
verem a intelligencia, & experiência neceífaria para fuppri-
rem em fua aufencia> naõ defeance fobre elles : enfme-os , avi-
íè-os 3 Sc fe for neceííano 3 reprehenda-os 3 pondo-lhes diante
dos.
&- Opulência do 'Bra/íL xp
dos olhos o^rejiúzo do Se nhor do Engenho , & dosrLan&-
dores,fe íe perder o Matado nas Tachas, ou fe formal tempe-
radopara as Formas..
Veja,que o Feitor díMoenda modere de tal forte o moer,
que lhe naõ venha ao Pa rol mais caldo do que ha miíter; para
ihe poder dar vazáõ antes que fe comece a azedar , purganv
do-o, cozendo-o, & batendo-o, quanto he neceíTario.
Antes de fe botara decoada nas Caldeiras do caldo, ex-
perimente , queítalêlla;he-j &: depois veja , como os Caldei-
reiros a botaõ , 8c quando haõ de parar : nem confinta , que a
Meladurafe coe, antes de ver ,fe ooddoeftá purificado, cp-
móhadefer :&omefmoéigodapaíragemdehúa paraoutra
Tacha , quando fe hade cozer , 8c bater :fendo a alma de todo
o bomfucceífo a4iligente attençaõ,
A jufíiça, & a verdade o obrigaõ a naó miílurar o AlTucar
de hurn Lavrador com odo outro : 8c por úTo nas Formas,
que manda pôr no Tendal , faça, que haja final com que fe
poífaõ diftinguir das outras , qu e pertencem a outros donos*
para que o Meu \ 8c o Teu, inimigos da paz , iiaõ íejaò caufa
de bulhas. E para que a fua obra feja perfeita , tenha boa cor-
refpondencia com o Feitor da Moenda, que lhe envia o Cal-
do j com o Banqueiro, &z Sotobanqneiro , quelhefuccedem
de noite no ofiicio j &c com o Purgador do Aílucar} para que
vejaõ juntamente donde nace o purgar bem , ou mal em as
Formas : 8c fejaõ entre fi como os olhos , que igualmente vi-
giaõ ;& como as mãos , que unidamente trabalhão.
O que até agora eílá dito , pertencerem grande parte ao
Banqueiro também , quehcoSoto-meftre, &c aoSoto-ban-
queirofeu Ajudante. Ealemdiflb pertence a éftes dousOf-
ficiaes ter cuidado do Tendal das Formas 3 de taparlhes os
•buracos , cavarlhes as covas de bagaço corri cavadores , endi-
reitallas, 8c botar nellas o AíTucar feito eom as três Tempe-
ras 5 das quaes fe fallarà em feu lugar : 8c depois detresdias,
B % enviallas
ao Cultura,
enviallas paraaCafa de purgar, ou fobrepa violas, ou às co-
itas dos Negros , paca. que o Purgador trate delias.
Devem também procurar , que fe faça a répartiçaõjufta
?dos claros entre os Efcra vos, conforme o Senhor ordenar -, &
.que nefta Cafà haja toda a limpeza, & claridade, agua , der
coada , & todos osinftrumentQs , dos quaes nellafeufa. E ao
Meftre pertence ver , antes de começar o Engenho a moer. , fe
.es. fundos das Caldeiras , & das Tachas tem neceílidadede
ferefazeremj&fe os aífentos delias pedem, novo, &mais fir-
me concerto^
AfoldadadoMeílrede AíTucar nos Engenhos , que fa-
zemquatro ou cinco milpaés,, particularmente fe elle vifita
também a Cafa.de purgar, he de cento &■ trinta mil reis : em
outros daõ-lhe fó cem mil reis. Ao Banqueiro nos mayores.,
quarenta mikeis:j nos menores y trinta mil reis. Ao Sotoban-
queiro (que comummente he algumJVIulato , ou Crioulo Eí-
cravo de cafa.) dá.fe também no fim da fafra algum mimo , fe
fervio çomfatisfaçaó no feu officioj para que a efperança de-
ite limitado premio o/alente fuav emente para o trabalho.
C A P I T U LO VIL
Do Purgador de Afincar..
AO Purgador do AíTucar pertence ver o barro, que vem
para.o giraoa feccar-fe fobre oCinzeiro ,fe he qual de-
ve fer , como fediri em feu lugar : olhar para o Amaílador , fe
anda , como deve , com o Rodo no Cocho : furar os Paens nas
Formas , & le vantallas» Conhecer, quando o AíTucar eftá en-
xuto,& quando he tempo de lhe botar o primeiro barrou co-
jnoefte fe ha-deeltender , & quanto tempo fe ha de deixar ,
antes de.lhe botar o fegundo : como felhe haõ de dar as humir
dades*
"&- Opulência do cBra(il. z i
dades, ou lavagens , Sc quantas fe lhe. haõ de dar v Sç quaes faó
os finaes de purgar , ou naõ purgar bem o AíTucar ,, conforme
as diverfas qualidades , Sc temperas. A elle também pertence
ter cuidado dos Meles , ajuntai los , cozellos , & fazer delles
Batidos j ou guardallos , para fazer Agua ardente. Deve jun-
tamente ufa de toda a diligencia, para que fe naófnjem os,
Tanques do Mel > Sc de alguma induítria parar afugentar aos
Morcegos , que cõmúmente faó a praga quaíi de todas as Ca-
ías de purgar.
Ao Purgador de quatro mil Paes de AíTucar áí-íc folda^
da de cincoenta mil reis . Aos que tem menos trabalho dá-fe
também menos , com a devida proporção.
CAPITULO VIII.
Do Caixeiro do Engenho.
O Que aqui lê dirá , naõ pertence ao Caixeiro da Cidades
porque efte trata fó de receber o AíTucar já encaixa*»
do 3 deomandaraoTrepiche , de o vender, ou embarcar,
conforme o Senhor do Engenho ordenar : & tem Livro de ra-
zão de dar , Sc haver : ajufta as contas , Sc ferve de Agente,
Contador, Procurador , Sc Depoíkario de feu Amo : ao qual,
fe a lida he grande , dá-fe foldada de quarenta ou. cincoenta
mil reis. Fallo aqui do Caixeiro , que encaixa o AíTucar , de-
pois de purgado. E fua obrigação he , mandar tirar o AíTu«
car das Formas , eftandojá purgado , Sc enxuto em dias cla-
ros , Sc de Sol : aííiílir, quando fe mafcava, Sc quando fe bene-
ficia no Balcão de feccar , partindo-o , quebrando-o , como
fe dirá em feu lugar. Elle he que péza o AíTucar , Sc que o re-
parte com fidelidade entre os Lavradores, Sc o Senhor do En-
genhoj& tira o dizimo, quefedeveaDeos^ 6ç a vintena, ou
B 3 quinto,
'
flly
ai' Cintura,
quinto, que pagaõ os que lavraõ em terras cio Engenho . con-
forme o concerto feito nos Arrendamentos , & o eftylo ordi-
nário da Terra , o qual em vários lugares he diverfo : ■& tudo
affenta, para dar conta exactamente de tudo. A elle também
pertence levantar as caixas, & mandarias barrear nos cantos.-
encaixar, &r mandar pilar o AíTucar, com ádiviíaó do Branco
Macho, do Batido, & Mafcavado : fazer as Caras , & os Fe-
chos, quando affim lho encomendarem os donos do AíTu-
car : & finalmente pregar , & marcar as Caixas j & guardar o
AíTucar 3 que fobejou, para feus donoscmlugarfeguro , Sc
naõ húmido ; & os inílrumentos , de que ufa. Entrega as Cai-
xas , quando fe haó de embarcar , com ordem de quem as re-
cada ou como dono delias, ou porque as alcançou por j ufti-
Ça, como muitas vezes acontece , fazendo os Acredores pe-
nhora no AíTucar dos devedores, antes que faya do Enge-
nho: & detudo pedirá recibo, & clareza, para poder dar con-
ta de íi a quem lha pedir.
A foldada do Caixeiro nos Engenhos m ay ores he de qua-
renta mil reis : & fe feitoriza alguma parte do dia , ou de noy^
te,daõ-felhe cincoenta mil reis: nos menores daó trinta mil.
A P I T U L O IX.
.Gomo fe hade haver o Senhor do Engenho com feus
Mfcravos*
OS Efcravos faó aSniãos , & os pés do Senhor do Enge-
lho j porque fem elles no Braíil naõ hepoiTivél fazer,
confervar , & aumentar Fazenda, nem ter Engenho corrente.
£ do modo, com que fe ha com elles, depende tellos bons,
ou maosparaoíerviço. PoriíTohe.neceíTario comprar cada
anno
& Opuhncia do TSrafil. 1 1
ânno 'algumas peças, & repartillas pelos .Par ri-los ', Roças*
Serrarias, & Barcas. É porque comummente faõ de Naçoens
diverfas , & huns mais boçaes que outros , 6c de forças muito
differentes •, fe ha de fazer a repartição com reparo , & efco*
lha ,6cnaõàs cegas. Os que vem para o Braíi], faõ Ardas j
Minas, Congos,deS.Thomé, de Angola, de Cabo Verdey
6c alguns de Moçãbique, q vem nas Nãos dalndia. Os Adas;
■éc os Minas faõ robuftos.Os de Cabo Verde, de de SJThomè
faõ mais fracos. Os de Angola creados emLoanda faõ mais
capazes de aprender, oíÍ€Íosinecanicos,q os das outras partes
j á nomeadas . E ntre os Con gos ha também alguns baftantemé-
te induftriofos , 6c bons , náõ fomente para o fervi ço da .Can-*'
na , mas para as Officinas > 8c para o meneo da cafa.
Huns chegaõ ao Brafil muito rudes , 6c muito fechados ,
6c aífim continuaó por toda a vida. Outros em poucos annos
íaem ladinos , 6c efpertos, aííim para aprenderem a Doutrina
Chriítal , como para bufearem modo de paliar a vida , Sc pa-
ra fe lhes encomendar hum barco , para levarem recados ,
&c fazerem qualquer diligencia das que coílumaõ ordinária-'
mente oceorrer. As Mulheres ufaõ de fouce, 6c de enxada,
como os Homens : porém nos Mattos , fomente os Eferavos'
ufaõ de machado. Dos ladinos fe faz efeolha para CaldeireL'
ros , Carapinas , Calafates , Tacheiros , Barqueiros , &c Ma.
rinheiros; porque eftasoecupaçoens querem mayor adver.'
tencia. Os que defde novatos fe metèraõ em alguma Fazen^
da, naõ he bem que fe tirem delia contra fua vontade > por-'
que facilmente feamofinaõ , 6c morrem. Os que nacèraõ no:
Brafil, ou fecreâraõ defde pequenos em cafa dos Brancos, af-:
feiçoando-fe a feus Senhores , daó boa conta de íi : 6c levando-
bom cativeiro , qualquer delles vai por quatro boçaes.
Melhores ainda faõ para qualquer orBcio os Mulatos!
porém muitos delles ufando mal do favor dos Senhores , fácV
foberbosJ 6c viciofos ,6c prezaõ-fe de valentes yaparelhados^
•■-" ■'] B4 para
^4 Cultura,
para qualquer defaforo. E comtudo elles , & elías da mefma
cor , ordinariamente levaõ no Brafil a melhor forre ; porque
com aquella parte de Tangue de Brancos , que tem nas veas, &
tal-vez dos feus mefmos Senhores, os enfeitiçaõ de tal manei-
ra^ que alguns tudo lhes fofrem, tudo lhes perdoaõ r apare-
ce, que fenaõ atrevem a reprehendellos; antes todos os mi-
mos faõ feus. E naõhe fácil coufa decidir, fe nefta parte faõ
mais remidos os Senhores , ou as Senhoras j pois naõ falta en-
tre elles 3 & ellas , quem fe deixe governar de Mulatos , que
naõ faõ os melhores : para que fe verifique o provérbio, que
diz : Que o Braíil he Inferno dos Negros , Purgatório dos
Brancos, & Paraifo dos Mulatos, & das Mulatas .'faivo quan-
do por alguma defconfiança , ou ciúme , o amor fe muda em
ódio , 6c fae armado de todo o género de crueldade , & rigor.
Bom he valer- fe de fuás habilidades, quando quizarem ufar
bem delias, comoafíim o fazem alguns -r porem naõ fe lhes
ha de dar tanto a maõ , que peguem no braço , & de Efcravos
fe façaõ Senhores. Forrar Mulatas defenquietas , he perdi-
ção manifefta; porque o dinheiro, que daõ para fe livrarem,
raras vezes fae de outras minas , que dos feus mefmos corpos ,
com repetidos peccados : & depois de forras , continuaõ a fer
ruína de muitos.
Oppoem-fe alguns Senhores acs cafamentos dos Efcra-
vos , & Efcravas } & naõ fomente naõ fazem cafo dos
feus amancebamentos , mas quaíi claramente os confentem »
<8c lhes daõ principio , dizendo : Tu Fulano a feu tempo cafa-
ràs com Fulana ; & dahi por diante os deixaõ converfar entre
íi, como fe jà fofíem recebidos por Marido, & Mulher : & di-
zem, que os naõ cafaõ, porque temem que enfadando- fe do
cafamento, fe matem logo com peçonha, ou com feitiços;
naõ faltando entre elles Meftres infignes nefta Arte. Outros»
depois de eílaremcafados os Efcravos, osapartaó de tal for-
te por annos, que ficaõ como fefoíTem folteiros : o que naõ
podem
C> Opulência do "Bra/il. i f
podem, fazer em confciencia. Outros faõ'tam pouco cuida-
dofos"do que pertence á falvaçaõ dos feus Efcravos , qlieos
tem por "muito tempo no Cannaveal , ou no Engenho fem
Bautifmo: & dos bautizados muitos naõ fabem, quem he o
feu Creador ; o que haõ de crer ; que ley haõ de guardar •, co-
mo fe haõ de encomendar a Deos> a q vaó osChriftáos á Igre-
ja j po rq adoraó a Hoftia confagrada ; que vaó a dizer ao Pa-
dre, quando ajoelhaõ , & lhe fallaõ aos ouvidos > fe tem alma;
&fe ella morre,¶ onde vay,quando fe aparta do corpo.E
fabendo logo os mais boçaes , como fe chama, 8c quem he feu
Senhor quantas covas de Mandioca haó de plantar cada dia*
quantas mãos de Canna haó de cortar ■, quantas medidas de
lenha hão de dar ; & outras coufas pertencentes ao ferviço or-
di nario de feu Senhor : & fabendo também pedirlhe perdaõ ,
quando errâraõ , & encomendarfe-lhe, para que os naõ ca*
fiiprie , com promettimento da emenda ; dizem os Senhores ,
que eftes naó faõ capazes de aprender a confeflarfe , nem de
pedir perdaõ a Deos , nem de rezar pelas contas , nem de fa-
ber os dez Mandamentos: tudo por falta de eniino, & por naó
confiderarem a conta grande , que de tudo ifto haõ de dará
Deos j pois (. como diz Saõ Paulo ) fendo Chriftáos , & def-
cuidando-fe dos feus Efcravos , fehaõcom ellespeyor, do
que feibíTem Infiéis. Nemosobrigaõ os dias Santos a ouvir
Miffa i antes tal vez os oceupaõ de forte , que naó tem lugar
para úTo: nem encomendaõ ao Capellaõ doutrinallos , dan-
do-lhe por eíle trabalho , fe í or neceííario , mayor eftipendio.
O que pertence ao fuftento, veftido,& moderação do tra-
balho ■, claro eftá , que fe lhes naõ deve negar : porque a quem
o ferve deve o Senhor de juftiça dar fufficiente alimento ; me-
zinhas na doença -y &modo , com que decentemente fe cu-
bra , &c viíta, como pede o eílado de Servo, & naõ apparecen-
do quaíl nú pelas ruas ; & deve também moderar o ferviço de
forte, que naõfeja fuperior ás forças dos que trabaihaõ3fe quer
que
mm
%& Cultura,
que poíTaÕ aturar. No Brafil coftumaõ dizer , que paraoEf-
çravo faó neceíTarios três PPP, a faber Pao, PaÕ, 6c Panno. E
poílo que comecem mal , principiando pelo caítigo, que he
oPaOi com tudo prouvera a Deos que taõ abundante fofle o
comer, & o veftir, como muitas vezes he o caítigo, dado
por qualquer caufa pouco provada , ou levantada ; 6c com in-
ílrumentos de muito rigor, ainda quando os crimes faó cer-
tos: de que fenaõ ufa nem com os Brutos animaes, fazendo
algum Senhor mais cafo de hum Cavallo , que de meya dú-
zia de Efcravos : pois o Cavallo he fervido , Sc tem quem lhe
bufque capim ; tem panno para o fuor } ôc fella , 6c frevo dou-
rado.
Dos Efcravos novosfe ha de termayor cuidado; porque
ainda naõ tem modode viver , como os que trataõ de plantar
luas Roças : 6c os que as tem por fua induftria, naó convém ,
que fejaófó reconhecidos por Efcravos na repartição do tra-
balho; 8c efquecidos na doença > 6c na farda. Os Domingos,
3cdiasfantosdeDeos,ellesos recebem : & quando feu Se-
nhor lhos tira , & os obriga a trabal har , como nos dias de fer- i
viço, fe amofinap , 8c lhe rogaõ mil pragas. Coftumaõ alguns ,
Senhores dar aos Efcravos hum dia em cada femana, parai
plantarem para íi, mandando algumas vezes com elles o Fei->
tor, para que fe naõ defeuidem: & ifto ferve , para que naq,
padeçaõ fome, nem cerquem cada dia a cafa de feu Senhora
pedindo-lhe a raçaõ de farinha. Porem naõ lhes dar farinha,-
nem dia para a plantarem; & querer, que firvaó de Sol a Sol
no Partido, de dia, 6c denoytecom pouco defeanço no En-
genho : como fe admittirá no Tribunal de Deos fem caítigo ?
$e o negar a efmola a quem com grave neceílidade a pede, he
negalla a Chriílo Senhor nofíò, comoelle o diznoEuange-
lho ; que fera negar o fuítento, 6c o vertido ao feu Efcravo ? Èr
que razaõ dará de fi , quem da ferafína , 6c feda , 6c outras ga-
las ás que faõ occaíiaõ da fua perdição* 6c depois nega quatro:
ou cm-
&- Opulência do^ra/th
da cinco varas de Algodão, & outras poucas de pannò da Ser»
ra, a quem fe derrete em íiior para o fervir, & apenas tem tem-
po para buícar húa raiz , Sc hum caranguejo para comer ? E fe
em cima difto o caftigo for frequente, 8c exceííivo [ ou fcirâõ
embora , fugindo para o Matto j ou fe mataráõ per fi % como
coftumaõ, tomando a refpiraçaõ , ou enforcando-fe -, oupro-
curaráõ tirar a vida aos que lha daõ tammà , recorrendo ( fg
for neceíTario ) a artes diabólicas •, ou clamaráõ de tal forte a
Deos , que os ouvirá , 6c fará aos Senhores o que já fez aos E-
gypcios , quando avexavaõ com extraordinário trabalho aos
Hebreos , mandando as pragas terriveis contra fuás fazen-
das, Sc filhos 3 que fe leni na fagrada Efcritura : ou permittirás
que allim como os Hebreos foraõ levados cativos para Baby-
lonia em pena do duro cativeiro, quedavaõ aos feus Efcra*
vos ; affim algum cruel inimigo leve eflès Senhores para fuás
Terras 5 para que nel las experimentem quam penofahe a vi-
da, que elles deraõ , 8c daõ continuamente aos feus Efcravos.
Naõ caftigar os exceífos , que elles cómettem, feria culpa
saó leve: porém eftesfe haõde averiguar antes,para naõ cafti-
gar innocentes : Scíe haõ de ouvir os delatados 5 8c convencia
dos , caftigarfe-haõ cóm açoutes moderados , ou com os me-
ter em húa corrente de ferro por algum tempo , ou tronco,
Caftigar com impeto , com animo vingativo , por maõ pró-
pria , 8c com inftrumentos terriveis , &c chegar tal vez aos po-
bres com fogo, ou lacre ardente , ou marcai los na cara, naõ.
feria para fe iofrer entre Bárbaros j muito menos entre Chri-
ftãosCatholicos.Ocertohe, que fe o Senhor fe houver com
os Efcravos como Pay, dando-lhes o neceíTario para o fuften-
to , (k veftido, 8c algum defcanço no trabalho^ fe poderá tam*
bem depois haver como Senhor : &z naõ eftranharàõ 5 fendo
convencidos das culpas , q cõmettèraõ 5 de receberem cõ mi-
fericordia o judo, &c merecido caftigo. E fe depois de errarem
como fracos, vierem per fi mefmos a pedir perdão ao Senhor^
t8 Cultura,
ou bufcarem Padrinhos , que os acompanhem : em tal cafo he
coítumenoBrafilperdoarlhes. Ebemhe, quefaibaó, que
iílo lhes ha de valer : porque de outra forte , fugiráõ por híia
vez para algum Mocambo no Matto ; 6c fe forem apanhados,
poderá fer, que fe matem a fimefmos , antes que o Senhor
chegueaaçoutallos j ou que algum feu Parente tome áTua
conta a vingança , ou com feitiço, ou com veneno.
Negarlhes totalmente os feus folguedos , que faõ o único
alivio do feu cativeiro, he querellos defconfolados, 6c melan-
cólicos, de pouca vida,6c faude. Por tanto naõ lhes eítranhem
os Senhores o crearem feus Reys , cantar , &■ bailar por algu*
mas horas honeítamente em alguns dias do anno , Sc o alegra-
remfe innocen temente á tarde depois de terem feito pela ma-
nhãa fuás feftas de Nofla Senhora do Rofario , de Saõ Bene-
dito, & do Orago da Capella do Engenho , fem gaito dos En-
cravos , acudindo o Senhor com fua liberalidade aos Juizes ,
6c dandolhes algum premio do feu continuado trabalho.Por-
que fe os Juizes , & Juizas daFefta houverem \ác gaitar do
feu> fera caufa de muitos inconvenientes, 6c oílenfas de Deos,
por ferem poucos os que o podem licitamente ajuntar.
O que fe ha de evitar nosEngenhos,he o emborracharem-
fe com Garapa azeda , ou Agua ardente j bailando conceder-
Ihes a Garapa doce , que lhes naõ faz danoj 6c com ella fazem
feus refgates com os que a troco lhes daõ farinha , feijoens, ai-
pins , & batatas.
Ver , que os Senhores tem cuidado de dar alguma coufa
dos fobejos da mefa aos feus filhos pequenos , he caufa de que
osEfcravos os firvaõ de boa vontade, 6c q fe alegrem de lhes
multiplicar Servos , 6c Servas. Pelo contrario algumas Efcra-
vas procuraò de propofito aborto , fó para que naõ cheguem
os filhos de fuás entranhas a padecer o que ellas padecem.
C A.
<>• Opulência do Tíraftl.
jÉhdíÉfitt^ittÁm^
C A P I T U L O X.
Çomofe ha de haver o Senhor do Engenho no go*
vernodafua Família t ©* nos gaftos ordi*
narios decafa*
w> Edirido a fabmca do Engenho tantos ,■ 8c tam grandes
w . gaftoSr quantos acima duTemps ybeni fe vè a parfimo-
nia 3 que he neceflariã nos particulares de; caía. Çavallos de
refpeito mais dosquebaftaõ , Ghararmeleiros , Trom betei-
ros, Tangedores, & Lacayos mimofosjiaõ fervem para ajun-
tar fazenda, pjiradiminuillaem pouco tempo com obrigai
çoens, 6c empenhos* E muito menos fervem as Recreaçoens
amiudadas, os Convites fuperíluos, as Galas, as Serpentinas,
& o Jogo. E por efte caminho alguns em poucos annos do
eílado de Senhores ricos chegarão ao de pobres , 6c arraftados
Lavradores, fem terem que dar de dote ás Filhas $ nem mo*
do para encaminhar honeftamente aos Filhos.
Mao he ter nome de Avarento : mas naõ he gloria digna
dle louvor o fer Pródigo. Quem fe refolve a lidar com Enge-
nho, ou fe ha de retirar da Cidade, fugindo das oceupae oens
da Republica, que obrigaõ a divertir-fe ; ou ha deter a&ual-
mente duas cafas abertas y com notável prejuízo aonde quer
que falte a fua auTftencia , & cqm dobrada defpeza. Ter os
Filhos fempre comfigo no Engenho , he creallos Tabarêos>
que nas converfaçoens naõ faberáõfallar de outra couíà mais
que do Caõ-, do Cavallo, 8c do Boy.Deixallos fósna Cidade,
he darlhes liberdade para fe fazerem logo viciofos, 8c enchei
rem-fe de vergonhofas doenças, que fe naõ podem facilmen-
te curar. Paraevitar pois Hum,, 8c outro extremo 3 o melhor
con^
^
30 Culmrày
coníelho fera pqllos em caía de algum Parente , ou Amigo
grave *, & honrado , onde naõ haja occafioens de tropeçar , o
qual folguede dar boa conta deíi ', & com toda a fidelida-
de avife dofoom , oumao procedimento , & doproveito, ou
negligécia íioEftudo.Nem coníinta.q aMãy lhes remettadi-
poíTa fer também parajogoSvE por iíío, avife ao Procurador,
8c ao Mercador , de quem fe vai , que lhes naõ dé coufa algu-
ma fem ília ordem. Porque para pedirem feràõ muito efpecu-
lativos, 8c faberàõ excogitar razoes , Sc pretextos verifimeis;
principalmente fe forem dos que já andaõnoCurfo, & tem
vontade de levar três annos de boa vida á eufta do Pay, ou do
Tio , que naõ fabem o que paíTa ffâ Cidade , eftando nos feus
Cannaveaes : & quando fejaclaõ nas converfaçoens deter
hum Ariftoteles nosPateos, pode fer que tenhaõssa Praça
humAíinio, ou hum Apricio. Porém fe fe refolver a ter os Fi-
lhos em cafa, contentando-fe com quefaibaõ ler, eferever , &
contar , 6c ter alguma tal qual noticia de fucceíTos , 8c hifto-
rias , para tallarem entre gente j naõ fedefeuide de vigiar fo-
breelles, quando a idade o pedir : porque também o campo
largo he lugar de muita liberdade, 8c pode dar abrolhos , &c
efpinhos. E fe fe faz cercado aos Boys, 8c aos Cavallos , para*,
que naõ vaõ fora doPafto 3 porque fe naõ porá também al-
gum limite aos Filhos, aílim dentro , como fora de cafa } mo-
ítrando a experiência fer aílim neceífario ? Com tanto que a
circunfpecçaõ feja prudente -, Sz a demaíia naõ acrecente ma-
lícia. O melhor enfinO porém , he o exemplo do bom proce-
dimento dos Pays : 8c o defeanço mais feguro , he dar a feu
tempo eftado aílim ás Filhas , como aos Filhos : &" fe fe con-
tentarem com a igualdade? naõ faltaráõ caías , aonde fe pof-
faõ fazer trocas-, 8c receber recompeníàs.
1
C A-
1 .,
Ill
-^~— "■■■■
&- Opulência íoTZrafiL j*
Ç A P I T :V L OXL
Corno fe ha de haver o Senhor âo Engenho no reCebU
mento ias Ho/pedes , ajjim Religiofos , como
Seculares,
AHojpitalidade he húa acçaõ cortez, & tãbera virtude-
Çhriífoã, & uoBrafnímiitp exercitada, &: louvada.'
porque faltando fora da Cidade as Eftalagens , vaõ necef-
fariamente os PaíTageiros a dar comíigo nos Engenhos, & to-
dos ordinariamente aehaô de graça o que em outras Terras
cuíta dinheiro : aííim QsReligiofòsiep**bufcaó.fuas efmolas*
quenaõ faõ poucos , & os Miuíonarios, que vaõ pelo Recôn-
cavo, & pela Terra dentro com grande proveito das Almas a;
exercitar feus minifteríos j.como os Seculares , que ou por ne-
ceílidade , ou por conhecimento particular > ou por parentes-
bufcaõ de caminho agazalho.
Ter cafa feparada para os Hofpedes, Êe grande acerto?
porque melhor fe recebem, & com menor eftorvo da famí-
lia , & fem prejuízo do recolhimento ■ , que haõ de guardar as
Mulheres ,& as Filhas, & as Moças de fer viço interior oc-
cupa^as no aparelho do jantar , & da cea.
O tratamento naõha de exceder o eirado das Pefloas,.
que fe recebem 5 porq no difcurfo do anno hõ mu iras A crea-
çaõ miúda, ou alguns peixes do Mar, ou Rio vizinho, com
algu mariíco dos Mangues, .& o qdà o meímo Engenho pa-
ra docej bafta, para que ninguém fe pofla queixar com razaõ,
Avançar-feamaisffalvoemhum caio particular por jliftos
refpeitos) he paflar os limites , 6c impoíTibilitar-fe a poder
continuar igualmente pelo tempo futuro»
Dar
H!
II
3.1 Cultura ,
Darefmolas, he dar a juro a Deos, que paga cento por
Ikim : mas em primeiro lugar efíá pagar o que fe deve de ju-
ftiça j & depois eítender-íe piamente ás efmolas conforme o
cabedal,& o rendimento dos annos.E nèfta partenunoa fe ar-
rependerá o Senhor de Engenho de fer efmoler3 &c apren-
derá© os Filhos a imitar ao Pay: & deyxandc-cs inclinados
is obras de mifericordia , os deixará muito ricos , & com
riquezas feguras.
Para os vadios , tenha enxadas , & fouces : <k fe fe quize-
rem deter no engenho , mande-lhes dizer pelo Feitor, que
trabalhando , lhes pagaráõ feu jornal. E deita forte ou fegui-
riõ feu caminho ,ou de vadios fe faráõ jornaleiros.
- Também naõ convém que o Meftre do Aílucar , o Cai-
xeiro, &: os Feitores tenhaõ em fuás cafas po r tem po notav cl
PelToas da Cidade, ou de outras partes, que vem a paífar tem*
po ociofamente : & muito mais , fe forem folteiros , & mo-
ços j porque eftes naõ fervem fenaõpara eftorvar aos mef-
mos Officiaes , que haó de attender ao que lhes pertence > ôc
para defenquietar as Efcravas do Engenho , que facilmente
fe deixaõ levar do feu pouco moderado appetite a obrar mal.
E ifto fe lhes deve intimar ao principio^ para que naõ accarre-
tem atraz de fi fobrinhos,ou Primos,que com feus vicies lhes
dem pezados defgoftos.
Os Miííionarios , que definterelTadamente . vaõ fazer feu
officio, devem fer recebidos com toda a boa vontade; para-
que vendo efquivanças naõ venhaõ a entender , que o Senhor
do Engenho, por pouco affèiçoado ás coufas de Deos,ou por
mefquinho, ou por outro qualquer refpeito, naõ folga com
aMiífaõ, em a qualfeajuftaõasconícienaas comDeos, fe
dá mftrucçaõ aos ignorantes , fe atalhaó inimizades, &. oc-
cafioens eicandalofas de annos, 6c fe procura, que todos tra-
tem da falvaçaõ de fuás Almas.
C A-
&- Opulência dòfâra/í/*
33
«B
Ato
*®&nm
'àísfô fy$%é %s©w ^Hp^SiP^
C A P I T U L O XII.
C0020 y> ha de haver o Senhor do Engenho com os'
Mercadores , Qf outros [eus Correjponden-
tes na Praça : Qf de alguns modos de veu»
der j Qr comprar v Aguçar , confor-
me o ejiyhdo BrafiL
O Credito de hum Senhor de Engenho funda-fe na fua
verdade , ifto he , na pontualidade , 6c fidelidade em
guardar as promeíías. E aílím eomo o haõ de experimen-
tar fiel os Lavradores nos dias, que fe lhes devem dar para
moer a fua Canna , &" na repartição do ÁíTucar , que lhes ca-
be; os Oífrciaes na paga das foldadas ; os que daõ a lenha para
as Fornalhas, Madeira para a Moenda,Tijolo, & Formas pa-
ra a Cafa de purgar í, Taboas para encaixar, Boys , '& Cavai-
los para a Fabrica : affim também fe hade acreditar com os
Mercadores, & Correfpondentes na Praça , quelhederaó
dinheyro , para comprar Peças , Cobre , Ferro , Aço , En-
xárcias y Breo, Velas ; & outras fazendas fiadas. Porque fe ao
tempo da Frota naõ pagarem o que devem; naõ teráõ com
que fe aparelhem para a fafra vindoura } nem fe achará quem
queira dar o feu dinheiro eu fazenda nas mãos de quem lha
naõ ha de pagar, ou tam tarde, & com tanta difficuldade,
que fe arrií que a quebrar. t ,,
Ha annos , em que pela mui ta mortandade dos Efcravos,
Gavallos, Egoas5 &■ Boys, ou pelo pouco rendimento dá
Canna, naõ podem os Senhores de Engenho chegar a dará
C - fttif-
Hf i Cultura y
íatisfaçaõ inteira do que promettèraó. Porém naõ dando fe
quer alguma parte , naõ merecem alcançarasefperas, que pe*
demjprincipalmente quando íe fabe,que tiveraõ para defper-
diçar,; & parajogar, o que deviaõ guardar para pagar aos
feus Acredores.
. Nos outros annos de rendimento fu ffíciente, & çom per>
das moderadas, oufemellas, naõ ha razaÕ para faltar aos
Mercadores , ou CõmiíTarios , que negoceaõ por feus Amos,
aos quaes devem dar conta de íi .- & por iíTo naõ he muito pa-
ra feeftran liar > fe experimentando faltar-fe por tanto tem-
po á palavra com lucro vcrdadeyramente ceílante , Sc danno
emergente , levantão com juíta moderação o preço da fazen-
da* que vendem fiada, & que Deos fabe, quando poderàõ
arrecadar. til
Comprar anticipadamente o AíTucar por dous cruza-
dos,, verbigratia, que a feu tempo commummente vai do-
ze toíloens, &mais, tem fua dificuldade : porque o com-
prador eftá feguro de ganhar -y & o vendedor he moralmente
certo, que ha de perder .-particularmente quando o que dá o
dinheiro anticipado, não o havia de empregar em outra cou-
Ííi.í antes do tempo de o embarcar para o Reyno.
Quem compra , ou vende anticipadamente pelo preço,
que valerá o AíTucar no tempo da Frota , faz contrato juílo ±
porque aífim o comprador , como o vendedor , eftaõ igual-
mente arrifcados. E iito fe entende pelo mayor preço geral,
que então o AíTucar valer \ & não pelo preço particular , em
que algum fe accommodar ,, obrigado da neceíTidade a ven-
dello.
Comprar a pagamentos , he dar logo de contado algu-
ma parte do preço , & depois pagar por quartéis , ou tanto
por Cada anno , conforme o concerto , até fe inteirar de tudo.
E poderá por-fe a pena de tantos cruzados mais ,fefe faltar a
algum pagamento : mas não fe poderá pertender , que fe pa-
gue
& Opuknciâ Ò cBra/tl $ç
gue juro dós juros vencidos } porque o juro, fó fé pagado
orincipal*
"j Quem diz : Vendo o Aííucar cativo : quer dizer : Venv
do-o com obrigação de o comprador pagar todas às cuílas-
tirando os três toíloens-, que fe pagaõ na Bahia , porque e£
tes correm por conta de quem o carrega.
Vender o Aiíucat livre a dez toíloens , verbi gratia , pol-
eada arroba j quer dizer : Que o comprador ha de dar ao ven-
dedor dez toíloens por cada arroba , &hadefazertod.osos
gaftpsàfuacuíla.
Quem comprou o Aííucar cativo , Sc o defpachou, d ven-
de depois livre 5 Ôc o comprador faz "osgaíios , fquejfe
feguem.
Comprar o Aííucar por cabeças , quer dizer.- Comprar
as caixas de Aííucar pelo numero das arrobas j que tem m,
Marca, com meya arroba menos de quebra,
Quando fe péza húa caixa de Aflutar , para pagar os di-
reitos : fe ò Pezadòr péza favorável , diz, verbi gratia , que a
Caixa de trinta arrobas tem vinte Sc oyto Eifco, El-Reyo
fofre, 'Ôcconfente de favor. Porém eífa Caixa naófe vende5
por eíle pezo , mas pelo que na verdade fe achar quando vaf
a pezar-fe na Balança fora da Alfandega , que ahá eílá , para
fe tirar toda a duvida.
Vender as terras por menos do que valem , com obriga-
ção de fe moer a Canna , que nellas fe plantar , no Engenha
do vendedor ; He contrato licito 5 8c juílo.
Comprar hum Senhor de Engenho a hum Lavrador, que
tem Canna livre para a moer aonde quizer , aohrigaçaõ de a
moer no feu Engenho , em quanto lhe naõ reílituir o dinhei-
ro, que para iíío lhe deo , quando comprou a dita obrigação}
pratica -fe no Braíil rnúitasvezes,; & os Letrados odefendem
por contrato jivílo : porque iílo naõ hd dar-dinheiEQ ■eii^prej"-
ílado com obrigação de moer j mas lie comi pi ar a obrigação
C3 de
3^ Cultura,
de moer no feu Engenho para ganhar a ametadedo AíTucar,
ficando a porta aberta ao Lavrador para fe livrar deíla obri-
gação , todas as vezes que tornar a entregar ao comprador
o dinheiro, querecebeo.
LIV
II
C A P I T V L O I.
T>a efcolha da Terra para plantar Cannas de
%AjJucar , & para os mantimentos neceí-
farios, &• provimento do Engenho.
S Terras boas , ou más , faõ o fundamento principal,
para ter hum Engenho Real bom , ou mao rendi-
mento. As que chamaõ MaíTapés j Terras negras ,
& fortes, faõasmaisexcellentes para a planta das Cannas.
Seguem-fe atraz deitas os Saloens , Terra vermelha , capaz
de poucos cortes; porque logo enfraquece . As Areifcas, que
faóhúamiíturade Area,&Saloés , fervem para Mandioca ,
'&: Legumes; mas naõ para Cannas. E omefmo digo das Ter-
ras brancas, que chamaó Terras de Área , como faõ as do
Camamú , & da Saubâra.
A Terra , que fe efcolhe para o Pafto ao redor do Enge-
nho , ha de ter agua : & ha de fer cercada , ou com plantas vi-
vas, como faó as de Pinhoens ■, ou com eftacas , &varasdo
matto. O melhor Pafto he o que tem muita grama , parte em
Outeif
■■■■
&- Opulência do ^BrafiL %?
Outeyro , Sc parte em Várzea: porque deíla forte em todo o
tempo , ou em húa , ou em outra parte , aílim os Boys , comq
as Beítas, acharáó que comer. O.Pafto fe ha de confervar lim*
po de Outras hervas, que mataõ a grama : & no tempo do In-
verno fe haó de botar íóra deile os Porcos , porque o de*
ftroem foliando. Nelle ha de haver hum, ou dous Curraes,
aonde fe metaó os Boys para comerem os olhos da Canna, Se-
para eftarem perto do fervíçodos carros. E também ás Be-
ftas fe recolhem no feu Curral , para as naõ haver de buícar
efpalbadas. . ■
AndaõnoPaíto, além das Egoas ,& Boys, Ovelhas, &-
Cabras : &-aó redor do Engenho a criação miúda1, como faó
Perus, Gallinhas ? & Patos , que faõ o remédio mais prompto
pàraagazamar-oshofpedes , que vem de improvifo/Mas
porque as Ovelhas, & os Gavallos chegaõ muito com o den-
te á raiz da grama, faõ de prejuízo ao Paítb dos Boys : & por
hTofe o deites foíle d iverfo, feria melhor. f '
Os Mattos daõ as Madeiras, & a Lenha para as Forna-
lhas. Os Mangues daõCaybros, &Marifco. E os Apicús
( que faó as coroas , que faz o Mar entre íí , & a Terra firme,
& as cobre a Maré) daõ o barro, para purgar o AfTucar nas
Formas , & para a Olaria, que na opinião de alguns fe naõ ef-
cufa nos Engenhos Reaes.
De todas eftas caftas de Terras tem neceflldàde hum En-
genho Real; porque húas fervem para Cannas , outras para
■mantimento da Gente , & outras para o aparelho , & provi*
mento do Engenho , além do que fe procura do Reyno. Po-
rém nem todos os Engenhos podem tereíta dita : -antes ne-
nhum (cachará , a quem naõ falte algumadeftas còufas.Por-
queaos queefíaõ àbeira-mar commummente faltaõ as Ro-
ças, & a Lenha : & aos que eftão pela Terra dentro faltaõ ou-
tras muitas Conveniências , quê tem os que eítaõ à beira-mar
no Recôncavo. Comtudo/ de ter, ou naõ ter o Senhor do,
C3 * '- \En
I
II i
5$ Cultura*
Engenho cabedal 5 & Gente, Feitores fieis, & de experiên-
cia, Boys , 8c Beftas , Barcos, 6c Carros , depende o menear,
6c governar bem ■> ou mal o feu E-ngenhcv E fenaó tiver gen-
te para trabalhar r 6c beneficiar as terras a feu tempo -r fera o
mefiuo^que ter matto bravo com pouco , ou nenhum rendi-
mento : aílim como naõ baila para a vida politica , ter bom
natural; fe naõ houver Meítre, que com o eníino trate de o
perfeiçoar ajudando-o..
&&3I&. «s«®&. dsssii
G A P I T U L O II.
Da planta , Qf limpas das Cannas : Qf da dfaer-
fidade, que ha neílas.,
FEita a efcolhadà melhor Terra para a Canna j roça-íê,
queima-fe , & alimpa-fe , tirando-lhe tudo o |que podia
fervir de embaraço ; 6c logo abre-fe em regos , altos palmo &c
meyo ,. 6c largos dous , com feu camalhaõ no meyo, para que
nacendo a Canna naõ íe abafe : & neíles regos ou fe plantão
os olhos em pé, oufedeitaõ as Cannas em pedaços, tres,ou
quatro palmos compridos : 6c fe for Canna pequena, deita- íe
também inteira ,húa junta á outra, ponta com pé : cobrem-fe
com a terra moderadamente. E depois de poucos dias , bro-
tando pelos olhos,começaõ pouco a poucoa moftrar íua ver-
dura á flor da terra,, pegando facilmente, 6c crecendo mais,
ou menos, conforme a qualidade da terra, 6c o favor, ou
contrariedade dos tempos. Mas fe forem muito juntas , ou fe
na limpa lhes chegarem muito a terra ; naõ poderão filhar,
como lie bem.
A planta da Canna nos lugares altos da Bahia começa
defde as primeiras aguas no rim de Fevereyro, ou nos princí-
pios
&■ Opulência doTZrafú. 1 30
pios de Março , & fe continua atè o fí-ni de Mâyo s 5c nas bai^
xas , 8c Várzeas ( que faó mais frefcas y& húmidas ) planta-fc
também nos mezes de Julho, & Agofto, 6c por alguns dias de
Setembro.Toda a Canna, q naõ for fecca, ou viciada, nem de
Cannudos muito pequenos , ferve para plantar. De fer a Ter-
ra nova, 8c forte , fegue-fe o crecer nelía a Canna muito vi-
çofaj& a efta chamaõ Canna brava: a qual a primeyra , & fe^
gunda vez, que fe corta, naõ coftuma fazer bom AíTucar »
por fer muito aguacenta. Porém dahi por diante, depois de.
esbravejar a Terra, ainda que creça extraordinariamente , he
tam boa no rendimento, como ferrnofa na appareneia :& de-
itas ás vezes fe achaõ algumas altas íete,oito,6c nove palmos,
6c tam bem poftas no Cannaveal , comoos Capitaens nos ex^
ercitos.
A melhor Cannabeade cannudo comprido , 6c limpo;
& as que tem cannudos pequenos, 6c barbados, faó aspeycn
res. Nace o terem cannudos pequenos, ou da feca, ou do frio:;
porque húa, 6c outra coufa as apertão : 6c o terem barbas pro-
cede de lhes faltarem com alguma limpa a feu tempo. Corne-
ça-fe a alimpar a Canna , tanto que tiver monda, ou herva de
tirar. No inverno a herva , que fe tira , torna logoa nacer $.8Ç
as limpas mais neceííarias faó aquellas primeiras , que fe fa-,
zem,para que a Canna poífa crecer, 6c o capim a naõ afogue:
porque depois de crecida , vence melhor as hervas menores.
E aílim vemos , que os primeiros vícios faó os que botaõ a
perder hum bom natural. AsCannas, que fe plantão nos oiu
teiros, faó ordinariamente mais limpas ,<qtieas que fe plantão
nas Várzeas : porque aílim como ocorrer a agua do Outeiro,
he caufa que fe naõ criem nelle tam facilmente outras hervas-
aílim o ajuntar-fe ella na Várzea , hecaufa de fer eíta fempre
muito húmida , 6c confeguintemente muito difpoíta para
crear de novo o capim.
Por iííb em húas Terras ás vezes naõ baftaõ três limpas j
C4 6c em
§
íí
mm
4° Cultura,
6c em outra o Lavrador com a fcgunda defcança , conforme
os tempos mais ou menos chuvoíòs. Aílim como ha filhos
tam dóceis , que com a primeira amoeflaçaõ fe emendaõ 5 6c
para outros naõ baftaó repetidos caíligos.
As Socas também (que faõ as raizes das Cannas cortadas
a feu tépo, ou queimadas por velhas, ou por cahidas de forte,
que fe naõ poíTaõ cortar , ou por defaílre ) fervem para plan-
ta: porque fe naõ morrerem pelo muito frio, ou pela muita
íeci ■, chegandolhes a terra , tornaó a brotar , 6c podem defta
forte renovar ao Cannaveal por cinco ou féis annos , & mais.
Tanto vai a induftria , para tirar proveito , ainda do que pa-
receria inútil , 6c fe deixaria por perdido. Verdade he , que
cançandoaTerra, perde também a Soca o vigor y & depois
de féis ou fete annosa Canna fe acanha, 8c facilmente fe mur-
cha , atè ficar fecca , 6c azougada. E por iíTo naõ fe ha de.per-
tender da Terra, nem da Soca mais do que pôde dar , parti-
cularmente fenaõ for ajudada com algum benefício :& a ad-
vertência do bom Lavrador coníiíle em plantar de tal forte
fucceífivamente a Canna , que cortando-fe a velha para a
moenda , fique a nova em pé para a fafra vindoura 5 Sc deíla
forte alimente com a fua verdura a efperança do rendimento,
que fe prepara , que he o premio do feu continuado trabalho.
Plantar húa tarefa de C annas, he o meímo que plantar no ef-
paço de trinta braças de terra em quadra. Finalmente por-
que a diverfidade das Terras,,êc dos Climas pede diverfa cul-
tura ; he neceííario informar-fe , 6c feguir o confelho dos ve-
lhos, aos quaes enfinou muito o tempo, & a experiência 5 per-
guntando em tudo o que fe duvidar , para obrar com acerto.
CA-
&• Opulência do TZrafiL
41
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C A P I TU L O III.
Dos inimigos da Canna , em quanto eftá no Çan*
naveal.
AS inclemências do Ceo faó o principal inimigo, que
tem as Cannas j aflim como os outros frutos, & novi-
dades da Terra : querendo Deos com muita razaõ , que fe ar-
mem contra nós os Elementos por caftigo das noíías culpas*;
ou para exercido da paciência , ou para que nos lembremos,
que elle he o Author, & o Confervador de todas as coufas, ôc
a elle recorramos em femelhantes apertos.
Os Cannaveaes nos Outeiros reíiftem mais ás chuvas,
quando faõdemaíiadasj porém faõos primeiros a queixar- fe
da fecca.Pelo contrario as Várzeas naõ fentem tam depreffa
a força do exceílívo calor^ mas na abundância das aguas cho;
raõ primeiro fuás perdas. ACanna da Bahia quer agua nos
mezes de Outubro, Novembro;, êc Dezembro ; & para a
planta nova em Fevereiro : Sequer também íiiccémVamente
rfSoI, o qual commummente naõ falta ■, aíllm naò faltaíTem
nos fòbreditos mezes as chuvas. Porém o inimigo mais mo-
ledo , & mais continuo , Sc domeftico da Canna , he o capi m>
pois mais , ou menos, até o fim a perfegue. E por iíTo tendo o
plantar, & o cortar feus tempos certos > o alimpar obriga aos
Efcravos dos Lavradores a irem fempre com a enxada na
maõ: & acabada qualquer outra oceupaçaõ fora do Canna-
veal, nunca fe mandaõdebalde a alimpar. Exercício, que
deveria fer também continuo nos que trataõdaboa creaça6
dos filhos , & da cultura do Animo. E ainda que fó eíte ini-
migo baile por muitos > naõ faltaõ outros de naõ menor enfa*
\if
^'l
4t Cultura,
do , 8c moleília. As Cabras , tanto que a Canna começa a ap-
parecer fora da Terra,logo a vaõ enveítir : os Boys, & os Ca-
vallos ao principio lhe comemos olhos, Sc depois a de rrubaõ,
£c a pizaõ : os Ratos , ocos Porcos a roem : os Lad roens a fnr-
taõ a feixes ; nem pana Rapaz , 911 Caminhante , que fe naõ
queira fartar , ôc defenfadar á cuftade quem a plantou. E po-
íto que os Lavradores fe âccommodem de qualquer modo a
fofrer os furtos pequenos dos frutos do feu fwúfivék ás vezes
obrigados de húajuíta dor a matar Porcos , Cabras, & Be*ys,
que outros naõ trataõ de divertir , & guardar nos paítos cer-
cados, ou em parte mais remota ainda depois de rogados , &
avifados que ponhaõ cobro a eítedano : donde íe feguem
queixas,inimizades, Sc ódios, que fe remataõ com mortes, ou
comfanguinolentas,6cafrontofas vinganças. Por iffo cada
qual trate de defender os feus Canna veaes , Sc de evitar oc-
cafioens de outros fe queixarem jufta mente do feu muito def-
cuido , medindo os danos alheyos com o fentimento dos
próprios.
í SSi á5í8Qfc45$S» ai."1 ''% ««li.'» iifiS Cw» «í 1'j,
CAPITULO IV.
Do corte 4a Canna , ©* jua conducçao -para
o Engenho*
COmeçando o Engenho a moer ( o que no Recôncavo
da Bahia coíluma ter feu principio em Agoíto)conu ca
também o tempo de meter a fouce na Canna, que diiío he
capaz : Sc para bem , antes de fe cortar , ha de eftar dezafere,
ou dezoito mezes na Terra : & dahi por diante, fe a muita
fecca a naó apertar , pôde feguramente eítar na íncfma Ter-
ra outros fetc, ou oito mezes. Tanto pois que eitiverde vi c,
fe nian-
•
& Opulência doférafil» 4 1
fe mandará pôr nélla a fouce , tendo jà certo o dia , em quefe
ha de moer j para que naõ fique depois de cortada a murchar-
fe no Engenho, ou fe naõ feque expofta ao Sol no porto, fe
eftefordiftante da Moenda : preferindo o Lavrador, que
avifado trouxe primeiro a Canna para o Engenho, até fe aca*
bar inteiramente a fua Tarefa ; ,& perdendo o vagarofc i o lu-
gar que lhe cabia,fdporfeu defcuido deixou pa{Tar o dia fina-
lado. E o Senhor do Engenho he o que reparte os dias, afllro
para moer a fua Canna , como a dos Lavradores , conforme
eabeacadaqual por feu turno j & mandão avifo pelo Feitor
a feu tempo.
Quando fe corta a Canna , fe metem doze até dezoito
fouces no Gannaveal , conforme for a Canna grande , ou pe«
quena. Eaque fe manda a moer de húa vez chama-fe húa
Tarefajque vem a fer vinte & quatro carros de Canna, tendo;
cada carro ajufta medida de oyto palmos de alto , & fetede
Iaro-o, capaz de mais ou menos feixes de Canna , conforme
ella for grande ,,ou pequena .-porque menos feixes de Canna
grande baftaõ para lazer a Tarefa j &. mais hao de fer neceíla-
rios, fe for Canna pequena} pois a pequena occupa menor lu-
gar afíim no carro, como no barco ; 6c a grande occupa em
hua , êc outra parte mayor efpaço , pelo que tem de mayor
comprimento , & gromira. Raro porém feri o carro , que
traga mais de cento & cincoenta feixes de Canna : &: os Se-
nhores do&Partidos , pelos cortes antecedentes fabem muito
bem , quantas Tarefas tem nos feus Canna veaesv
A primeira^Canna , que fe ha de cortar , he a velha:, que
naó pôde efperar : coftume , que naõ guarda a Morte , cuja
fouce corta indiíFerentemente moços , &: velhos* E eíla corr
te-fe a tempo, que fe naõ faça prej uizo á Soca , conforme as
Terras, mais ou menos frias,. & os dias de mayor ou menor
ealory&fem chuva. E diílo procede naõ fe poder cortar a
Canna.em huas Terras depois do fim.de Fevereiro >& em ou-
tras
il:
44 Cultura,
trás cortar-ís ainda em Março , & Abril. Quanto ao corte da
Canna nova : feo Lavrador for muito ambiciofo, & defejo-
fo de fazer muito AíTucar 5 cortará tudo em húa fafra , &
àcharfe-ha com pouco , ou nada na outra. Por iflò. o corte da
nova ha de ter lua conta > & fe ha de attentar ao futuro , con-
forme o que fe tem plantado , ufando de huma repartição
confiderada , & fegura 3 que he o que didá em qualquer ou-
tra obra ou negocio a boa economia , 8c prudenc ia.
Aílim os Efcravos, como as Efcravas fe occupaó no cor-
te da Canna: porém commummente os Efcravos cortaó , &
as Efcravas amarraô os feixes. Confta o feixe de doze C.an-
nas :8c tem por obrigação cadaEfcravo cortar em hum dia
fete mãos de dez feixes por cada dedo 9 que faó trezentos &
cincoenta feixes $ 8c a Efcrava ha de am arrar outros tantos cõ
os olhos da mefma Canna : & fe lhes fobejar tempo ,ferá para
o gaitarem livremente no que quizerem. O que naõ fe con-
cede na limpa da Canna> cujo trabalho começa deíde o Sol
.ftacido atè ó Sol pofto: como também em qualquer outra cc-
cupaçaõ , que fe naó dá por Tarefa. E o contar a Tarefa do
corte, como eftá dito, por mãos, & dedos, he para fe accomr
ínodar á rudeza dos Efcravos boçaes 3 que de outra fcrte naó
entendem | nem fabem contar.
O modo de cortar he o feguinte : péga-fe com a m ão ef.
querdaenUantasCannas, quantas pôde abarcar > & com a
direita armada de fouce fe lhe tira a palha, a qual depois íe
queima ou pela madrugada, ou já de noite, quando acalman-
do o vento der para iffo lugar j &c ferve para fazer a Terra
mais fértil -.logo levantando mais acima a maõ efquerda , bo-
taõ-fe tora com a fouce os olhos da Canna> 6c eítes daó-fe aos
Boys a comer ; cc ultimamente tornando com a efquerda
mais abaixo , corta-fe rente ao pé-, & quanto a fouce for mais
raíleira a terra , melhor. Quem íegue ao que certa (que com-
mu m m en te hehi& Efcrava) ajunta as Cannas limpas , comu
; J eítu
e> Opulência do 'Brafil. 45
eftá dito , em feixes , a doze por feixe , & com os olhos delias
os vay atando : ôcaíllm atados vaõ nos carros ao porto j ou,
fe o Engenho for pela Terra dentro , chega o carro á
Moenda.
A conducçaõ da Canna por terra faz-fe nos carros: &■ pa-
ra bé cada fazenda ha de ter dousi&fe for grande,ainda mais.
Por mar vem nas barcas fem vela , com quatro varas , que fer-
ve em lugar de remos nas mãos de outros tantos Negros Ma-
rinheiros, & o Arraes, que vay ao leme ; & para iíTo ha mifter
duas barcas capazes , como as que chamão Rodeiras. O La^
vrador tem obrigação de cortar a Canna , & de a conduzir á
fuacuftaaté o porto, aonde o barco do Senhor do Engenho
a recebe , & leva de graça até a Moenda por mar; pondo-a no
dito barco os Efcravos do Lavrador , 6c arrumando-a no bar-
co os Marinheiros. Mas fe for Engenho pela terra dentro^ to-
da a conducçaõ por terra atè a Moenda corre por conta do
dono da Canna, quer feja livremente dada, quer obrigada ao
Engenho.
Conduzir a Canna por terraem tempo de chuvas , & la-
mas , he querer matar muitos Boys , particularmente fe vie^
raõ de outra parte magros, & fracos, eftranhando o pafto no-
vo, & o trabalho. O que muito mais fe ha de advertir na con-
ducçaõ das Caixas , como fe dirá em feu lugar. Por ifib os
Boys , que vem do Certaõ cançados , & maltratados no ca-
minho , para bem não fe hão de pôr no carro , fenaõ depois
de eftarem pelo menos anno &: meyo no pafto novo , & de fe
acoftumarem pouco a pouco ao trabalho mais leve , come-
çando pelo tempo do Verão, & não no do Inverno: de ou-
tra forte, fuecederá ver o que fe vio em hum deft.es annos paf-
fados , em que morrerão fó em hum Engenho duzentos , Sc
onze Boys , parte nas lamas , partena Moenda > & parte no
Pafto. E fe moendo com agua , & ufando de barcos para a
conducçaõ da Canna, heneceílario terno Engenho quatro
ou cin-
afi Cultura ,
ou cinco carros , com doze , ou quatorze juntas de Boys mui«
to fortes ; quantos haverá mifter quem moe com Beífas , 6c
Boys , & tem Canna própria 9 para fe conduzir de longe á
Moenda l Advirta-íe muito nifto , para fe comprarem a tem-
po os Boys , & taes , quaes faõ neceííarios : dando antes oito
mil reis por hum fô Boy manfo 9 & redondo , do que outro
tanto por dous pequenos 3 & magros , que naõ tem forças pa-
ra aturarem no trabalho.
?£ji)(fw,*í3©w ^'«cjsv •'Sáwi* ^íjsíw %asiw «rj
(«f€§^€^€l^€ii€l^€!
CAPITULO V.
Do Engenho , ou Cafa de moer *a Canna : & cotm
fe inove a Moenda tom agua.
Inda que o nome de Engenho eomprehenda todo o
Edifício 3 com as Oíficinas , •& caías neccílanas para
moer a Canna 7 cozer , & purgar o Afincar ; com tudo toma-
do mais em particular, o mefmo he dizer Cafa do Engenho,
que Cafa de moer a Canna com o artificio, que engenhoía-
mente inventarão. E tendo nós já chegado a efta Caía cora a
Canna conduzida para a Moenda , daremos alguma notieia
éô que ella he , &: do que nella fe obra , para efpremer o Aííu-
car da Canna j valendo-me do que vi no Engenho Real de
Serigippe do Conde, que entre todos os da Bahk he o mais
aífamado.
Levanta-fe á borda do Rio fobre dezafete grandes pila-
res de tijolo , largos quatro palmos , altos vinte & dous , &
diftantes hum de outro quinze, húaalta, ■& efpaçofa Cafa,
cujo teclo cuberto de telha aííenta fobre tirantes, frechaes, &
vigas de paos, que chamão deley , que faó dos mais fortes,
que ha noBraíll , aquém nenhúa outra Terra leva nella par-
te ven-
teventagem
&* Opulência do ^BrafiL 4$
coou duas varandas ao redor : bua" para rece-*
ber Canna , 6c lenha -y outra para guardar madeiras ufuaes de
íobrecellente- E a eftachamaõ Gafada Moenda, capaz dé
receber commodamente quatro Tarefas de Canna ,fem per-
turbação, 6c embaraço dos que necefíariamente hão de lidar
na dita Gafa, 6c dos que por ella paífaõ , fendo caminho aber^
to para qualquer oiitra-Officina, 6c particularmente para as
Cafas immediatamente contíguas das Fornalhas, 6c das Gal -
deiras: contando de comprimento todo eíte Edifício cento 6c
noventa & três palmos, 6c oitenta 6c féis de largo. Moe-fe ne-
fra Gafa a Canna com tal artifício de Eixos ,. êc Rodas, que
bem merece particular reflexão ,6c mais diílinta noticia.
Tomaõ para mover a Moenda do Rio acima , aonde fa^
a fua queda natural, a que chamaõ Levada, que vem a fer mia
porção baftante de agua do açude y ou tanque , que para iflb
tem, divertida com reprezas de pedra, & tijolo,do íeu eurfcv
& levada com declinação moderada por hum rego capaz , Sc
forte nas margens, para que a agua vá unida, & melhor fe có-
ferve, cobrado na declinação cada vez mayor Ímpeto* & for-~
f a : com feu fangrador,para a divertir, fe for neceílario, quan-
do por razaõ das chuvas ou cheas vieíle mais do que fe per*
tende ; 6c com outraabertura para duas bicas , húa que leva
ê agua para a Gafa das Caldeiras, 6c outra que vay a refrefcar a
Aguilhaó da Roda grande dentro da Moenda ; fervindo-íe ,
para a. communicar ao outro Aguilhaõ , de húataboa : èc, aA
fim vay a entrar no cano de pao , que chamão Caliz , fuílen-
tado de pilares de tijolo , 6c na parte fuperior defcuberto, cu-
jo extremo inclinado fobre os cubos da Roda fe chama Feri-
dor;. porque por elle vay a agua a feriros ditos Cubos, don-
de fe origina, 6c continua o feu moto. AíTentão os Aguilhoés
do Eixo defta Roda , hum pela parte de fora , 6c outro pela
parte de dentro da Cafa da Moenda , fobre feus chumaceiros
de. pao , com chapa de bronze \\ òc a eílcsluftentaõ duas Vir-
gens^
]
■ » " - ■ . - *
Cultura ,
gens , ou Efteyos de fora , & duas de dentro , com feu brin-
quete , que he a traveíía , em que os Aguilhoens fe encoftão.
E fobre eftes, comodiíTemos, vay femprecahindo húa pe-
quena porção de agua, para os refreícar , de forte que peio
continuo moto naõ ardaõ -, temperando-fe com a agua fu ffi-
cientemente o calor.
As afpas da Roda larga, 8c grande fuftentaõ aos arcos, ou
círculos delia; 8c dentro apparecem os Cubos,ou covas feitas
no meyo daRoda , 8c unidos hú a outro, cõ o fundo fechado
do forro interior da mefma Roda entre os dous arcos delia,
aífegurados cõ muitas cavilhas de ferro,8ccom fuás arruellas
8c chavetas, metidas, & atravefiadas, para encha vetar as põ-
tas das cavilhas j caufa de naõ bulirem os arcos , né os Cubos
ao cahir da agua , & de ir a Roda com fuás voltas fegura. Per-
to da Roda pela banda de fora eítaõ dous Efteyos altos , Se
groífos, com três traveíTas, aíTeguradas também de outra par-
te ; húa das quaes fuftenta a extremidade do Caliz , duas ao
Feridor , & outra ao Pejador do Engenho. He o Pejador húa
taboa , pouco mais larga que a Roda, de dez ou doze palmes
de comprimento , com fuás bordas , femelhante a hum gran*
detaboleiro, debaixo do Feridor, com húa cavilha chave-
tada, de forte que fepoífa jogar, & bulir com ella fem reíl-
itencia j & por iííò fe faz o buraco da cavilha baftantemente
largo : Sc na parte inferior tem no lado , que fe vay a encoftar
à parede da Moenda, humefpigaõde ferro, prezo tambem
cem húa argola de ferro , que entrando por húa abertura pe-
la dita parede, com fua maõ , ou cabo , em o qual fe encaviiha
.fobre hum Efteyo , que chamaõ Mourão , á maneira de en-
gonços, fkaàdifpofiçãodequêeítánaMoendao mandalla
parar , ou andar como quizer , empurrando , ou puxado pelo
Pejador^o qual pondo-fe fobre os Cubos,impede ao Feridor
odarlheomotocom a queda da agua j & tornando adefeo-
brir aos Cubos , torna a mover-fe a Roda , 8c com a Roda a
Mocn-
& Opulência do *Brafil. 49
Moenda. E ifto he muito neceííario em qualquerdéfaftre,
que pôde acontecer j para lhe acudir deprefía , & atalhar os
perigos. E chamão a eftataboaPejadori porque também ao
parar doEngenho chamão pejanpor vétura, porfe pejar hum
Engenho Real de fer retardado , ou impedido , ainda por
hum inftante ; 6c de não fer fempre , como he razão, moente,
6c corrente. E ifto quanto á parte exterior da Moenda , don-
de principia o feu movimento.
Entrando pois na Cafa interior^ o modo com que fe com-
munica o moto por fuás partes á Moenda , heoíeguinte. O
Eixo da Roda grande , que , como temos dito , pela parte de
fora fe mete dentro da Gafado Engenho , tem no feu remate
interior , chegado aonde aíTenta o Aguilháo fobre o brinque-
te , 6c Efteyos , hum Rodete fixo , Sc armado de derítes , que
ò cerca ; 6c efte virado ao redor pelo caminho do ditoEixo>
apanha fucceflivamente na volta , queda com feus dentes,
outros de outra Roda fuperior , também grande , que cha-
mão Volândeira , porque o feu modo de andar circularmen-
te no ar fobre aMoenda fe parece com o voar de hum paííaroi
quando dá no ar feus rodeos. Os dentes do Rodete , que eu
vi, erão trinta 6c dous ; Sc os da Volândeira , cento Sc doze. E
porque as afpas da Volândeira palTão pelopefcoço do Eixo
grande da Moenda > por ellas fe lhe comunica o impulfo : 6c
eíle recebido do dito Eixo grande , cercado de entrozas , 6c
dentes, fe communica também a dous outros Eixos menores,
que tem de ambas as ilhargas , dentados , 6c abertos igual-
mente, com fuás entrozas do mefmomodo, que temos dito
do grande : 6c com eftes dentes , 6c entrozas fe caufa o moto,
com que uniformemente o acompanhão.
As afpas da Volândeira faõ oito, quatro fuperiores , 6c
quatro inferiores : 6c as inferiores tem fuás contrafpas, para
mayor fegurança. Os três Eixos da Moenda fão três paos re-
dondos de corpo esférico, alto nos menores iguaes cinco pai-
D mos
■ »«>'
50 Cultura,
mos 6c meyo ± & no mayor 5 que he o do meyo , alto féis pat-
mos , & também de esfera mayor que os outros , & porelei-
çaó o melhor ; porque jogando com os dous , que nas ilhar-
gas continuamente o apertão,, gafta-fe mais que os outros:
&porúTopor boa regra os menores tem nove dentes, &o
mayor onze ■ & fó efte ( para fallarmos com a lingua dos Of-
ficiaes) tem feu pefcoço, &: cabeça alta, conforme a altura
do Engenho , & commummente ao todo vem a ter o dito
Eixo doze palmos de alto : cuja cabeça de dous palmos &
meyo , mais delgada que o pefcoço , entra por hum pao fu-
rado , que chamaõ Porca , fuftentado de duas Vigas de qua-
renta & dous palmos , asquaes aífentaò fobre quatro Eíre-
yos altos dezafete palmos,& groíTos quatro., com fuás travef-
ías proporcionadamente diftantes. Ê ainda que os outros
dous Eixos menores naó tem pefcoço j com tudo pela parte
de cima entraõ quanto baila, com fua ponta, ou aguilhaõ,
por hunspaos furados, quechamãoMezas, cu Gatos, cem
que fícaô direitos , & feguros em pé. Os corpos dos três Ei-
xos, da ametade para baixo faó veftidos igualmente de cha-
pas de ferro unidas , Sc pregadas com pregos feitos para efte
' fim com a cabeça quadrada , & bem entrante , para fe iguala-
rem com as chapas r debaixo das quaes os corpos dos Eixos
faó torneados com tornos de paos de ley , para que fique a
madeira mais dura, 8ç mais capaz de refiftir ao continuo a-'
perto, que ha de padecer no moer. Sobre as chapas apparece
hum circulo,ou faixa de pao, qhe a outra parte do corpo dos
mefmos Eixos, defpida de ferro : & logoimmediatamente
ie legue o circulo dos dentes de pao de íey , encaixados no
Eixo com fuás entrozas, (que faó húas cavaduras , ouvaós
repartidos entre dente, & dente) para entrarem , & íahirem
delias os dentes dos outros Eixos collateraes > que para iílò
faó cm tudo iguaes os dentes , & as entrozas : a faber, os den-
tes na groífura, Sena altura •> & as entrozas na largura, fc
pio-
&* Opulência do 7$ra/ul 5*
profundeza do encaixamento ,ou vazio , que comummente
faem do corpo do Eixo , comprimento de cinco ou féis de-
dos, de largura de húamaõ, & de quatro ou cinco dedos de
cofta , de forma quaíi chata , & nos extremos redonda. E ain-
da que entre dente , & dente dos Eixos menores haja efpaço
medido por compaífo de igual medida, que he hum palmo
grande j osdoEixomayortem demais a mais tanto efpaço,
alem do palmo, quanto occupariaa groflura de húa moeda
de dons cruzados : & ifto fe faz , para que eftejaõ em fua con-
ta , & naó entrem no mefmo tempo os dentes dos Eixos col-
lateraesi mas hum fe ífga atraz de outro, & defta forte fe con-
tinue em todos três o-moto , quefe pertende. E por iílb tam-
bém os dentes , Sc as entrozas de hum Eixo fe haõ de defen-
contrar dos dentes, & entrozas de outro : a faber , ao dente
do Eixo grande ha de correfponder a entroza do pequeno; M
ao dente do pequeno a entroza do grande. Saõ os dentes(co-
mo dizia ) na parte que fae fora do Eixo algum tanto chatos,
&■ no rim quaíi redondos , largos quatro ou cinco dedos , &
outro tanto groU os : & entraõ quafi outros quatro dedos pela
fua raiz no Eixo , aonde fe aífeguraõ , alem da parte, com que*
fazem parede às entrozas, que faõ na mefma conta quatro ou *
cinco dedos profundas. Sobre os dentes dos Eixos menores
#) fica a terceira parte do paodefcuberta, & fe remata a modo
de degraos em dous círculos menores, veftidos de duas argo*
las de ferro de groífura de hum dedo & meyo , largura de três
dedos : & na ponta do pao fe vaza de tal forte, que entre nelle .
hiu buxa quadrada de dous ou três palmos , de fapupíra me-
rim: a qual buxa tãbem em parte fe vaza, &: nella fe encaixa o
aguilhaô de ferro,cóprimento de três palmos, gr oflura de hú
caibro, á força de pancadas com hum vay vem de ferro. E pa-
ra melhor fegurança do aguilhaô , & da buxa , fe abre na ca-
beça dos quatro lados da buxa , com húa palmeta de íerro , á
força de pancadas do vay vem i & fe lhe metem húas.pal me-,
D 2 tas*
:
li:!»'
51 Cultura ,
tas, ou cunhas menores de pao de ley, para naõ aluir. E peío>
mefmoeftylo de degraos, & argolas , buxa, &" aguilhaõ, cora.
que temos ditofe remata a parte fuperior dos dous Eixos me-
nores, feremataõ também as partes inferiores de todos três,
ajuntando de mais a cada aguilhaõ feu piaõ de ferro , calça-
do de aço da groííura de húa maçai , que também fe encaixa
pela parte fuperior até dous dedos dentro do aguilhaõ; & pe-
la parte inferior põem a ponta fobre outro ferro chato, que
chamaó mancai , de comprimento de hum palmo , também
calçado de aço , para que fe naõ fure com o continuo virar,
que fobre elle faz o piaô. E todos eftes três Eixos , ou corpos
da Moenda , aonde chega o piaõ ao mancai , aífentao fobre
hum pao, que chamaó Ponte, de comprimento de quinze ou
dezafeis palmos : & para fuftentar toda a Moenda forte , &:
fegura, fervem quatro Virgens,que faõ quatro Efteyos, altos
da terra nove palmos , & groíTos fete , femelhantes no feu of-
fíciode fufter aos que fuílentaõ as Vigas grandes , & a Perca,
ou pao furado , por onde paífa a ponta do Eixo grande , que
íòbre os outros collateraes fe levanta atèa dita altura, como
parte principal da Moenda. Sobre eíías Virgens de ponta a
ponta vaõ huns paos , que chamaõ Mezas, quafi hum palmo
de groííura , & vinte de comprimento, fobre as quaes defean-
çaõ as traveífas , que chamaõ Gatos , em que fe movem os (
Eixos pela parte fuperior: & fobre eíles vay outro andar ao
comprido , de taboas , que chamaõ Agulhas, as quaes fervem
para fegurar as cunhas , com que fe aperta a Moenda.
O lugar aonde fe põem os feixes da Canna, queimme-
diatamente ha de paífar para feefpremer entre os Eixos, faó
dous taboleiros , hum de húa parte , & outro de outra , que
tem feus encaixas , ou meyos círculos ao redor dos Eixos da
Moenda, afaíladosdelles tanto, quanto baila para naõ lhes
impedir fuás voltas. Eoeftaremos taboleiros chegados aos
Eixos, he para que naõ cayaa Çanna.ou o bagaço delia perto
dos
&• Opulência do TZrafil. 53
dos aguilhoés , & retarde de algum modo aos pioés •> &. para
,que fe naõ fuje o caldo, que fae da Canna moída.
C A P I T U L O Vi.
Do modo de moer as Cannas : Qf de quantas peffoas
neçeffita a Moenda.
Oem-fe as Cannas , metendo algumas delias lim
da palha , Sc da lama ( que para ino , fe for neceííario,
ieiavaó) entre dous Eixos : aonde apertadas fortemente fe
^fpremem, metendo-fe na vol tanque daõ os Eixos , os dentes
da Moenda nas entrozas*, para mais as apertar , 6c efpremer
entre os corpos dos Eixos chapeados , que vem a unir-fe nas
voltas j Sc depois delias parladas , torna-fe de outra parte a
paffar o bagaço, para que feefprema mais, 6c de todo o çu-
mo, ouliquor, queconferva. Eefteçumo (ao qual depois
chamaõ Caldo ) cae da Moenda em húa Cocha dè pao , que
eftá deitada debaixo da Ponte dos Aguilhoens j 6c dahi cor-
re por húa bica a humParól metido na terra, que chamaõ
Paról do Caldo $ donde fe guinda com dous caldeirões , ou
cubos para cima com roda , eixo , & correntes , 6c vay para
outro Paról, que eftá em hum fobradinho alto, a quem cha-
maõ Guinda 5 para dahi paíTar para x Cafadas Caldeiras,aon-
de fe ha de alimpar.
Noefpaço de vinte 6c quatro horas moe-fe húa Tarefa
redonda de vinte & cinco até trinta carros de Canna j 6c em
húa íèmana das que chamaõ folteiras (que vem a fer , fem dia:
fanto ) chegaõ a moer fete Tarefas : 6c o rendimento compe-
tente he húa forma, ou paõ de Aífucar por fouce > afaber,
quanto corta hum Negro em hum dia. Nem o fazer mais Af-.
- ^ D 3 fucar
«a^i
' •■
54 Cultura,
fucar depende de moer mais Canna } mas de fer a Canna de
bom rendimento , afaber,bemafTucarada5 naó aguacenta,
nem velha. Se meterem mais Canna, ou bagaço , do que cõ-
vem j haverá rifco de fe quebrar o Rodete , & a Moenda da-
rá de íi , & rangerá na parte de cima , Sc poderá fer } que fe
quebre algum aguilhaõ. Se a agua , que move a Roda , for
muita , moerá tanta Canna, que naó fe lhe poderá dar vazàõ
11a Cafa das Caldeiras , & o Caldo azedará no Paról de coar,
por fe naò poder cozer em tanta quãtidadenem , taõ depreífa
nas Tachas. E por iíío o Feitor da Moenda 3 & o Meftre do
AíTucar hão de ver o que convém ; para que fenaõ perca a
Tarefa.
O lugar de mayor perigo , quehanoEngenho, he o da
Moenda : porque íè por defgraça a Efcrava, que mete a Can-
na entre os Eixos 5 ou por força do fono , cu por can cada 5 ou
por qualquer outro defcuido, meteo defattentadamente a
mão mais adiante do que devia 3 arrifca-fe a paífar moída en-
tre os Eixos , fe lhe naõ cortarem logo a maõ , cu o braço a-
panhado , tendo para iífojunto da Moenda hum facaõ* ou
jiaõ forem taõ ligeiros em fazer parar a Moenda , divertindo
com o Pejador a agua , que fere os cubos da Roda 3 de forte
que dem depreífa a quem padece, de algum modoo remé-
dio. E efte perigo he ainda mayor no tempo da noite y era
que fe moe igualmente como de dia ; poíto que fe revezem
as que metem a Canna por fuás efquipaçoens : particularmen-
te , fe as que andaó nefta occupaçaõ forem boçaes } ou coíhi-
madas a fe emborracharem.
AsEfcravas, de que neceífita a Moenda , ao menos íaõ
fcte , ou oito: a íáber , três para trazer Canna ; hCia para a me-
ter j outra para paífar o bagaço j outra para concertar , Sc
acender as candeas 3 que na Moenda faô cinco , & para alim-
par o Cocho do Caldo , (a quem chamão Cocheira , ou Ca-
lumbá) & os aguilhoés da Moenda3$c refreícallos com agua,
para
•
&• Opulência do Trafê. 5 y
para que naõ ardaõ , fervindo-fepara ifíbdoParól da agua
que tem debaixo do Rodete , tomada;da quecae noAptii-
lhaõ i como também para lavar a Carina enlodada 5 & outra
finalmente para botar fora o bagaço , . ou no Rio , ou na ba-
gaceira . para fe queimar a feu tempo. E fe for neceííario
botallo em parte mais diftantei naõ bailará húa fó Efcrava,.
mas haverá mifter outra, que a ajude : porque de outra for-
te naó fe daria vazáõ a tempo , & ficaria embaraçada a
Moenda.
Sobre o Paról do Caldo , que, como temos dito , eílá
metido na terra, ha húa Guindadeira , que continuamente
guinda para cima com dous cubos o Caldo : Sc todas as fo-
breditas Efcravas tem neceífídade de outras tantas , quèas
revezem depois de encherem o feu tempo, que vem a fera
ametade do dia > Sc a ametade da noite : & todas juntas laváo
de vinte Sc quatro em vinte Sc quatro horas com agua, Sc vafr
culhos de piaíTába toda a Moenda. A tarefa das Guindadei-
ras he guindar cada húa três Paroes de Caldo. , quando for
tépo, para encher as Caldeiras* 6c logo outra outros tresj ftK>
cedendo deita forte húa á outra, para que poííaõ aturar no
trabalho. E para o bom governo da Moenda, alem do Feitor,
que attende a tudo , neffe lugar mais que em outros, parte de
dia, Sc parte de noite _, ha hum Guarda , ou Vigiador da
Moenda: cujo officiohe, attentar em lugar do Feitor, que
a Canna fe meta , Sc fe paíTe bem entre os Eixos ; que fe defpe*
j e , & tire o bagaço 5 que fe refrefquem , Sc alimpem os Agui-
lhoens , Sc a Ponte : Sc fuccedendo algum defaftre na Moen*
da j elle he o que logo acode, 6c manda parar.
D 4
CA.
Cultura ,
C J^? I T U L O VII.
Das Madeiras , de que fe fa\ a Moenda , £r* todo
o mais madeiramento do Engenhe , Canoas , Qf?
Barcos : ©* do que fe coftuma dar aos Car-
pinteiros , Qf outros femelh antes
Officiaes*
ANtes de paíTar da Moenda para as Fornalhas , Sc Cafa
dasCaldeirasjpareceme neceííario dar noticia dosPaos
& Madeiras, de que fe faz a Moenda, 6c todo o mais madeira-
mento do Engenho , que no Brafil fe pôde fazer com efcolha,
por naõ haver outra parte do Mundo tam rica dePaos fele-
êtos , Sc fortes y naõ fe admittindo nefta fabrica Pao , que naõ
feja de ley , porque a experiência tem moftrado fer ailim ne-
cefíario. Chamaõ Paos de ley aos mais folidds , de mayor du-
ra , 6c mais aptos para ferem lavrados : & taes faõ os de Sapu-
câya,de Sapupíra, de Sapupíra cari, de Sapupíra merim ,
de Sapupíra açú , de Vinhatieo, de Arco, de Jetay amarel-
lo, de Jetay preto,deMeffetaúba, de Maífarandúba, Pao
Brafil , Jacarandá , Pao de Óleo, Picai , 6c outros femelhan-
tes a eftes. O madeiramento da Cafa do Engenho, Cafa das
Fornalhas , 6c Cafa das Caldeiras , & a de Purgar , para bem
ha de fer de Maífarandúba $ porque he de muita dura , &c fer-
ve para tudo , a faber , para Tirantes , Frechaes , Sobrefre-
chaes , Tifouras , ou Pernas de Afna , Efpigoés , & Terças :
& deita cafta de Pao ha em todo o Recôncavo da Bahia, 6c
em toda a Cofta do Brafil. Os Tirantes, & Frechaes grandes
valem três , 6c quatro mil reis 3 6c ás vezes mais , conforme o
f«u
& Opulência do TZrafil* 57
feu comprimento , & groífura , aíTimtofcoscomovemdo
matto ,ió com a primeira lavradura. Os Eixos da Moenda fe
fazem de Sapucâya, ou de Sapupíra cari: a ponta,ou cabo do
Eixo grande , de Pao de Arco, ou de Sapupíra : os dentes dos:
três Eixos da Moenda , do Rodete , & da Volandeira faõ d©
Mefletaúba. As Rodas da agua, de Pao de Arco, ou de Sa-
pupíra, ou de Vinhatico. Os Arcos do Rodete, & Volandei-
ra , Ôc as Afpas , Sc Contrafpas , de Sapupíra. As Virgens , Sc
mais Eíteyos , Sc Vigas , de qualquer Pao de ley. Os Carros,
de Sapupíra merím, ou de Jetay , ou de Sapucâya. ACaliz,
de Vinhatico. As Canoas, de Picay, Joairâna, Jequitiba*
Utufsíca, Sc Angelí. As cavernas , Sc braços dos Barcos, de
Sapupíra , ou de Landim Carvalho , ou de Sapupíra merím:
a quilha, de Sapupíra, ou de Parôba : os forros , & coitados ,
de Utím, Parôba , Burayém , & Unhuíba : os maítos, de
Inhuibatan: as Vergas, de Camafíarí: o leme, de Averao, ou
Angelí : as curvas , Sc as rodas da proa , Sc poppa , de Sapu-
píra, com feus coraes metidos : as varas , de Mangue branco:
Sc os remos , de Lindirâna , ou de Genipappo.
As. Caixas , em que fe mete o AíTucar , fe fazem de Jequi-
tibà, Sc Camaífarí : Sc naõ havendo deitas duas caítas de pao,
quanto baíta ; fe poderáõ valer de Burifsica para fundos , Sc
tampos. E eítas taboas para as Caixas vem da Serraria já fer-
radas , Sc no Engenho fó fe levantaõ , endireitaõ , Sc aparaõ :
Sc haõ de ter nos lados , para bem , dous palmos Sc meyo de
largo , Sc fete & meyo , ou oito de comprido : Sc os fundos
três palmos de largo, Sc o mefmo de comprimento. Valia
rma Caixa nos annos paífados , dez , ou doze toftoens -, agora
íubíraõ a mayor preço.
Hum Eixo da Moenda tofco no matto , Sc torado fó nas
pontas , ou ainda oitavado , vai quarenta , cincoenta , Sc ÍqÍ-
fenta mil reis, Sc mais, conforme a qualidade do pao , Sc a*te-
ceífidade , que ha delle. Os que vem de Porto- feguro , Sc Pa-
58
Cultura ,
tippe , ho fomenos , por ferem creados. em Várzeas : os me-
lhoresfaõ os que vem da Pitanga, & daTerra-nova acima
de Santo Amaro. Toda a Moenda importa mais de mil cru-
zados ; alem da Roda grande da agua, que por fer chea de
cavilhas , & cubos , vai mais de duzentos mil reis.
Ao Carapina da Moenda fedaõ cinco toíloés cada<Iia a
feco: & fe lhe derem de comer, dáfe-lhe hum cruzado, & ain-
da mais neítes annos, em que todos os preços fubíraõ. Quafi
o mefmo fe dá aos Campinas de obra branca. Aos Carapinas
de Barcos, & aos Calafates fe daó a feco fete toíloés &c mey o:
3c féis toíloés , ou duas patacas , fe lhes derem de comer.
Hum Barco velejado para carregar lenha , & caixas , cuíla
quinhentos mil reis : hum Barco para conduzir Canna, tre-
zentos mil reis: & húa Rodeira quatrocentos mil reis, As Ca-
noas vendem-fe conforme a fua grandeza, & qualidade do
Pao. Por iífo fendo as de qiie comummente fe ufa nos Enge-
nhos-, húas pequenas , & outras mayores ; mayor , ou menor
também feri o preço delias, a faber, de vinte, trinta, qua-
renta, <k cincoenta mil reis.
Cortaõ-fe os Paos no matto com machados no difcurfo
detodooanno, guardando as conjunções da Lua, a faber,
três dias antes da Lua nova, ou três depois delia chea ; & ti-
rão-fe do matto diverfamente; porq nas Várzeas huns os vaõ
roíando fobre eílivas ; outros os arraílaõ a poder deEfcra-
vos, q puxão : & nos Outeiros, de alto a baixo fe decem com
Socairoj & para cima dos mefmos Outeiros, também fe arra-
ílaõ puxando. Iílo fe entende aonde naõ ha lugar de ufar dos
Boy s , por fer a paragem ou muito a pique , ou muito funda,
& aberta em covões. Mas aonde podem puxar os Boys , fe
tiraó do matto com tiradeiras, amarrando com cordas, ou cõ
íip òs, ou couros a tiradeira , fegurada bem com chavelha : Sc
na lama em tempo de chuva , dizem que íe arraílaõ melhor,
que em tempo de feca 5 porque com a chuva mais facilmente
«ícorregao. C A-
&- Opulência do UrafiL
5P
CAPITULO VIIL
Da Cafa das Fornalhas, (eu aparelho , Qf Lenha ,
que ha mifter : & da Cinza , Qffaa
]Decoada.
JUnto á Cafa da Moenda , que chamaõ Cafa do Enge-
nho, fegue-fe a Caía das Fornalhas , bocas verdadeira-
mente tragadoras de Mattos 5 Cárcere de fogo , & fumo
perpetuo, & viva imagem dos Vulcões, Vefuvios, &Et~
nas , & quaíi diífe do Purgatório , ou do Inferno. Nem fal-
taõ perto deílas Fornalhas feus condenados * que faô os Ef-
cravos boubentos , &: os que tem cor rim entos } obrigados a
eíla penofa aíTiftencia , para purgarem com fuor violento os
humores Gallicos, de que tem chey os feus corpos. Vem-fe
ahitãbem outros Efcravos facinoroíbs,q prezos em compri-
das , & groílas correntes de ferro , pagaõ nefte trabalhofo ex«
ercicio os repetidos exceífos da fua extraordinária maldade^
com pouca , ou nenhúa efperança da emenda.
Nos Engenhos Reaes coftuma haver féis Fornalhas , &
nellas outros tantos Efcravos affiftentes, que chamaõ Mete-
doresda Lenha. As bocas das Fornalhas faõ cercadas com
arcos de ferro : naõ fó para que fuftentem melhor os tijolos }
mas para que os Metedores no meter da lenha naõ padeçaõ
algum defaftre. Tem cada Fornalha fobre a boca dous boei-
ros, que faõ como duas ventas, por onde o fogo resfolega.
Os pilares , que fe levantaõ entre húa , & outra , hão de íèr
muito fortes, de tijolo, & cal: mas o corpo das Fornalhas faz-
fe de tijolo com barro , para refiftir melhor á vehemente acti*
vidade
;!
Cultura ,
vidade do fogo -y ao qual naõ refiftiria nem a eal , nem a pedra:
mais dura : & as que fervem para as Caldeiras,faõ algúa coufa
mayores, que as que fervem para as Tachas. O alimento do
fogo he a lenha: 6c fó o Brafil com a immenfidade dos mat-
tos , que tem , podia fartar, com o fartou por tantos annos, &
fartará nos tempos vindouros , a tantas Fornalhas, quantas
íàò as que fe contaó nos Engenhos da Bahia, Pernambuco ,
& Rio de Janeiro , que com mumm ente moem de dia , & de
noite , féis > fete , oito, & nove mezes do anno. E para que fe
veja , quam abundantes faõ eftes Mattos ; fó os de Jaguarip-
pebaftaòpara dar lenha a quantos Engenhos haá beira-már
no Recôncavo da Bahia ; & de facto quaíi todos deita parte
fô fe provém. Começa o cortar da lenha em jaguarippe nos
princípios de julho > porque na Bahia os Engenhos começaó
a moerem Agofto.
Tem obrigação cadaEfcravo de cortar, & arrumar ca-
da dia húa medida de lenha , alta fete palmos , & larga oito -,
6c eftahe também a medida de hum carro : & de oito carros
conftaaTarefa.O cortar, carregar, arrumar, 6c botara le-
nha no Barco , pertence a quem a vende : o arrumalla no Bar
co , corre por conta dos Marinheiros. Ha Barcos capazes de"
cinco Tarefas -y ha de quatro ; ha de três : & eufta cada Tare-
fa dous mil 6c quinhentos reis, quando o Senhor do Engenho
a manda bufear com o íeu Barco : 6c fe vier no Barco do ven-
dedor , ajuntarfe-há de mais o frete , conforme a mayor , ou
menor diftancia do Porto. Hum Engenho Real , que moe
oito, ou nove mezes, gaita hum anno por outro dous mil cru-
zados na lenha : 6c houve anno , em que o Engenho de Seri-
gippe do Conde gaitou mais de três mil cruzados, por moer
m ais tempo, 6c por cu fcar a lenha mais caro. Vem a lenha em
Barcos á vela, com quatro Marinheiros , 6c o Arraes : & para
bem , o Senhor do Engenho ha de ter dous Barcos ; para que
cm chegando h*m, volte o outro. O melhor íortimentoda
Lenha
e> Opulência docBrajíl. 6 $
Lenha he aqnelle ', cuja ametade confta de rolos -grandes , Sc
traveços , que faõ menores ; Sc outra de lenha miúda : porque
a groíta ferve para armar as Fornalhas , & para cozer o Aflii-
carnasTachas , aonde he neceffario mayor fogo , para fe
coalhar: a mediana ferve para fazer liga cõ a grcíía : & a miú-
da ferve para alimpar o Caldo da Canna nas Caldeiras 5 por-
que para fe levantar bem a efcuma, demandaõ continuamen-
te lavaredas de chama. E por ifib a groíTafe chama Lenha de
Tachas ; &■ a miúda, Lenha de Caldeiras.
t Chegada a Lenha ao Porto do Engenho , arruffia-fe na
fua bagaceira : 5c íempre bebem, que diante, ou perto das
Fornalhas eílejaó arrumadas cinco , ou féis Tarefas de Le-
nha. Gaftaõ dous Barcos de Canna ordinariamente hum de
Lenha , fe for Lenha fortida : porque íe for miúda , naõ ba-
ila. O primeiro aparelho da Lenha , para fe botar fogo á For-
nalha , chama-fe armar : & ifto vem a fer, empurrar Rolos, &
eftendellos no laílro , ( o que fe faz com varas grandes , que
ehamaõ Trasfogueiros ) & fobreelles cruzar traveços, Sc le-
nha miúda, para que levantada chegue mais facilmente com
a chama aos fundos das Caldeiras , Sc Tachas. E o Metedor
ha de eftar attento ao que lhe mandão os Caldeireirosj botan-
do precifamente a lenha , que os de cima conhecem, Sc avifaõ
fer neceíTaria j aíllm para que naõ trasborde o Caldo , ou Me*
lado dos Cobres ; como para que naõ falte o ferver. Porque
fe naõ ferverem fua conta , naõ fe poderá alimpar bem da im-
mundicia , que ha de vir acima , para fe tirar , & efeumar das
Caldeiras. Porém para as Tachas, quanto mais fogo, me-
lhor.
Á Cinza das Fornalhas ferve para fazer Decoada : Sc
efta para alimpar ao Caldo da Canna nas Caldeiras , Sc para q
íaya o Aífucar mais forte. Paraiííb , arrafta-fe com Rodo de
ferro atè a boca das Fornalhas pouco a pouco a Cinza,& bor-
ralho - & dalii com hua pá de ferro fe. tira x Sc fe leva fobre ai
me&-
r— «*
r "
6% Cultura ,
mefma pá para o Cinzeiro , que he hum Tanque de tijolo fo-
bre pilares de pedra & cal , de figura quadrada , com fuás pa-
redes ao redor : 6c aqui fe conferva quente , & afíim quente fe
põem nas tinas , que para iíío eftaó levantadas da terra fobre
huns efteyos de três palmos. Ahi, depois de bem caldeada, &
arrumada, fe lhe bota agua, tirada de hum tacho grande, que
eftá fervendo fobre a fua proporcionada fornalha perto do
Cinzeiro. E para iífo ferve a agua, que palia pela bica , que
vay á Cafa das Caldeiras : & coando eira agua pela Cinza ,
âté paí^r pelos buracos , que tem as tinas no fundo , cobra o
nome de Decoada , &: vay a cahir nas formas , ou vaíilhas en-
terradas atè a ametadej Scdahifetira com hum coco , & fe
paíTa em hum tacho par a aCaíà dasCaldeirasjaonde fe repar-
te pelas Formas , que eftaó porias entre as Caldeiras, & ferve
para os Caldeireiros ajudarem com ella ao Caldo, como fe
diràemfeu lugar.
Ha-fe porém de advertir, que nem toda a lenha he boa,
para fe fazer Decoada : porque nem os paos fortes, nem a
lenha fecca fervem para ifTo. E a razaõhej porque os paos
fortes fazem mais. carvaõ , do que cinza : & a lenha miúda dà
pouca cinza , & fem força. A melhor he a dos Mangues bran-
cos , & de paos mollesj a faber, a de Cajueiros , Aroeiras , Sc
Gamelleiras. E para fe conhecer , fe a Decoada he perfeita ,
ha-fe de provar, tocando a lingua com hua pinga delia fo-
bre a ponta do dedo : &: fe arder , fera boa : fe naó arder , fera
fraca. Também , fefobejar Cinza de hum anno para outro
nas caixas , aonde a coftumaõ guardar ; antes de fe pôr nas ti-
nas, deve tornar a aquentar-fe no Cinzeiro , ou mifturar-fe
com a primeira , que fe tirar das Fornalhas com borralho:
porque , fe antes enfraqueceo -, comede beneficio torna a co-
brar feu vigor.
C A-
&• Opulência do 'Bra/IL
C A P I T U L O IX.
Das Caldeirado? Cobres-, feu aparelho, Officiaes,
& Gente , que nellas ha núíler : ÊT ' Inftrtí-
mentos Àe que ufaÕ.
A Terceira parte deUeEdifício fuperior ás Fornalhas, hts
a Caía dos Cobres; porque ainda que eíla fe chame cõ*
mummenteaCafa das Caldeiras, naó faó ellas fó , que tem
lugar neíta parte; mas outros grandes Vafos de cobre,, como
faõ Paroes, Bacias, & Tachas i & deíbes Vafos tem os Enge-
nhos Reaes dous ternos femprcem obra ; porque de outra
forte naópoderiaõ dar vazàõ ao Cafdo , quevemdaMoen^
da. Eftaõeftes Cobres poftos fobreaabobada dais fornalhas
em aífentos , ou encoftadores de tijolo , & cal ao redor } aber-
tos de tal forte , que com o fundo, que metem dentro da mef-
ma Fornalha, tapa cada qual a abertura , em que fe recebe;
&: entra por ella proporcionadamente aO corpo , que tem y a
faber , menos as Tachas , & muito mais as Caldeiras. E afEia
como tem fua parede , que divide húa de outra $ & outra pa*
rede , que divide efta Gafa da outra contigua do Engenho^
aflim tem diante de fi hum , ou dous degraos , por onde fe fo-
be a obrar nelles com os inftrumentos neceífarios nas ftiãos$
&: com baftanteefpaço , para dominar fobre elles com ajufta.
da altura ? Sc diftancia; & ao redor de todaa parede dianteira,
com caminho defafogado no meyo , eltáo Tendal das For*
mas, em que íe bota o Aílucar já cozido acoaiiar 5 &he ca-
paz de oitenta , & mais Formas.
Confia hum terno , ou ordem de Cobres f alem do Paról
do
6a Cultura^
do Caldo , 6c do Paról da Guinda , que ficaó na Cafa da
Moenda) de duas Caldeiras, a faber , da do meyo, & da ou-
tra de melar : de hum Paról da Efcuma : de hum Paról gran-
de , que chamão Paról do Melado; & de outro menor, que fe
chama Paról de coar : de hum terno de Tachas , que faõ qua-
tro 3 a faber , a de receber , a da porta , a de cozer , & a de
bater : &) finalmente de húa Bacia , que ferve para repart ir o
Aflucar nas Formas. E de outros tantos Cobres de igual, oti
pouco menor grandeza, confia outro andar femelhante.
Leva o Paról do Caldo de hum Engenho Real vinte ar-
robas de cobre : o Paról da Guinda , outras vinte arrobas : as
duas Caldeiras, feflfenta arrobas : o Paról da Efcuma, doze
arrobas : o Paról do Melado, quinze arrobas : o Paról de coar,
oito arrobas : o terno das quatro Tachas , a nove arrobas ca-
da hua, trinta &'■ féis arrobas: a Bacia, quatro arrobas: que em
tudo faõ cento & fetenta & cinco arrobas de cobre : o qual
vendendo-fe lavrado , quando he barato, a quatrocentos reis
a livra , importa dous contos & duzentos & quarenta mil
reis, que faõ cinco mil & feiscentos cruzados. E fe fe acrecen-
tar outro terno de Cobres menores, ou iguaes, crecerá pro-
porcionadamente o feu valor.
A parte,emq as CaldeiraSj&asTachas mais padece, heo
fundo : &c fe efte for de ruim cobre , & naõ tiver a grofliira ne-
ceífaria, naõ fe poderá alimpar o Caldo, comohe bé,nas Cal-
deiras i & o fogo queimará nas Tachas ao Aflucar 5 antes de
fe cozer , & bater. Por iflb nos Engenhos Rcaes , que moem
fete , & oito mezes do anno ,, fe tornaõ a refazer todos os fun-
des das Caldeiras ■> & Tachas.
As PeíToas , que afliftem nefta Cafa , faõ o Meftre do Af-
fucar , o qual preíide a toda a obra -} & corre por fua conta jul-
gar, fe o Caldo efrá já limpo , & o Aflucar cozido , & batido,
quanto pede , para eftar em fua conta : afliíle às temperas , &
ao repammento delias nas Formas ; alem do que lhe cabe fa-
zer
ç> Opulência do£Bra/iL 6$
zer na Caía de Purgar , de que fatiaremos no feu. próprio lu-
gar. A fua aíliftencia principal he de dia : . & ao chegar da
noite entra a fazer o mefmo ® Banqueiro , que hecoraoo
Contramcftre deita Cafa : Scdaintelligencia, experiência^
6c vigilância de hum, &" outro depende em grande parte o fa-
zer-íe bom , ou mao Aflucar. Porque ainda que a Canna naó
feja,qualdevcferj muito pôde ajudar a Arte , no que faltou
a Natureza. E pelo contrario pouco importa , que a Canna
fej a boa, fe o fruto delia , & o trabalho de tanto cufto fe bo-
tar a perder por defcuido , com naó pequeno encargo de
confciencia para quem recebe aventajadoeftipendio. Tem
mais por obrigação o Banqueiro, repartir de noite o A ífuçar
pelas Formas, aííentallas noTendal, & concertallas com
fípó. E para lhe diminuir o trabalho neílas ultimas obriga-
çoens,tem hum Ajudante de dia, aquém chamaõ Ajudabã-
queiro, o qual também reparte o Aííucar pelas Formas, af«
fenta-as, &concerta-as,comoeftá dito,
Revezaõ-fe nas Caldeiras oito Caldeireiros , divididos
era duas efquipaçoens , hum em cada húa , de aíliftencia con-
tinua atè entregalla ao feu fucceíToryefcumandoo Caldo que
ferve , com Cubos , Sc Tachos. Obrigação de cada Caldei-
reiro, he efcumar três Caldeiras de Caldo , que chamao três
Meladuras : 5c a ultima fe chama de Entrega y, porque a deve
dar meyolimpaao Caldeireiro, que o vem render. Epara
eftas três Meladuras , lhe ha de dar a Guindadeira o Caldo,
que ha mifter , a íèutempoj a faber , acabado de efcumar , &
alimpar húa Meladura, darlhe outra.
Nas Tachas trabalhão quatro Tacheiros por efquipa-
çoens de aíllfíencia , hum em cada Terno de Tachas : & tem,
por obrigação cada hum delles, cozer, & bater tanto A fíli*
car, quanto heneceííario para fe encher húa Venda de For*
mas, que vem a fer quatro , ou cinco Formas.
Serve, finalmente para varrer a cafa, & para concertar , & ,
E i 'í ; ■ acen-:
$6 Cultura ,
acender as carideas,(que faõ íeis, & ardem com azeite de pei-
xe) & para tiraras fegundas, & terceiras efcuraas doíeu pró-
prio Paról , «8c f ornalias a botar m. Caldeira , húa Efcrava , a
quem chamaõ por alcunha A Calcanha.
He também eíia Cafa lugar de Peoidentes : porque -com-
mumméiite fe vem nella Imns Mulatos , 6c huns Negros
Crioulos exercitar oollicio de Tacheiros, Sc Caldeireiros,
amarrados com grandes correntes deferro a hum cepo , ou
por fugi tivos, ou por iníignes em algum género de rnaldade}
para que deita férreo ferro , Sc o trabalhosos amaníè. Mas en-
tre elles ha também ás vezes alguns menos culpados , & ain-
dainnocentesj por fer oSenhor ou demafiadamente fácil a
crer o que lhe dizem , ou multo vingativo , Sc cruel
Os Inft rumemos , de que fe ufa na Cafá das Caldeiras ,
faõ Efeumadeiras, Pombas , Reminhoes , Cubos 9 Paílàdei-
ras, Repartideiras, Tachos , Vafculhos , Batedeiras, Bicas,
Cavadores, Efpatuks , Sc Picadeiras. Das Efcutnadeiras , Sz
Pombas grandes irfaõ os Caldeireiros: fervem as Efcumadei-
ras para alimpar : as Pombas , parabotaroCaldo de húa Cal-
deira para outra -y ou da Caldeira para o Paról : & por iíío os
cabos, aílim de húas, comodeoiitras, tem quatorze ou quin-
ze palmos de comprido, para fe poderem menear bem. Os
Reminhoes fervem para botar agua , &: decoada nas Caldei-
ras; & para ajudar aos Tacheiros a botar o Aífucar na Repar-
tideira, para irás Formas. Das Efeumadeiras mais pequenas,,
Batedeiras , Sc Panadeiras , Picadeiras , & Vaículhos ti íaõ os
Tacheiros da Repartideira , Cavador , Sc Efpatulas o Ban-
queiro , 8c o Ajudabanqueiro :<6c dos Tachos , Cubos , 8: Bi -
ca ufa a Cak anta a, para tiraraefeuma do feu próprio 1 .-. u ol,
6c para tornaljaa pôr na Caldeira. Scrveo Vaículho p^rati-
rar alguaimmundicia ao redor das Tachas : a Picadeira, para
tirar o Aífucar , que eírá como grudado nas rnefm as Tachas;
Sc o Cavador, para fazer.no bagaço do Tenda! as covas, aon-
de fe põem as íormas. C A-
&- Opulência d'o*Bra(il.
6?
CAPITULO X.
Do wo^o á* alimpar , ©* -purificar o Caído da Can-
na nas Caldeiras , Cf #0 Par 61 de coar , tf/e
f afiar para as Tachas.
Uindando-feo çumo da Canna (que chamaõ Caldo):
J para oFaról da Guinda ydahi vay por hm bica a entrar
na oaía dos Cobres-: &; o primeiro lugar , em que cae , he a
Caldeira, que chamaõ do Meyo , para nella ferver ,& come*
çar a botar fora a immundicia , comi que vem da Moenda. O
£ )gofaz neíte tempo o feu oírlcio •, Sc o Caldo bota; fora a
primeira efcuma > a que chamaõ Cachaça .* & cita por fer ira*
miindtííimay vay pelas bordas das Caldeiras bem ladrilha-
das fórada Caía , por hum cano enterrado , que a recebe poi
hua bica de p®&$ metida dentro doladrilhoy queerlá aoré-
dor da Caldeira -, & vay caltindo pelo dito cano em hum
grande Cochodepao , & ferve para as BeílaSy Cabras, Ove-
lhas y & Porcos i & em algumas partes: y também os Boys a
lambem ; porqiue tudo o que he doce ",, ainda qtieimmundoj
deleita. E para que o fogo naó levante a efcuma mais do que
heju-íto >& dé lugar de fe alimpar o Caldo , como he bem ;
footaólhe os Caldeireiros de quando em quando agua com
hum ReminhòL : & deita forte fe reprime a deraafiada for-
ça da fervura, Sc o Caldo ainda immundofe alimpa.
Saàidaa primeira efcuma per íi mefma, começaó os Caíw
deireiros com grades eícumadeiras de ferro a efcumar o Caí-
do, & ajudallo ; & chamaõ ajudar o Caldo*, obotarlhede
qaando em quando jàrhum Reminhòl de decoada 3 jà outro
Ez de
t«
■
6% Cultura ,
de agua , que ahi tem perto : a agua nas tinas , &■ a decoada
nas Formas. Serve a agua , parola v ar o Caldo \ & a decoa-
da, para que toda a immundiçia, que relia na Caldeira ,
venha mais.dè preffa arriba, & naòaííente nó fundo. Ser-
ve também para condenar o Aílhcar, & fazello mais for-
te; encoporando-fe com o Caldo, âo modo quer fe encorpo*
raofalcomaagua. Eíta fegunda Efcuma fe guarda, &c cae
por outra bica da mefma borda do ladrilho para o Farol mais
baixo ,& afaftado do fogo , que fe chama Paról da Efcuma :
&dahi com cubo, 5c tacho torna a botallo a Negra Cal ca-
nha, qtietemiftoporofficio, na mefma Caldeira, parafe
purificar , que chamaó repaífar : 8c vay por húa bica de pao,
encavilhada fobre hum efteyo de igual altura das Caldeiras ,
(a que chamaô Viola, por imitar no feitio a eíle inírrumento)
larga no corpo , ou parte , em que recebe a efcuma^ & eítreira
no canno, por onde cae na Caldeira. E tanto que o Caldo ap-
parece bem limpo, (efquefe conhece pela efcuma, 8c pelos
olhos, & empolas, que levanta , cada vez menores , & mais
claros ) com húa Pomba grande ( que he hum vafo concavo
de cobre,com feu cabo de pao comprido doze ou quinze pal-
mos) obótaõ na fegunda Caldeira, que chamaõ de Melar: &
aqui fe acaba de purificar , com o mefmo beneficio de agua &
decoada, atè ficar totalmente limpoJDeixa-fe alimpar oCal-
do na Caldeira do meyo comummente pelo efpaço de meya
hora : Sc já meyo purgado paífa a cahir na Caldeira de Melar
por húa hora ,.ou cinco quartos , atéacabar de fe efcumar : &
nunca fe tira todo o Caldo das Caldeiras , por razaó dos Co-
bres, que padeceriaõ detrimento do fogo ; mas fe lhes deixa
dous, ou três palmos de Caldo, 8c fobre efte febota o novo.
A Efcuma tanibem deita fegunda Caldeira vay aoParòl da
Efcuma •, Sc dahi torna para a primeira , ou fegunda Caldeira
até o fim da Tarefa : 8í deita Efcuma tomaó os Negros para
fazerem fua Garappa , que he a bebida, de que mais goftaõ ,
& com
& Opulência do 73rafil. 69
goftaõ , 6c com que reígataó de outros feus Parceiros farinha,
bananas , aipins , 8c feijoens ; guardando- a em potes ate per-
der a doçura , 6c azedar-fe , porque entaõ dizem que eílà em
feu ponto para fe beber: oxalá com medida, & naó atè fe em-
borracharem. A derradeira Eícuma da ultima Meladura,que
he a ultima purificação doCaldo,chamaõ Claros: & eftes mi-
fturados com agua fria , faõ bua regalada bebida , para reíref-
car, & tirar a fede nas horas , em que faz mayor calma. Final-
mente tanto que o Meftre do AíTucar julgar que a Meladu-
raeftá limpai o Caldeireiro com húa Pomba bota o Caldo,
aquejáchamãoMel, no Paról grande, que chamaó Farol
do Melado , & eftá fora do fogo , mas junto á mefma Caldei-
rajdòde o coaó para outro Paról mais pequeno ,q charnaõPa-
ról de coar, com pannos coadores eftendidos fobre húa gra-
de. E para que naó caya alguma parte delie na paífagem de
hum Paról para outro, & fc perca ; botaõ-lhe húa telha de
forma de purgar , que como feu arco, 6c volta abarca aos bei-
ços de ambos os Paroes, por onde corre o Caldo, que cae no
pa{Tar da Pomba , k vay a dar em hum , ou em outro Paról :
êcdefta forte nem húa fó pinga fe perde daquelle doce liquor,
que baftante fuor , fangue , 6c lagrimas eufta para fe ajuntar.
>
CAPITULO XI.
Do modo de co^er , Qf bater o éA/lelado nas
Tachas.
EStando já o Caldo purificado , 6c coado , pafíaa cozer-
fe nas Tachas, ajudadas de mayor fogo , 6c chama da
que haó mifter as Caldeiras} com tanto que os fundos tenhaó
E3 agrof-
H
7& Cultura ,
a grofTura baftante , para reíiftir á mayoracHvidade , qne ne-
íte lugar fe requer. E íe o Melado fe levantar de forte, que
ameace tresbordar 5 botando! he hum poucodefevo, \Go0
amaina, &fecalla. O que tal-vez também fana húa boa ra-
zão, fehouvefíè quem a fuggeriíreno tempo , em qne a in-
dignação quer fahir fora de feus limites. Dizem, que fe fe bo-
taííe qualquer liquor azedo nas Caldeiras , ou nas Tachas,
como verbi gratia çumo de limaò , ou outro femelhante; o
Melado niinca fe poderia coalhar, nem condenfar, comoVe
pertende:& allegaõcafos íegmdos. Porém rito naó parece
fer certo, falíando de qualquer caffa de iiquor azedo, fenaó
dodelimaõ: porque já houve quem botou no Caldo Cacha-
ça azeda em quantidade baftante, ou por fazer peça , ou por
enfado, & impaciência j . & com tudo coalhou muito bem a
feu tempo. Só de alguns ânimos fe verifica, que por hum le-
ve defgofto bótaó a perder hum grande cumulo , & naó de
quaefquer benefícios. O certo he , que em paííando o Mela.
do, ou Mel para as Tachas, pede mayor vigilância, & at-
íencao dos Tacheiros, Banqueiro, & Sotobanqueiro , &
Méftre : porque cite propriamente he o lugar, em que obra
como Meíire intelligeníe 3 & aonde he neceífario todo o cui-
dado, & artificio.
Paliando pois o Melado do Paról de coar para o Terno
das Tachas, corre por cada húa delias ordenadamente 5 &: '
pára em cada hua , quanto for neceíTario:> &maó mais , para o
fim , que em cada qual fe pertende. Na primeira Tacha , que
fe chama a de receber, ferve, & começa a cozer- fc} & íelhe
tiraó as efcumas mais finas, que ehamaõ Nettas, 6c fcbótaõ
com húa pequena efcumadeira em húa Forma, que ahieftá
poíta , & fe as quizerem aproveitar, como he bem, faraó del-
ias no lim da femana hum Paó de /Uíucar fomenos : porque
eftaEfcuma naó torna á Tacha, como torna a do Caldo ás
Caldeiras. Da Tacha de receber, aonde eílá pouco tempo,.
paíTa-fe
^-■^■1 *■
& Opulência do 'Brafil. y%
paffa-fe o Melado com húa PaíTadeira de cobre (quehedo
feitio de húa Pomba pequena) para a íegunda Tacha ,q cfoa-
maõ da Porta : 6c aqui continuando a ferver , & engroííar > fe
lançar de fi para a borda algúa immundicia , tira-fe , & alim-
pa-fe ao redor com hum Vafculho, que he como hum pincel,
ou efcova de imbíra , amarrado na ponta de iiúa vara : &c ne-
fta Tacha fe deixa eftar mais tempo, atè ficar jà meyo cozi-
d o. Daqui com a mefma PaíTadeira íe bota na terceiraTacha,
que chamaõ de cozer : porque ainda que nas outras também
fe coza; comtudo aqui acaba de fe cozer, 6c de fe condenfar
perfeitamente, até eftar em feu ponto, para fe bater : ôcifto
o ha de julgar o Meftre ,, ou em feu lugar o Banqueiro , pelo
corpo , & groííura > que tem. E eftando deíla forte, chama- fe
Mel em ponto, groífb fuíheienternente, 6ccornpa£to, 6c jà
difpofto para paílar á quarta Tacha , que chamaõ Tacha de
bater , aonde fe mexe com húa Batedeira , que he femelhan-
te à Efcumadeira , mas com feu beiço , '6c fem furos > 6c bate-
fe, para fe naó queimar: 6c quando o tem bem batido> 6c' com
baítante cozimento, o levantaõ com a mefma Batedeira fo*
bre a Tacha ao alto, que pode fer; 6c a iífo chamaõ defafo-
gar, no que os Tacheiros moftraõ deftreza íingular : 6c con-
tinuaõ aílim, mais, ou menos , conforme pedem as três Tem-
peras, que fehaõ de fazer doAífucar , que ha de ir para as
Formas. Das quaes Temperas , por ferem tam neceíFarias, 6c
diíferentes, fera bem fallar no Capitulo feguinte.
íi
Cultura ,
CAPITULO XIL
E>as três Temperas do ^Melado, &* fiíajttfta re-
partição pias Formas.
ANtes de paliar o Melado para as Formas, efiandoain-
da na Tacha de bater, íe ha de ajuftar o cozimento às
Tem peras , que pede a ley de bem repartir. E três faõ ellas ,
èc entre íl differentes ; & cada húa leva cozimento diverfo.
AíTim por diverfos modos, & com repetidas razoes procu-
ramos temperar os ânimos alterados de qualquer paixão ve-
Jhemente,.
Chama-fe a primeira, Tempera de principiar , ou Tem-
pera de Bacia: a qual confta de Mel folto , porque tem me-
nos cozimento / &he o primeiro, que fe tira da Tacha de
bater logo no principio ^& fe bota em húa Bacia fora dofo-
fo apar das Tachas com a Batedeira -, aonde fe mexe com
,fpatula , ou com Reminhól virado com a boca para baixo.
E tendo jà o Banqueira, ou o Ajiidabanqueiro aparelhado
quatro ou cinco Formas no Tendal, dentro de huas covas de
bagaço, com feu buraco fechado, & igualmente altas, às
quaes chamaò Vendaj fe paíTa eíla Tempera com Reminhól
centro de húa Repartideira r & a reparte pelas ditas quatro
ou cinco Formas o Banqueiro , ou o Ajudabanqueiro , ou al-
gum Tacheiro , porém com ordem do Meftre ; botando
igualmente em cada húa delias a fua porçaõ r de forte que fi-
que lugar, para receber as outras duas Temperas, que logo
ie haó de íeguir.
Afegunda chama-fe Tempera de igualar: Ôctemmayor
cozi-
ç> Opulência do^Br a fil.
cozimento •, porque o Mel y que traz, eíteve mais tempo na
Tacha de bater , & ahi mexido , & engroíTaéQfoy mais ba-
tido. E efta também tirada da Tacha , ■&■ pofta y & mexida
com Reminhól na Bacia, paíkparaas ditas quatro Formas
na Repartideira , & com igual porçaõfe reparte por el las*
aonde com Efpa.tuks.fe mexe mais que a primeira.
Segue-fe por ultimo a terceira , que chamaõ Tempera de
encher ; a qual tem já todo o cozimento , & groífura neeeíTa-
ria : & com ella paliada para a Bacia , & mexida ainda mais
com Reminhól , & levada na Repartideira para o-Tendal,
fe enchem as Formas , continuando com a Eípatula a mexer
nellas todas as três Temperas, de forte que perfeitamente fe
encorporem , & de três fe faça hum fo corpo. Eíle benefício
he tam neceíTarioi que fem elte o Aílucar pofto nas ditas For-
mas, naõ fe poderk depois branquear , & purgar. Porque, fe
fe botaíYenas Formasfó a Tempera, que tem cozimento per-
feito j coalharia, & fe condenfaria de tal forte , que naó po-
derk parlar por elle a agua ,. que o ha de lavar, depois de fer
barreado. E fea Tempera foífe totalmente foi ta 4 efcorrerk
todo o AíTucar das Formas na Cafa de purgar , &• fe desfaria
todo em mel. E afllm cóa mifturadas três Téperas le coalha
de tal forte ,. que fica lugar á agua de panar pouco a pouco g
eonfervando-fe o Afincar denfo, 6c forte j. Sc recebe o bene-
ficio de fe branquear, fem o prejuízo âeie. derreter, Íèna6
quanto bafta para perfeitamente fe purgar. E achar efte me~
yo, com acertar bem nas Temperas, he amslhoriuduftria,
& artificio do Meftre rafllm como cita he a mayor di acuida-
de no exercício das virtudes , queeítaó nomeyo de dous ex-
tremos viciofos.
O Melado,q fe dá era pratos, & vafilhas para comer,he o
da primeira, & fegundaTempera. Do daterceira bem batido
na Repartideira fe fazem as Rapaduras , tam defejadasdos
Meninos : 8c vem a fer Melado coalhado fobre. hum quarto
■
I
74 Cultura ,
de papel com todas as .qua.tr© partes levantadas, como fefof-
íem paredes*. dentro. das quaes endurece esfriando-fe , de
comprimento , & largura da palma da mão. E bemaventura-
do o Rapaz, que chega a ter hum par delías,fazendo-fe mais
de boa vontade lambedor deites doces papeis, do queeferi-
vaõnos que lhe daõ para trasladar alfabetos.
Com i.ftofe entenderá donde nace o ter eftadoceDroo-a
tantos nomes diverfos, antes de lograr o mais nobre , &o
mais perfeito de AíTucar: porque conforme o feu princípio,
melhoria , Sc perfeição, & conforme os eítados diverfos , pe-
los quaes, paira, vay também mudando de nomes, E aílim, na
Moenda chama-feçumo da Canna : nos Paroes do Engenho
até entrar na Caldeira do meyo , Caldo : nefta , Caldo fervi-
do ; na Caldeira de Melar , Clarificado : na Bacia , Coado :
nas Tachas, Melado : ultimamente Tempera : 6c nas For-
mas Afliicár i de cujas diverfas qualidades fallaremos , quan-
do chegarmos^ vello poíto nas caixas.
Os Claros, ou ultima efeuma das Meladuras, que, como
temos dito, fervem para a Garappa dos Negros , fe lhes re-
parte alternadamente por efta ordem. No fim de húa Tarefa
fe daõ aos q aífíftem naCafa das Caldeiras,&: nas Fornalhas:
no fim de outra Tarefa fe daõ ás.Efcravas,que trabalhão oa
Cafa da Moenda :&: depois deita fe daõ aos que bufeaõ Ca-
ranguejos, & Marifco, para fe repartirem-, & aos Barqueiros,
que trazem a Canna, & a Lenha ao Engenho] E fempre fe re-
pete a diítribuiçaõ comamefma ordem ; para que todos os
que fentem o pezo do trabalho , cheguem também a ter o feu
pote , que he a medida, com que fe reparte eíte feu defejado
Néctar , &: Ambrofia.
Quando fe manda parar, ou pejar o Engenho aosDomin-
gos , & dias Santos j tira-fe dos fundos das Tachas com hua
Picadeira de ferro o Melado , que ficou nelles grudado ; por-
que com eíte naõ pacteriao esiriar-fe : & alem diíto fe lhes bo-
ta
&- Opulência do^BraJil. 7%
ta agua , para que fe naõ queimem os Cobres \ Sc ferve junta-
mente para os lavar : & aílimfedeixaó as ditas Tachas * até
ent rar nellas o Mel, que fe ha de eozer.
O II
CAPI TV LO L
T)as Formas do Afluem- , ú^/uapaj/á
cTendai para a Caf a de purgar.
SAõas Formai do Aííuearhimsvafos de barro queima-
do na fornalha das telhasa& tem aígúa femeUiança com
os finos , altas três palm os & mey o , & proporcionada-
mente largas > com mayorcirCLimferenciana boca, & mais
apertadas no fim 3 aonde íao furadas ,pará fe lavar , èc purgar
oAfTucarpor eíre buraco. Vendiaõ-fe por quatro vinténs*
falvo fea falta delias 3,èc o defeuidodeas procurar a ieuteni-
po lhes acrecentafle o valor.
O ferem de ruim barro, 6c mal queimadas , he defeito no-
tável -y como também o ferem pequenas. As boas faõ capazes
de dar Pães de três arrobas Sc meya. Tem na Caía das Cal-
deiras feu Tendal , cheyo de bagaço de Canna r que vem da
bagaceira 5 o qual cavado com hum Cavador de ferro, ou de
pao 5 ferve de cama 3 ou cova, para nelle fe aííentarem as For-
mas direitas em duasfileiras iguaes : & como temos ditoaci-
ma i de cada quatro ou cinco Formas coníta húa venda.. An-
tes
wmmtmm
-*-"
76 Cultura,
tes de botar nellas o AíTucar, felhes tapa o buraco, que tem
ao fundo, com feus tacos de folha de bananna , & fe aífegu-
raõcom arcos de Sipó ,. & canna brava, para que coma de-
mafiada quantidade do AíTucar naó arrebentem. Logo fe
lhes bota o AíTucar por Temperas , como já temos dito } o
qual no efpaço de três dias endurece div erfamente , hu mais,
outro menos ; & ao q mais fe endurece 3 & difflcultofamente
fe quebra , chamaõ Aíllicar de cara fechada -y & ao que facil-
meatecom qualquer pancada fe quebra, chamaó AíTucar de
cara quebrada. Metáforas , que também exprimem as díver-
fas naturezas , & condiçoens dos Homens : huns tam vidren-
tos i & outros tam tolerantes. E de fer bom , ou mao o AíTu-
car , depende o fazer as Vendas de mais , ou menos Formas.
Porque para o bom,' que coalha deprefía , baila tomar qua-
tro Formas : & para o que coalha mais de vagar, tomaõ-fe
féis , íete , Sc oito Formas , para que crie com omayor tem-
po , que he neceífario para as encher todas , mais graõ. Dahi
paira às coitas dos Negros, ou fobre paviòlas para a Cafade
purgar , da qual logo {aliaremos.
Faz hum Engenho Real de dous ternos de Tachas, fea
Cauna render bem, cadafemana folteira perto , & pafsantc
de duzentos Paes de Afsucar: mas fenaó render -, apenas dá
cento & vinte.E o render pouco,nace ou de fer a Canna mui-
to velha , ou de fer muito aguacenta : prova bem clara de fe-
rem os extremos , quaefquer que fejaõ , viciofos.
C A.
— •
&• Opulência do^Bra/il.
7+
®'-íí. «<s ? ••> ,v® >> Avorv, aíi^Ji. *i.s>Vm £&.*•>&&$&& ,á£S5%&SS& âK8".«fe sg&|& i£l&& £§£& âKS&Jfe
^Baí^ víjí
CAPITULO II.
Da Cafa de purgar o ç/ljjucar nas bormas*
Caía de purgar hecommumcncntè íeparada doEdí-
fíciQ do Engenho :& a melhor de quantas ha tio Re-
côncavo da Bahia^ hefem duvida a doEngenho de Serigippe
do Conde,fabricada de pedra, 8r eal,emmadeirada com paos
de Maííaranduba, & cubettacom todo oaííeyo de telhas, de
comprimento de quatrocentos ôc quarenta & íeis palmos, ôc
oitenta & féis de largura j dividida em três carreiras de andai-
nas , com vinte & féis pilares de tijolo nameyo , altos quinze
palmos & meyo , .& largos quatro , para íuílentarem o tecto*
que aíFenta ao redor fobre paredes largas, Sc fortes. Recebe
efta Cafa a luz, Sc ar neceífario por cincosnta & duas janellas,
altas oito palmos , & largas féis , vinte & três de cada banda,
três na fachada com fua porta , & três na teftada. Repartem-
feas andainas por quartéis de taboas abertas era redondo ío-
bre pitares de tijolo,altos da terra fete palmos;&: leva cada ta-
boa dez deitas aberturas, para receber outras tantas Formas?,
de forte , que por todas faõ capazes de purgar commodarnê-
te no mefmo tempò-atè a dous mil Paens. Debaixo das ditas,
taboas aíllm abertas ha outras tantas taboas do mefmo com-
primento , cavadas á maneira de regos , & inclinadas na par-
te dianteira, que íervemde bicas, ou correntes, por onde cor-
re o Mel , que cae dos buracos das Formas, em que fe purga
o AíTucar , aos. Faiíques enterrados : ôc h*a no fim húa Forna-
lha, para o cozer,. Sc tornar a fazer delle AíTucar, com feu:
Tendal capaz de quarenta Formas. Ha também na entrada
£ maà efquerda da porta húa caíinha de madeira , para neilat
gua*.
Cultura ,
guardar o Aflucar, que fobejou ao encaixar ; & quantos In-
ftrumentos faõ necefíarios para barrear ,mafcavar, fecar, &
encaixar: & o primeiro efpaço da Caía de purgar,' capaz de
trezentas Caixas,, antes de chegar ás andatnas cias Formas,
ferve da Caixaria mais refguardada, & fegura, côa porta ao
Poente, para que gozando toda a tarde do Sol, defenda cõ o
feu calor ao Aflucar do mayor inimigo,que tem depois de fei-
to, & encaixado , que be a humidade.
Diante da porta da Cafa de purgar levanta- fe fobre féis
pilares hum Alpendre de oitenta &dous palmos de compri-
mento, Ôc vinte & quatro de largo, debaixo do qualeftà o
Balcão de mafcavar : & da outra parte eftá o Cocho para a-
mafla-r o barro , que fe bota nas Formas , para purgar o AíTu-
car : & mais adiante o Balcão para o fecar , comprido oiten-
ta palmos , & largo cincoenta & féis , fuftentado- de vinte &:
cinco pilares de tijolo, mais alto no meyo,, & com baílante
inclinação nos lados , paraefcorrer melhor a agua , que ca-
likdoCeo,&ferdemaisdura. E para iífo ferve* também f»r
feito de pao de ley ,a faber , de Maffarandúba, de Vinhatico,
capaz de feífenta toldos , & de íècar np mefmo tempo outros
tantos Paes de Aííucar.
C A-
&- Opulência doBra/tL r$
C A P I T U L
Vm Péfíoas , <pe fe ocwpdõ em purgar , mafça*
var , fecar9 Qr encaixar o Aguçar : Qf
dos InBmmentos , que fora ifl.o faõ
necefsanos.
AOssée-naõlha Purgador , ( quefempreferia bem teílo)
prefidetambeni na Caía de purgarei Meftre de AfFu-
car, a quem pertence julgar 3 quando fe ha de botar o primei-
ro,-& o legando barro nas Formas , quando fe ha de hume-
decer , & borrifar mais, ou menos , conforme a qualidade do
Aííocar ;■& quando fe ha de tirar o barro ., & o .Afincar das
Formas. Mas, ainda que haja Purgador distinto com ítiafol^
dada 5 fempreferá bem , qtieeftefeaconfelhe com o Meftre»
para obrar com rnayor acerto ; & que tenhaó ambos entre li
toda a boa correfpondencia , para que fiquem melhor.fervi-
dos aílim o Senhor do Engenho5como os La v radares, 'Sc-elles
mais acreditados em feus oôicios.
Preíide ao Balcaõ de mafcavar , & de fecar * &: ao pezo ,
6c ao encaixar do Afincar o Caixeiro : & corre por fua conta
repartir , 'Sc aífentar com toda a verdade , Scifídelidade d que
cabe a cada qual defua parte : pregar 5 & marcaras Caixas^ &:
entrega-las afeus donos.
Trabalhão na Cafade purgar quatro Efcravas, & iaõ as
que entaipaó , 6c hótaõ barro nas Formas do AiTucar , & lhe
daõfuas lavagens.No Balcaõ demafcavar affiífem duas Me-
gras das mais experimentadas5qúe chamaõ Mãys dofialcaoi
Sc com outras'© mafcavaõ3 & - aparta© o kferior do melhor-*
boas
mm
Sd Cultura ,
huns Negros , que trazem , & aventaõ as Formas , & tiraó
delias os Paes de Afsucar 5 & oAmafsador do barro de pur-
gar, que he também outro Negro.
No Balcaô defecar trabalhão as mefm as duas Mays com
as fuás companheiras , que faõ atè dez , eftendendo os Tol-
dos , & quebrando com toletes as lafcas , 6c os torrões gran-
des em outros menores atraz dos quebradores dos Paes. E na
Caixaria ajudaõ ao Caixeiro no pezo , & encaixamento do
Afsucar as Negras, 6c Negros, que faõ necefsarios s como
também no pilar , igualar , pregar , &z marcar.
Os Inílrumentos , de que fe ufa na Cafa de purgar, faõ
Furadores de ferro , para furar os Paes em direitura do bura-
co das Formas ; Cavadores também de ferro, para cavar o
Paõ no meyoda primeira Cara, antes de lhe botar o primei-
ro , 8c fegundo barro •, & Macetes , para o entaipar. No Balr
•caõdemafcavar ufaõ de couros, para aventar fobre ellesas
Formas •, de Facoens , 8c Machadinhos , para mafcavar ■ 8c
de Toletes, para quebrar o Afsucar Mafcavado. No Bal-
cão de fecar faõ necefsarios Facões , Toletes , 8c Rodes , &" o
• Pao quebrador de quatro lados de coita para quebrar c s Paes
de Afsucar. No Pezo, balanças, pezes de duas arrobas, 5c
outros menores ,com o da tara ; Pás , 8c Panacvis. Na Caixa-
ria, Piloens, Rodo, Paodeaísentar, ao qual huns chamaõ
Moleque de afsentar j Sc outros Juiz ; Enxó, Verrumas,
Martellos, 8c Pregos -y Pé de Cabra, para tirar pregos das
Caixas •, ôc o Gaftalho , que ferve para unir as taboas rachaT
das, cu abertas, metendo fuás cunhas entre os lados da taboa,
êc os dentes, ou baraços do Gaftalho, q a abraça por cinia,&
dece pelas ilhargas ; & as Marcas de ferro, com que fe mar-
ca, & declara a qualidade do Afsucar , o numero das arro-
bas, èc o final do Engenho, em que fe fez, 8c encaixou. E de-
fta forte , qualquer Arte fe vai de feus Inílrumentos , para fa-
cilitar o trabalho, & fahir com fuás obras perfeitas -, o q fem
clles naó poderia alcançar, nem efperar.
C A-
C> Opulência do^rúfil.
'
81
C A P I T U L O IV.
Do Barro , que fe bota nas Formas do Afsucar :
qual devefer> & comofe ha de amafsar : &
fe he bem ter no Engenho Olaria.
O Barro , com que fe purga o Aííucar , tira-fe dos Api- -
cus, que, como temos dito, faõ as Coroas , que faz o
Mar entre íi,& a Terra firme, & ascobreaMaré. Vemefte
em Bar cos, Canoas, ou Balças, que faõ duas Canoas juntas
com paos atraveíTados,& fobre ellestaboas, nasquaesfe a-
montoaoBarro. Chegado ao Engenho , poem-fe em lugar
feparado ; & dahi pafla a fecar-tè dentro da Cafa das For-
nalhas fobre hú andar de paos fegurado com efteyos , q cha-
maó Girão, fobre o Cinzeiro, quando tem feu borralho, q he
a cinza mifturada com brazas. E ainda quefe feque em quin-
ze dias ; comtudo ahi fe deixa , tomando a feu tempo a quã-
tidade, que for neceífaria , para barrear as Formas já cheas,
como fe dirá em feu lugar. Seco fe desfaz com Macetes , que
faõ paos para pizar; & dahi fe bota em húa Canoa velha , ou
Cocho grande de pao , & fe vay desfazendo com agua , mo-
vendo-o, 8c amaífando-o com feu Rodo o Negro Amaífa-
dor, quefcoccupaneftetrifte trabalho* pois os outros Ef-
cravos, quecortaõ, & trazem Canna , & os que obraõna
Moenda , nas Caldeiras , nas Tachas , na Cafa de purgar , &:
nos Balcões, fempre tem em quepetifcar: & fó eíle mifera-
vel , & os que metem lenha nas Fornalhas , paííaõ em feco. E
ainda que depois todos tenhaõ fua parte na repartição da Ga-
rappaj com tudofentem muito o trabalho fem efte limitada
F alivio
* I —
-—
ff»
í"",l
■ ;
I
8i Cultura ,
alivio entre dia. Mas naõ faltaõ Parceiros , quefecompade-
Çaõdafuafórre,dando-lhesjáhúaCanna, já hum pouco de
Mel , ou de AíTucar : & quando faltaííe nos outros a compai-
xão j naõ faltaria â elles a induftria 3 para bufcarem feu remé-
dio , tirando donde quer quanto podem.
O final de eftaf berii amâíTado o Barro,he naõ ter já godi-
Ihoens , que faõ huns torróéfinhos ainda naõ desfeitos : & en-
tão eftá em feu ponto, quando botando-lhe hum pedaço de
telha, ou hum caco de Forma, fefuftem nafuperficie, fem ir
ao fundo. Do Cocho fe tira com hua Cuya , & fe bota em ta-
chos de cobre , &■ nelles o levaõ para a Cafade purgar : aon-
de com hum Reminhól de cobre fe tira dos tachos , & íe re-
parte pelas Formas, quando for tempo , do modo que fe dirá
mais abaixo.
Ter 01arianoEngenho,hunsdizem,queefcufamayo-
res gados ; porque fempre no Engenho ha neceílidade de
Formas, tijolo, & telha. Forem outros entendem o contra-
rio: porque a Fornalha da Olaria gafta muita lenha de ar*
mar, & muita de caldear :& a de caldear ha de ferde Man-
gues 5 os quaes tirados , faõ a deftruiçaõ do Marifco , que he
o remédio dos Negros. E alem difto , a Olaria quer ferviço
de féis, ou fete Peças,que melhor fe empregaõ no Cannaveal,
ou no Engenho : quer Oleiro com foldada , Roda , & apare,
lho : & quer Apicús , ou Barreiro , donde fe tire bom Barro :
ôc tudo ifto pede muito gafto : '& com muito menos fecom-
praõ as Formas, & as Telhas , que faõ neceífarias. O melhor
confelho he , meter hum Crioulo em alguma Olaria : porque
efte ganha a ametade do que faz , & em hum ar\r»-"> chega a fa-
zer três mil Formas, das quaes o Senhor fe pôde valer com
pouco difpendio. Tendo porem o Senhor do Engenho mui-
ta gente, lenha , & Mangues para marifcar de fobejo j poderá
também ter Olaria : & fervirá efta Officina para grandeza, u-
tilidade , & commodidade do Engenha
C A-
& Opulência do TSrafiL
CAPITULO
Do modo de purgar o ^Afsucar nas Formas : Qf
de todo o beneficio , que fe lhe fa\na Çafa de ,
Purgar , atè fe tirar.
Ntrando as Formas na Cafa de Purgar , fedeitaõ fobrc
as Andainas , 6c fe lhes tira o taco , que lhes metèraó n®
Tendal : & logo com hum Furador agudo de ferro , de com-
primento de dou.s palmos 6c meyo,fe furaó os Paes á for
pancadas, ufando para iiTo, do Macete > 6c furados , fe leyan
taõ 3 & endireitaó as Formas fobre as taboas , que chamaõ de
furos, entrando por elles quanto baila para fe fufterem fegu-
ras : 6c aíllm fe deixaó por quinze dias fem barro, começando
logo a purgar, 6c pingando pelo buraco que tem , o primei-
ro Mel : o qual recebido debaixo nas bicas , corre ate dar no
íèu Tanque. Eíle Mel he inferior , 6c dá-fe no tempo do In-
verno aos Efcrayos do Engenho , repartindo a cada qual ca-
da femana hum tacho , 6c dous a cada cázalj que he o melhor
mimo, 6c o melhor remédio, que tem. Outros porém o tor-
iiaõ a cozer , ou o vendem paraiífo aos que fazem delle AíTu-
car branco batido , ou eftillaô Agua ardente.
PafTad> i> os quinze dias , dahi por diante fe pode barrear
fegu ramente : o que fe faz deite modo. Cavaõ primeiro as
quatro Efcravas Furgadeiras com Cavadores de ferro no
meyo da Cara da Forma ( que he a parte fuperior) o Aííucar
já feco-, 6c logo otornaõa igualar, 6c entaipar muito bem
com Macetes : botaõ-lhe entaõ o primeiro barro , tirando^
Fz com
,
I
Cultura,
com hum Reminhóí dos Tachos,que vieraô cbeyos delle do
feu Cocho , eftandõjá ámaíTadq em ília conta -y &. com a pal-
ma da maó o eítendem fobre toda aCara da Forma,alto doire
dedos. Ao fegundo , ou terceiro dia , bótaõ em riba do mef-
mo barro meyoReminhól, ou húa Cuya & meya de agua:
& para que naocaya no barro de pancada , & cahindo faça
covas no AíTucar; recebem fobre a maó efquerda, chegada ao
barro , a agua , que bótaõ com a direita igualmente fobre to-
da a fuperrkie : & logo com a palma damaõ direita mexem
levemente ao barro , de forte que com os dedos naõ cheguem
a bulir na Cara do AíTucar. E a eíte beneficio charaaõ hume-
decer , borrifar , ;& dar lavagens, ou também dar hum idades:
&deftas o primeiro barro naõ leva mais quehuaj & eftána
Forma féis dias , donde fe tira jà feco , & eava-fe outra vez o
AíTucar no meyo, como fe fez ao principio, & entaipa-fe j &
com a mefma diligencia fe lhe bota o fegundo barro, o qual
eftána Forma quinze dias, & leva féis, fete , & mais hum i-
diades, conforme a qualidade do AíTucar : porque o que he
forte , quer mais humidades, refiftindo á agua , que ha de
correr por elle purgando-o , às vezes ate nove > & dez humi-
dades. E fe for fraco , logo a recebe ,.& fica em menos tempo
lavado : mas difto naó fe alegra o dono do AíTucar ; porque
antes o quizera mais forte, do que tam de preíTa purgado.
Também no Ver-aõ he neeeíTario repetir as lavagens mais ve-
zes , a faber , de dous em dous , ou de três em três dias , con-
forme o calor do tempo .-advertindo de lhe dar eftas lava-
gens , antes que o barro chegue a abrir- fe em gretas por feco:
No tempo do Inverno tamoem fe deixa o primeiro barro féis
dias : dalguns naõ lhe daõ outra humidade mais que a que
traz comfigoj principalmente fe forem dias de chuva. Porém
tirado o primeiro , & pofto o fegundo , daõ-lhe féis , fete , &:
oitohumidades, de três em três dias , conforme a qualidade
do AíTucar K6c conforme obedecer às ditas lavagens.
Como
—•
&- Opulência do 'Brafil. & 5
Como o AíTucar vay purgando , affím fe vay branquean-
do por feus grãos: a faber, mais na parte fuperior , menos na
do mcyo, pouco na ultima,6c quaíl nada nos pés das Formas,
aos quaes chamaõ Cabuchos : 6cefte menos purgado he o q
lê chama mafcavado. Também como vay purgando , vay
decendo o barro pouco a pouco dentro da Forma : 6c fe pur-
gar bem de vagar , decendo fó mey a maõ , que cham aõ Me-
dida de chave, 6c vem a fer defde a raiz do dedo polegar atè
a ponta do dedo moftrador , a purgação fera boa, 6c de rendi-
mento de mais AíTucar , 6c forte : mas fe purgar apreflada-
mente , renderá pouco.
O purgar-fe mais deprefía, ou mais de vagar 'o Afiucar
nas Formas, nace , parte da qualidade da Cannaboa, ou má;
6c parte do cozimento feito , 6c temperado em feu ponto..
Porque , fe o cozimento for mais do que he jufto, ficará o Af-
fucar empanturrado, 6c nunca fe poderá purgar bém} refiftin-
do às lavagens naõ por forte , mas por demafiadamente cozi-
do : 6c ifto fe conhecerá de naõ purgar , 6c de naó decer o bar-
ro nas Formas. Pelo contrario , íe o AíTucar levar pouco co-
zimento, 6c a Tempera for muito folta, irá pela mayof par»
te desfeito em Mel para as correntes. O fazerem os Paens do
AíTucar olhos, ifto he , terem entre o AíTucar branco veas de
Mafcavado ■> huns dizem, que procede de botar mal ashu-
midades no barro das Formas} 6c outros das Têmperas mais
ou menos quentes , ou deíigualmente botadas.
O Mel , que cae das Formas depois de lhes botarem ban-
ro, torna a cozer-fe,6c a bater- fe nas Tachas, que para iífo
eftaõ deftinadas , com fua Bacia : 6c fel faz delle AíTu-
car, que chamaõ Branco batido > 6c dá também feu Mafcava-
do , que chamaõ Mafcavado batido. Ou fe eftilla delle Agua
ardente : que eu nunca aconfelharia ao Senhor do Engenho ;
para naõ ter húa continua defenquietaçaõ na fanzâla dosN e-
gros í 6c para que os feus Efcravos, 6c Efcravas naõ fejaõ com
*w?
I
86 Cultura >
a Agua ardente mais borrachos do que os faz a Cachaça.
O primeiro barro, quefe poz na Forma alto dons dedos;
quando fe tira jà feco , tem fo altura de hum dedo, que he de-
pois de féis dias: quando fe tira o fegundo, (que fe botou com
a mefma altura de dons dedos ) depois de quinze dias ; tem
fó meyo dedo de altura. Acabando o Aífucar de purgar, pa-
raõ também as lavagens : & três , ou quatro dias depois da ul-
tima , tira-fe o fegundo barrojá feco } & depois do barro fora»
•daó-lhemais oitodias, para acabar de enxugar , ôtefcorrer:
& então fe pode tirar. Ne carece de admiração, o ferobairo,
q de fua natureza he immundo , inílrumento de purgar o Aí-
fucar com fuás lavagens : aíHm como com a lembrança do
noífo barro, & com as lagrimas íepurifica6,6c branqueaõ as
Almas , que antes eraõ immundas.
«#^<â|M§M
&&&&£ Safe >)í-iíNV3'ífe^í(^líá'"' Safe ^sa>2ií4 «tf SafeA**1©*» .««&•;
CAPITULO VI.
Do modo de tirar , mafcavar , (^Jecar o Af~
fucar.
JK
CHegado o tempo de tirar o AíTucar das Formas , fe paf-
faráó em hum dia muito claro tantas , quantas pode re-
ceber o Balcaõ de fecar:& palTaõ ás coitas dos Negros, ou em
Paviôlas , daCafa de purgar para o Balcaõ de mafcavar. E
quanto ao fer o dia muito claro , he ponto de grande adver-
tência : porque fe o AíTucar fe humedecer -y ainda que o tor-
nem por ao Sol , nunca mais torna a fer perfeito , como era :
<afIitti'tomo o que ficou de hum anno para outro , perde de
tal forte o vigor , & alvura , que nunca mais a torna a cobrar :
propriedade também da Pureza , que húa vez oflendida, nu-
ca tor-
&• Opulência do^ra/íí. 87
ca torna a fer o que foy. Preíide a todo efte beneficio o Cai-
xeiro j & corre por fua conta o que agora direy. Ao pé do
Balcão , que chamaõ de mafçavar , fe aventaó as Fornias fo-
bre hum couro v que vem a fer, bulir nellas de vagar com as
bocas viradas para o dito couro, para que fayaõ bem os Paes:
os quaes poftos fucceííi vãmente por hum Negro fohre hum
toldo , que eftà eftendido nefte Balcaõ s por maõ de húa Ne-
gra (à qual chamaò Máy do Balcaõ) fe lhes tira com hum fa-
cão todo aquelle AíTucar mal purgado, & de cor parda, que
tem na parte inferior : & ifto fe diz mafçavar , & ao tal Afin-
car chamaõ depois Mafcavado. E entre tanto outra fuaCom-
panheira , que he das mais praticas , tira com htmi macha-
dinho do mefm o Mafcavado o mais húmido, que chamaõ
Pé da Forma , ou -Cabucho -, & efte torna para a Caía de pur-
gar-em outras Formas ,até acabar de fe enxugar; & logo ou-
tras Negras quebraõ com toletes os torroens do Mafcavado
íbbre hum Toldo , que também ha de ir ao Balcaõ de fecar.
A perfeição dos Paens confifte em terem pouco Mafca-
vado , & darem duas arrobas 8c meya de AíTucar branco j que
conforme a medida das Formas da Bahia, he muito bom ren-
dimento;-Se quizerem fazer Caras de AíTucar para mimos 4
o Caixeiro cortará aqui mefmo cõ hum facaõ a primeira par-
te do Paõ •, de forte que endireitada , ' & aplainada tenha hííai
arroba de pezo : ,& eítas depois de eítarem ao Sol, empalhao-
fe , ou encouraõ-fe, & vaõ para o Reyno. Também , fe qui zer
fazer Laicas ; cortara ao Paõ ( depois de fe lhe tirar o Mafca-
vado) em féis , ou oito partes , & as endireitará todas de qua-
tro cantos era quadra ; para irem tam viftofas , como doces.
E querendo fazer Fechos , ou Caixas de encommenda; efco-
lherà da parte do AíTucar, que couber a quem as manda fa-
zer, ornais fino, que he o das Caras das Formas, ate doze ar-
robas por Fecho j & trinta atè trinta Ôc cinco por Caixa. E de*
que temosdito atè agora fe entenderá bem q que querem d}~
->•;' F4 zer
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■ I1
88 Cultura ,
zereítes nomes , que íignificaõ varias repartiçoens de Apli-
car; a faber, Caixa, Fecho, Paõ, Cara, Laica, Torrão,
& migalhas : guardando para outro Capitulo o dar noticia
de varias qualidades , & dirrerenças de Aílucan
P^íTando pois do Balcão de mafcavar para o Balcaõde
fecar:levão-feem primeiro lugar para elle tantos Toldos,
quantos faó neceííarios para oAíTucar , que naquelle dia fe
ha de fecar. Efe for de diverfos donos , fe conhecera a repar-
tição, que cabe a cada qual, pelos Toldos .continuados na
mefma fileira, fe pertencerem ao mefmo;. ou defcontinuados,
fe forem de diverfos Senhores ; & o que fe diz doAílucar
Branco, fe ha de dizer também doMafcavado , repartido
pelo mefmo eftylo nas fuás próprias fileiras, Iíto feito , levao
os Paens para os Toldos , & com hum pao grande ,.& redon-
do no cabo , em que fe pega, .8c no remate de feitio c lia to, co-
mo húa lança fem ponta , ( ao qual chamaõ Quebrador , ou
Moleque de quebrar) quebraõ em quatro partes aos.Paens,.
& cada húa deitas era outras quatro : & logo outros com fa-
coens dividem as mefm as em torroens ; & eftes fucceíTiva-
mente fe tornaõ a partir com toletes , em outros torroens me-
noresrôc finalmente depois de eítarem jà por algum tempo
aoSot, aeabaõ-fede quebrarem torroêfinhos pequenos* E
guarda-fe de propofito efta ordem em quebrar ao Aífucarj
para que tendo dentro algua humidade,quebrado pouco a
pouco fe enteze , & naõ fe faça logo cm migalhas , ou em pó.
Eftandoaílimeftendido, pegaõ nas pontas dos Toldos, &c
levantando-as fazem em cada Toldo hum montàõ; & entre-
tanto aquentaó-fe as Taboas, 8c os Toldos : & logo tornacV
a abrir aquelles montes com. Rodos i & deita forte as partes ,
que eraó interiores , ficaõ expoítas ao Sol } & as outras eíten-
didas fçbre as pontas dos Toldos ,.. fentemocalor, queelles,
& as Taboas ganharão. Efpalhado torm?fe a mexer com Ro-
dos^de Canibaâ,. como elles dizem : a faber 3 hum de húa
baa~
&• Opukncia dó "Brafil. g£
banda , & outro cie outra , empurrando cada hum da fm par-
te o Aííiicarr & puxando por elle por modo oppoílo ao que*
faz no mefmo Toldo o Negro fronteiro ; atè acabar de fecar.
E fe de repente ap parecer alguma nuvem , que ameace dar
chuva , logo acode toda a Gente ,' ainda. ( fe for neceíTario )
a que trabalha na Moenda ^ pejando o Engenho > até fe reco-
lher nos mefmosToldos o AíTucar dentro da Caía de encai-
xar , ou em outra parte cuberta : & daqui torna outra vez pa-
ra o Balcaõ em outro dia claro , eítando as Taboas enxutas..
Que feo tempo der lugar de enxugar perfeitamente o AíTu-
car no mefmo dia no Balcaõ > paíTará logo ( do modo , que
agora direy ) ao Pezo , & fe encaixará com ftia regra.
tó^Ç^^MIÍ^iií
Í^#l#f||M|^#I|tli^#f|
CAPITULO VIL
Dê Pezo , Repartição , &* Emaixament®
do Afmçar,
DO Balcaõ de fecar vay o AíTucar em Toldo* ao Pezo>;
eftando prefente o Caixeiro, q tudo aíTentacom fide-
' lidade, Sc verdade; para qfe dé juftamente acada hum o q he
feu*E para iíTo haBalanças grandes,& pezos de duas arrobas,
&: outros menores de livras , com opezo também da tara do
Panacú, em que vay o AíTucar ao Pezo: ufarrdo de Pá peque-
na , para tirar o que fobeja , ou ajuntar O: que falta. E aííim co-
mo as duas Mãys, do Balcaõ ajudaõ ao pezo, para dar lugar
ao Caixeiro „ que eftá aflentando o que peza * aíEm dous
Negros levaõ o Afllicar pezado para as Caixas ,, enxtw
tas, & bem aparelhadas, a faber, barreadas pordentronas
untas com barro x & folhas fecas de bananeira Cobre o barro;
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$0 v ^Cultura,
pondo igualmente tanto AíTucar na Caixa do Senhor do En-
genho, quanto na Caixa do Lavrador , cuja Canna fe moeo
no meímo Engenho , fendo Lavrador de fuás próprias Ter-
ras, & naõ das do Engenho : porque fe as Terras forem do
Engenho, paga também o Lavrador vintena, ou quinto , que
vem a fer , alem da ametade , de cada cinco Paens hum , ou
hum de cada vinte j conforme o úfo das Terras: porque em
Pernambuco paga quinto, & na Bahia vintena, ouquinde-
na, que vem a fer de quinze hum , conforme o que fe ajuítou
nos arrendamentos , porferem as Terras já de rendimento,
ou por neçeílitarem de menos limpas. E aííim como íe péza,
&r reparte igualmente o Branco j aííim fepéza , & reparte
do mefmo modo o Mafcavado entre o Senhor do Engenho ,
&* o Lavrador , que moe , como temos dito , de meyas : & íb
íicaó os Meles por em cheyo ao Senhor do Engenho, por ra-
zão dos muitos gaftos , que faz. Tira-íe também o Dizimo ,
que fe deve a Deos , que vem a fer de dez hum : & efte fica no
Engenho , & poerri-fe nas Caixas ,. que anticipadafçente
manda o Contratador dos Dizimos ao Caixeiro vazias , &
delle as torna a cobrar cheas.
O AíTucar, q fe bota nas Caixas , ao principio fomente fe
iguala com Rodo,§r Pilões* &: naó fe pila, paraq fe naõ que-
brem as Caixas. Porém depois de botar nellasdous , ou três
pezos,q vem a fer quatro, ou féis arrobas,.entaó fe pila oó oito
ou dez Piloens , quatro ou cinco de cada banda , para que af-
íênte unido igualmente. E ainda que a derradeira porção do
AíTucar, q fc chama Cara daCaixa, he bem q feja do mais c{-
colhido* com tudo feria grande defcred ito do Engenho , en-
gano, & manifefta injuftiça , fe no nieyo fe botaflem Bati-
dos , ôc na Cara AíTucar mais fino , para encubrir com o bom
o ruim, & fazer também ao AíTucar hypocrita.
Acabado de enchera Caixa, iguala-fe com Rodo, Sz com
hum Paochato^c groflb > que huns cliamaó-lhe.Moleque de
allèn-
e> Opuknciâ do TBrafil. 91
áfteiítar \ outros juiz : & logo íe prega , ufando de Verruma,
Pregos , èz Martello , & doGaílalho , ou Gato , para apertar
alguma taboa rachada, do modo que acima eftá dito. Leva
húa Caixa oitenta Sz íeis pregos : &: ultimamente fe marca do
modo que diremos , conforme a difFerença do Aííucar , que
agora fe ha de explicar.
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* %cJg«f W&jifâ. %-Í8é's* T«ii^
CAPITULO VIII.
..... .. ■ • ; - . i [
De -varias c aftas de Aguçar, que feparaddmente fe
encaixao : Marcas das Caixas , Qffuacon-
dmçaQ ao Trapiche*
ANtes de marcar asCaixas, he neceííario fallarde varias
caílas de Aílucar , que feparaclaiiiente fe encaixaõj
porque também nefta Droga ha fua nobreza 3 ha caíta vil , ha
miftura. Ha primeiramefite AímcarBranco, .& Mafc.ava.do.*
o Branco toma efte nome da cor , que tem 3 -& muito fe lou-
va j & eftima no AfTucar , mais admirável , por quanto fe lhe
t communica do barro. O Mafcavado de cor parda he o que fe
tira do fundo das Formas , a que chamaõ Fés, ou Cabuchos*
Do Branco ha ti no 3 ha redondo, 6c ha baixo .• & todos eftes
faõ Afincares machos. O fino he mais alvo , mais fechado y&c
de mayor pezo : & tal he ordinariamente a primeira parte , q
■chamaõCara daForma. O redõdo he algú tanto menos ai vo>
&: menos fechado: & tal he comummente o da fegunda parte
da Forma :&: digo commummentejporq naõ heefta revira
infallivel, podendo acontecer , que a Cara de algumas fíeV
mas feja menos alva , & menos fechada 3 que a fegunda parte
de outra Forma. O baixo he ainda menos alvo /& quafi -tr i-
gueiro
*7-
■"■—^■B
I
9* Cultura,
gueiro na cor : & ainda que feja bem fechado , & forte -, com-
tudo , por ter menos alvura, chama-fe baixo , ou inferior.
Alem deitas três caftas de Branco, ha outro, que cha-
maõ Branco Batido , feito do Mel , que efcorreo das For-
mas do Macho na Caía de purgar , cozido, & batido outra
vez : & fae ás vezes tam alvo , èz forte , como o Macho. E af-
fim como ha Mafcavado Macho , que he o pé das Formas do
Branco Machoj aílim ha Mafcavado Batido, que he o pé das
Formas do Branco Batido. O que pinga das Formas do Ma-
cho , quando fe purga, chama-fe Mel: & o que efcorre do Ba-
tido Branco, chama-fe Remei. Do Mel huns fazem Agua
ardente ,eftillando-o: outros o tornaõ-a-cozer, para fazerem
Batidos ; & outros o vendem a panellas aos que o eílillaó , ou
cozem ': & o mefmo digo do Remei.
. Vifta a diverfidade dos Afincares, feguefe fallar dasMar-
cas, que fehaó de pôr com a mefma diftinçaõ nas Caixas.
Marcaó-fe as Caixas com ferro ardente, ou com trinta: êc
três faõ as Marcas , que ha de levar cada Caixa : a faber , a
das arrobas, a do Engenho, & a do Senhor, ou Mercador,
por cuja conta feembarca. A Marca de fogo do numero das
arrobas fepoem em cima na cabeça da Caixa, junto ao tam-
po, começando do canto da banda direita , de tal forte , que
abarque juntamente a cabeça da Caixa , & o tampo. E ifto fe
faz , para que , fe depois fe abriífe a Caixa , fe conheça mais '
facilmente pelas partes da Marca , que eítaó na cabeça , &c
naó correfpond em ás outras partes , que eítaõ na borda do
tampo.
A Marca do Engenho , também de fogo, fe põem na mef-
ma telta da Caixa, junto ao fundo, no canto da banda direi-
ta > para que fepoífaó averiguar as faltas, que poderiaò ha-
ver no encaixamentodo Aílucar. Porque-aílim como ás ve-
zes nas pipas de breo , que vem de Portugal, fe achaõ pedras
breadas j & nas peças de panno de linho fino por fora, no
meyo
ç> Opulência do TZrafiL p $
meyo fe acha pannòde eítopa , ou menor numera de varas ,
que as que fe apontaõ na face da peça raíllm fe poderiaõ mã-
dar nas Caixas de Aílucar menos arrobas das que fe apontaõ
na Marca •, &: no meyo da Caixa AITucar Maícavado por
Branco j como tem já acontecido , por culpa de algum Cai-
xeiro infiel.
AMarca do Senhor do AíTucar, ou do Mercador ', por
cuja conta fe embarca, fe for de fogo, fe põem no meyo da
dita teíta da Caixa j & fenaõforde fogo, põem -feno mef-
mo lugar com tinta o feu nome: o qual fe poderá tirarcom-
hua enxó, quando íe vende ííe a Caixa a. Outro Mercador a
pondo na dita parte o nome de quem a comprou.
Leva a Marca do Branco Macho hum fó B. o Branco
Batido dous BB. O Mafcavado Macho hum M. o Mafcava-
do Batido hum M, 6c hum B. A Marca verbi gratia do En^
gentio de Serigippe do Conde leva hum S, da Pitanga hum
í. E a Marca verbi gratia do Collegio da Companhia de
Jefu , leva hiiaCrirz dentro de hum circulo deita figura. (í)
Njs Engenhos àbeira-mar, levaõ-fe as Caixas ao Porto
defta forte. Com Rolos , &r Efpeques paííacj bua atrarde ou-
tra da Cafada Caixaria para húa Carreta, feita para iíTome&
mo mais baixa-; &: fobre eftafe leva cadá*íCaixa atè o Porto,
puxando pelas cordas os Negros de quem a mãda embarcar
por fua conta*.
Dos Engenhos pela Terra dentro, vem cada Caixa fobrò
hum Carro com três ou quatro juntas deBoys, conformeas
lamas , que haõ de vencer: & nilío cufta caro o defcuido^ por-
que por naó as trazerem no tempo do Veraõ , depois no In-
verno eííazaõ-fe,8rmatão-fé os Boys.
Do Porto paíTa fobre taboas groíías a pique para o Bar-
co: &r ao entrar , haõ de ter maÕ nella com focairo , para que
naõcaya de pancada ■,& padeça algum detrimento. No Bar-
co fe haõ de arrumar as Caixas muito bem , para que vaõ fè~
guras»
. — ■■
II ■■'«
P4 • Cultura ,
giiras ; nem fe metaõ mais , antes menos das que. o Barco po-
de receber, & levar :6c feja forte, & bem velejado, 6c com
Arraes pra&ico das coroas , & pedras, 6c com Marinheiros
naó atordoados da Agua ardente ; fahindo com bom tempo,
6c maré.
Do Engenho até o Trapiche, ou até a Nao, em que fe
embarca , paga cada Caixa, que vem por mar , húa pataca de
frete. Ao entrar, 6c fahir do Trapiche , meya pataca. No
pnm eiró mez , quer começado fó , quer acabado, aind a que
-naó fonem mais que dous dias, paga dous vinténs : nos ou-
tros mezesfeguintes, hum vintém cada mez. E fe oTrapi-
cheiro, ou o Caixeiro do Trapiche vender por corcmiílaó
do dono algum AíTucar, ganha húa pataca por cada Caixa.
E com ífto temos levado o AíTucar do Cannaveal , aon-
.denace, até os Portos do Brafil, donde navega paraPortur
gal, para fe repartir por muitas Cidades da Europa. Faíta
agora dizer alguma coufa dos preços antigos , 6c modernos
dèile i 6c das caufas , porque faó hoje tam exceilivos.
■1
i
CAPITULO IX.
Dos Preços antigos , (ff modernos do ^djjucar.
DE vinte annos aefta parte mudáraõ-fe muito os pre-
ços aílim do AíTucar Branco , como do Mafcavado,
.^ Batido. Porque o Branco Macho, que fe vendia por oito,
nove , 6c dez toftoens a arroba -y fubio depois a doze, quinze,
6c dezafeis , 6c ultimamente a dezoito , vinte , vinte 6c dous,
.&" vinte 6c quatro toftoens * 6c depois tornou a dezafeis. Os
Brancos Batidos , que fe largavaõ por fete , 6c oito toftoens,
fubíraóadoze, 6caquatorze. O Mafcavado Macho, que
. valia
& Opulência do UrafiL p$
valia cinco toftoens , vendeo-fe por dez , & onze , &: ainda
mais. E o Mafcavado Batido , cujo preço era hum cruzado /
chegou a féis toftoens.
A necefíidade obriga a vender barato, & a queimar Çco*
mo dizem ) o Aflitcar fino ,. que tanto cufta aos fervos , aos
Senhores de Engenho , 8^ aos Lavradores dà Çannaí , ttába-
lhando, 6c gaitando dinheiro. Também a falta de Navios ,
he caufa defenaó darporelle o que vai. Masotercrecido
tanto neftes annos o preço do cobre , ferro, & panno, & do
mais, de que neceflkaõ os Engenhos; & particularmente o
-valor dos Efcravos, que os naõ querem largar por menos de
cem mil reis , valendo antes quarenta , .& cincoenta mil reis
os melhores ; he a principal caufa de haver fubido tanto ò Af-
fucar , depois de haver moeda Provincial , Sc Nacional , &
depois de defcubertas as Minas de Ouro, que fervíraõpara
enriquecer a poucos , & para deftruir amuitos : fendo as me?
IhoresMinasdoBraíilos Cannaveaes, & as Malhadas , em
que fe planta o Tabaco.
Se fe attentar para o valor intrinfeco , q o AíTucar merece
ter pela fua mefma bondadej naõ ha outra Droga , que o igua-
le. E fe tanto fabe a todos a fua doçura % quando o comem;
naõ ha razaó, para que fe lhe naõ dè tal: valor e^triníèco,.
, quando fe compra , & vende, aflim pelos Senhores de En-
genho, & pelos Mercadores, como pelo Magiftrado > aqu#
pertence ajuftallo,- que pofla dar por tanta defpeza algum
ganho digno defereftimado. Portanto , fefe reduz irem os
preços das coufas que vem do Reyno ;y & dos Efcravos , que
vem de Angola , & Cofta de Guiné , a húa moderação com-
petente ; poderáõ também tornar os AiTucâres ao preço mo-
derado de dez , & doze toftoens : parecendo a todos ímpof^
íivel o poderem continuar de húa , &. outra parte tam dema-
íiados exceíTos,femfe perder o BmfiLj ,
-
C â-
■M
ps
Cubara ,
■ .
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C A P I T U L O X,
Do numero das Caixas de ^éffucar , que fe fatiem
cada armo ordinariamente no BraJiL
!t» 'r! >
GOntaõ-fe no Território da Bahia ao prefente cento &
quarenta & féis Engenhos de AíTucar moentes 3 Sc cor-
rentes j alem dos que fe vaó fabricando, huns no Recônca-
vo á beira-mar , 6c outros pela Terra dentro , que hoje fa© de
mayor rendimento. Os de Pernambuco , pofto que menores,
chegaó a duzentos Sc quarenta &c féis : 6c os do Rio de Janei-
ro a cento 6c trinta 6c féis.
Fazem-fe hum anno por outro nos Engenhos da Bahia
quatòrze mil 6c quinhétas Caixas de AíTucar. Deitas vaó pa-
ra o Reyno quatòrze mii: a faber.oito mil de Branco Macho,
três mil de Mafcavado Macho , mil 6c oitocentas de Branco
Batido , mil 6c duzentas de Mafcavado Batido : 6c quinhen-
tas de varias caílas fe gaftaõ na Terra.
As que fe fazem nosEngenhos de Pernambuco hum anno
por outro,faó doze mil 6c trezentas. Vaó doze mil 6c cem pa-
ra o Reyno : a faber , fete mil de Branco Macho , duas mil £c
feiscentas de Mafcavado Macho , mil 6c quatrocentas de
Branco Batido , mil .& cem de Mafcavado Batido: 6c gaítaó-
íe na Terra duzentas de varias caftas.
No Rio de Janeiro fazem-fe hum anno por outro dez
mil duzentas 6c'vinte, As dez mil 6c cem vaó para o Reyno:
a faber 5 cinco mil 6c feiscentas de Branco Macho, duas mil
& quinhentas de Mafcavado Macho , mil 6c duzentas de
BrancoBatido, oitocentas de Mafcavado Batido :^& ficaó
na
C> Opulência do 'Brafil. 97
na Terra cento 6c vinte de varias caftas , para o gafto delia.
E juntas todas eftasCaixas de AíTucar, que fe fazem hum
anno por outro no Braíil , vem a fer trinta 6c fete mil 6c vinte
Caixas. ,
CAPITULO XI.
Que cufla bua Caixa de Ajjucar de trinta > Qf cin-
co arrobas , fojla na Alfandega de Lisboa ,
&JÀ defpackada: &* do valor de todo
o iM$nç0 , que cada anno fe fa^
no Brafil.
D O Rol, quefefegue, conftará primeiramente cont
exa&a diftinçaõ o cufto , que faz húa Caixa de AíTu-
car Branco Macho de trinta & cinco arrobas, defde que fe le-
vanta em qualquer Engenho da Bahia j até fe pòr na Alfan-
dega de Lisboa, & pela porta dei la fora : 6clogooquecuíta
húa de Mafcavado Macho, húa de Branco Batido , 6c húa de
Mafcavado Batido. Em fegundo lugar o Refumo do valor
de todo o Afincar , que cada anno fe faz nas fafras da Bahia s
Pernambuco > & Rio de Janeiro.
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Cultura ,
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Idí)'".
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i; i1 !
Quilos de bua Caixa de ^fiucar Brama Macho de
trinta & cinco arrobas»
Elo Caixaõ no Engenho ao menos
Por fe levantar o dito Caixaõ
Por 86 pregos para o dito Caixaõ
Por 3 5 arrobas de AíTucar a i U6oa
Por carreto á beira-mar
Por carreto do Porto do Mar atè o Trapiche
PorGuindafte no Trapiche
Por entrada no mefmo Trapiche
Por aluguer do mez no dito Trapiche
Por fe botar fora do Trapiche
Por Direitos do fubfidio dáTerra
Por Direito para o Forte do Mar
Por Frete do Navio a 20U
Por defcarga em Lisboa para a Alfandega
Por Guindafte na Ponte da Alfandega
Por fe recolher da Ponte para o Almazem
Por fe guardar na Alfandega
Por Cafcavel de arquear por cada arco
Por Obras, TaraSj & Marcas
Por Avaliação > & Direitos grandes , a 800 reis
a?opor 100
Por Confuladoa 3. por 100
Por Comboy a 140 reis por arroba
Por Mayoria
O que tudo importa
&
1U200
U050
U320
56U000
2U000
U320
U080
U080
U020
U160
U300
LJ080
11U520
U200
U040
U060
U050
U080
U060
5U600
U840
4U900
U600
84U560
Cufíes
ç> Opulência do *Bra/il.
99
Cuftos de hua Caixa de Ajfucar Mafcavado Macho de trinta
& cinco arrobas.
Por 35 arrobas do dito AíTucar a 1U000 reis 35 Uooo
Por Avaliaçao5&:Direitos3a45oreis3&a20.por 100 3U150
Por Confulado a 3 por 100 U472
Por todos os rriais gaftos 22U120
O que tudo importa 6017742.
Gz/ftw ^ h»a Caixa de Aflucar Branco Batido de trinta
& cinco arrobai.
Por 3 5 arrobas do dito AíTucar a 1U200 reis 42U00.0
Por Avaliação, 8c Direitos,a 600 reis,ôe a 20 por ioo 4U72Ó
Por Confulado a 3. por too. U648 .
Por todos os mais gaftos azUiao
O qiie tudo importa ^69 U488
Cu fios de hua Caixa de Ajfucar Mafcavado Batido de trin-
ta & cinco arrobas.
Por 35 . arrobas do dito AíTucar a 640 reis 22U400
PorAva1iaçaõ,&Direitos,a30oreis,&:a20por 100 2U100
Por Confulado a 3 por 100 U315
Por todos os mais -gados 22U120
O que tudo importa _ 4611935*
**&&<>%*'
Gz
Caixas
100
Cultura ,
Caixas de Affucar, que ordinariamente fe\tirdo cada anno àa
Bahia : & o que importa o valor delias *z 3 5 . arrobas.
Por 8000 Caixas de Branco Macho a 84.U5 60-
Por 3000 Caixas deMafcav. Macho a 60U742-
Por 1800 Caixas de Branco Batido a 69U488-
Por 1 200 Caixas deMafcav. Batido 346U935-
Por _foo Caixas, q fe gaft. naTerra^a 60U200-
Saô m soa Caixas :& importaó-
67648011000
182226U000
125078U400
5 63 2 2 U 000
301 00U000
10702Õ6U4Õ0
Caixas de Ajjucar, que ordinariamente fe tirão cada anno de
Pernambuco: & o que importa o valor delias a]$ 5 .arrobas.
Por 7000 Caixas de Branco Macho a 78U420- 548940 Uooo
Por 2600 Caixas deMafcav. Macho a 54U500- 141700U000
Por 1400 Caixas de Branco Batido a 63 U 200- 8 8480U000
Por 1 100 Caixas deMafcav. Batido a 39U800- 43780U000
Por 200 Caixas3q fe gaft.naTerra,, a 5 6U200- 1 1 240 Uooo
Saõ J^l£2 Caixas : 6c importaó- ^83414011000
Caixas de Ajfucar , que ordinariamente fe tirão cada anno do
Rio de Janeiro: & o que 'impor 'ta o valor delias a 35. arrobas.
Por 5 600 Caixas de Branco Macho a 72U340- 405 104U000
Por 2500 Caixas de Maícav. Machoa48U22o 120550U000
Por 1200 Caixas de Branco Batido 3591X640- 7 1568 Uooo
Por 800 Caixas de Mafcav. Batido a 34U 1 20- 27296U000
Por ixo^Caix. para o gaíí.da Terra 352^20- Ò278U400
Saô 101 *a Caixas : &c im portão ^6307961X400
Refumc
ç> Opulência do^Brajil. mn
Refurno do que importa todo o Affucâf*
O da Bahia, mil Sc fetenta contos,
duzentos Si íeis mil ôc qua-
trocentos reis—
O de Pernambuco, oitocentos &
trinta & quatro cotos, cen-
to & quarenta mil> reis—
O do Rio de J aneiro , feiscentos Sc
trinta contos,fetecentos Sc
noventa & íeis mil & qua-
trocentos reis--
Somma todo dous mil quinhentos
& trinta Sc cinco contos ,
cento Sc quarenta Sc dous
mil Sc oitocentos reis.
1070206U400
834140U000
_ 630796U400
25-35142,^800
1 «A
■i
%o%
Cultura ,
CAPITULO XII.
Do que -padece o Ajfucar de/de o feu nacimento na
Canna atèfahir do Brafil.
H
ME reparo fingular dos que contem plaó as coufas natu-
raes, ver que as que faõ de mayor proveito ao género
10, naõ fe reduzem á fua perfeição fem paíTarem pri-
meiro por notáveis apertos : & ifto fevè bem na Europa no
Pannode Linho, noPaõ, no Azeite, 6c no Vinho, frutos da
Terra tam neceííarios , enterrados , arraftados , pizados , ef-
premidos 3 & moídos antes de chegarem a fer perfeitamente
o que faõ. E nós muito mais o vemos na fabrica do AíTucar,
oqualdefde o primeiro inftante de fe plantar, atè chegar ás
mefas , & paliar entre os dentes a fepultar-fc no eítomago dos
que o comem, levahúa vida chea de taes , & tantos marty-
rios, que os que inventarão os Tyrannos, lhes naõ ganhão
ventagem. Porque fe a Terra , obedecendo ao império do
Creador,deo liberalmente a Canna, para regalar com a fua
doçura aos paladares dos homésjeíles, defejofos de multipli-
car em fi deleites,& goftos,inventáraõ contra a mefma Cana,
com feus artifícios, mais de cem inftrumentos, para lhe mul-
tiplicarem tormentos , & penas.
Por iíTo primeiramente fazem em pedaços as que plan-
tão, & as fepultaó aílim cortadas na Terra. Más ellas tornan-
do logo quaíi milagrofamente a refufeitar , que naõ padecem
dos
&- Opulência do ISrafiL % 03
dos que as vem fahir com novo alento,& vigor ? já abocanha-
das de vários Animaes; já pizadas das Beftas;jà derrubadas
do Vento ; & alfim defcabeçadas , & cortadas com fouces.
Saem do Cannaveal amarradas : & oh quantas vezes antes de
fahirem dahi , faó vendidas í Levaõ-fe affim prezas , ou nos
Carros , ou nos Barcos àvifta das outras , filhas da meíma
Terra, como os Reos , que vaò algemados para a Cadea , ou
para o lugar do fupplicio ; padecendo em íi confufaõ, & dan-
do a mu itos terror, Chegadas à Moenda , com que força , Sc
aperto, poílas entre os Eyxos,faõ obrigadas a dar quanto tem
de fuílancia ? Com que defprezo fe lançaõ feus corpos efma-
gados , & defpedaçados ao Mar ? Co que impiedade fe quei-
maõ fem compaixão no bagaço ? Arrafta-fe pelas bicas quan-
to humor fahiodefuasveas, & quanta fuílancia tinhaó nos
oíTos : tratea-fe , 8c fufpende-fe na Guinda : vay a ferver nas
Caldeiras, borrifado Ç para mayor pena) dos Negros com
JDecoada: feito quaíl lama no Cocho , paíía a fartar as Beílas,
& aos Porcos: fae do Parol efcumando, & fe lhe imputa a be-
bedice dos Borrachos . Quantas vezes o vaõ virando , êc agi-
tando com Efcumadeiras medonhas? Quantas^ depois de
paíTado por Coadores, o batem com Batedeiras, experimen-
tando elle de Tacha em Tacha o fogo mais vehemente -, às
vezes quafi queimado* %c às vezes defaffogueado algum tan-
to, fópara que chegue a padecer mais tormentos ? Crecem
as bateduras nas Temperas : multiplica-fe a agitação com as
Efpatulas : deixa-fe esfriar como morto nas Formas : leva- fé
para a Caía de Purgar , fem terem contra elle hum mínimo
indicio de crime ; èc nella chora furado , Sc ferido a fua tam
malograda doçura. Aqui , daõ-lhe com barro na Cara : & pa-
ra mayor ludibrio, até asEfcravas lhe botaò fobre o barro
fujo as lavagens. Correm fuás lagrimas portantos rios, quan-
tas faõ as bicas, que as recebem : &" tantas faõ el Ias, que ba-
G 4 ftaõ
■■ II
■i
104 Cultura ,
ítaõ para encher Tanques profundos. Oh crueldade nunca
ouvida ! As mefmas lagrimas do innocente fe põem a ferver,
& a bater de novo nas Tachas : as mefmas lagrimas fe eítil-
Jaõà força de fogo em lambique : & quando mais chora fna
forte, entaõtornaó a darlhenaCara com barro, & tornaõ
as Efcravas a lança rlhe em rofto as lavagens. Sae deíía forte
do Purgatório , & do Cárcere, tam alvo, como innocente j &
íbbre hum baixo Balcaõ fe entrega a outras Mulheres , para
que lhe cortem os pés com facoens : & eílas naõ contentes de
lhos cortarem , em companhia de outras Efcravas, armadas
detoletes, folgaó de lhe fazer osmeímospés em migalhas.
Dahi paflà ao ultimo Theatro dos íeus tormentos, que he ou-
tro Balcaó mayor, & mais alto -> aonde expofto a quem o qui-
zer maltratar, experimenta o que pôde o furor de toda a gen-
te fentida j & enfadada do muito que trabalhou andando
atrazdelle : & por iíío partido com quebradcres, cortado
com facoens, defpedaçadoçom toletes, arraftado com ro-
dos , pizado dos pés dos Negros fem compaixão , farta a
crueldade de tantos Algozes , quantos faõ os que querem fu-
bir ao Balcaõ. Examina-fe por remate na balança do mayor
rigor o que péza , depois de feito em migalhas : mas os íeus
tormentos graviffimos, aílim como naõ tem conta, aflim naó
haquempoíTabaftantemente ponderallos, ou defcrevellos-
Cuidavaeu, que depois de reduzido elle a efte eftado tam
laftimofo , o deixaítem : mas vejo , que fepultadoem hiia
Caixa , naó fe fartaõ de o pizar com pilocns > nem de lhe dar
na Cara , já feita em pó, com hum pao. Pregaõ-no finalmen-
te, & marcaõ com fogo ao fepulcro, em que jaz : & aílim pre-
gado , & fepultado , torna por muitas vezes a fer vendido , Sc
revendido, prezo, confifcado, &" arraítado: & fe livra das pri-
zoens do porto , naó livra das tormentas do Mar, nem do
degredo , cora impofíçoens , &: tributos : tam feguro de fer
com
C> Opulência do UrâfiL *o j
comprado, Sc vendido entre Chriftáos, como arrifcado a
fer levado para Argel entre Mouros. E ainda aílim ,. íempre
doce , & vencedor de amarguras , vay a dar gofto ao paladar
dos (eus inimigos nos banquetes, faude nas mezinhas aos En-
fermos, & grandes lucros aos Senhores de Engenho, Sc aos
Lavradores , que o períeguíraó , &" aos Mercadores, que o
comprarão, & o leváraó degradado, nos Portos > & muito
mayores emolumentos à Fazenda Real nas Alfandegas.
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SEGUNDA PARTE.
JLTU
OPVLE NC1A DO BRASIL
Na Lavra do Tabaco.
■■' aã ' I . i . I
CAPITVLO I.
Como/e começou a tratar no ^Brajil da Tlanta do
tabaco : &• a que eíiimaçao tem
chegado.
E oAííucardoBrafil o tem dado a conhecer a to.
dos osReynos,& Provindas da Europa} o Tabaco
o tem feito muito mais afamado em todas as qua-
tro Partes do Mundo:em as quaes hoje tanto fe de-
feja, Sz cõ tãtas diligécias, & por qualquer via fe procura.Ha
pouco mais de cem annos 5 que eíla folha fe começou a pían-'
tar , 6c beneficiar na Bahia :.& vendo o primeiro ? que a plan-
tou , o lucro 3 pofto que moderado , que entaó lhe deraõ húW
pou-
,
wm
m
lò8 Cuhura\
poucas arrobas, mandadas com pequena efperança de algum
retorno a Lisboa ,animou-fe a plantar mais ; naò tanto por
cobiça de Negociante, quanto por fe lhe pedir dos feus cor-
re fpondentes, Sc amigos , que a repartiaõ por preço ac-
commodado , porém já mais levantado. Atb que imita-
do dos vizinhos , que com ambição a plantarão, Sc enviai
Taõem mayor quantidade: Sc depois, de grande parte dos
Moradores dos Campos, quechamaõ da Cachoeira, Sc de
outros do Certaõ da Bahia 3 paííou pouco a pouco a fer hum
dos géneros de mayor efíiniaçaó, que hoje faem deíla Ame-
rica Meridional para o Reyna de Portugal, & para os outros
Reynos > Sc Republicas dê Nações eftrannas. E deita forte
Jrõafoíha antes defprezada, Sc quafidefconhecida, tem da-
do, & dà actualmente grandes cabedaes aos Moradores do
Brafil, Sc incríveis emolumentos aos Erários dos Príncipes.
Defta pois fallaremos. agora , moítrando primeiramente
como fe fêmea , Sc planta : como fe alimpa , Sc colhe : como
fe beneficia, Sc cura*: como fe enrola, Sc fe defpacha na Alfan-
dega. 2. Como fe piza , Sc fe lhe dà o cheiro : qual he melhor
f a ra fe mafcar j qual para o cachimbo ; Sc qual para fe pizar :
Sc fe o granido, ou o empo. 3. Do ufo moderado delle para
a faude -y Sc do im modera do , Sc viçiofo na quantidade, no lu-
gar , Sc no tempo. 4. Dos Rolos , que cada anno ordinaria-
mente fe embarcaõ doBrafil para Portugal: do valor delle na
Bahia , & no Reyno : das penas para fe naó mandar , ou intro-
duzir femdefpacho: & dos artifícios para fe paífar de contra-
bando, naó obítante a vigilância dos Guardas , afíim dentro,,
como fora de Portugal. E finalmente do rendimento deite
Contrato, &da repartição do Tabaco por todas as partes
do Mundo. Tudo conforme as noticias certas , que procu-
rey , Sc me deraó os mais iiitelligentes >Sc mais verfados nefta
lavra iaosquaes naquedirey , me reporto.
CA.
&• Opukncia do Urafil.
10£
CAPITULOU.
Em que conftfte a Lavra do Tabaco : Qfde comofe
fêmea, planta, & alimpa : & em que tempo
fe ha de plantar.
TOda a lavra , & cultura do Tabaco conílftepor Tua or-
dem em fe femear, plantar, alimpar , capar, def olhar ,
colher , efpinicar, torcer, virar, a juntar, enrolar, encou rar y&
pizar ; & de tudo ■ifto iremos fatiando nos Capítulos feguin-
tes.E começando neííe pela planta :femea-fe eílaem cantei-
ros bem eftercados 3 ou em queimadas feitas no matto, aon-
de ha terra conveniente para iífo, & aparelhadas no mefmo.
ànno , em que fe ha de femear. O tem po > em que conimum-
mente fe fêmea , faõ os mezes de Mayo , Junho , ■& julho : &
depois de nacidaafemente , nace também com eíla algum
capim -, o qual fe tira com tento , que fe naõ arranque por def-
cuido com o capim viciofo a planta innocen te.
Tendo a planta jà hum palmo,, ou pouco menos de al-
tura , fe paífa dos canteiros , aonde naceo , para os cercados,,
ou curraes , aonde fe ha de criar : cuja terra quanto mais efter-
cada , he melhor. Mas fe nos ditos curraes morou por muito
tempão Gado } ha-fede tirar antes alguma parte do eftercór
para que a força delle,ainda naõ cortido do tempo, naõ quei-
me a planta , em vez de a ajudar.
Diftribue-fe a dita terra em regos com rifcador, para que
a planta fique viftofa. A diftancia de hum rego de outro he de
cinco palmos : & a das plantas entre fihe de dous palmos ■&
rneyo ,para que fe poífao eítender, ,. &: crecer folgadamente*
■■ i
-—
1
Hl
■
lio Cultma ,
fem hua fer de embaraço à outra. Planta- fe em covas de hum
palmo, quanto cava a enxada metida; ôceftasfe enchem de
terra bem eftercada : & com vigilância , & cuidado fe corre a
dita planta todos os dias , para ver fe tem Lagarta ; & efta lo-
go fe mata, para a naõcomer, fendo tenra. Os inimigos^da
planta faõ ordinariamente, alem da Lagarta, a Formi^j' o
Pulgaó, ScoGrillo. A Lagarta em pequena corta-lhe o pé,
ou raiz debaixo da terra j & em crecendo , cortalhe as folhas.
O mefmo faz também a Formiga : & por ifib fe põem nos re-
gos, aonde efta apparece, outras folhas de mandioca, ou de
aroeira^ para que delias comaõ as Formigas, & naõ cheguem
a cortar, & comer as do Tabaco, que fendo cortadas deita
forte naolervem. O Pulgaò , que he hum Mofquito preto,
po iico mayor que hua Pulga , faz buracos nas folhas^ & eftas
aííim furadas, naõ preftaõ para fe fazer delias torcida. O
Grillo , em quanto a planta he pequena , a corta rente da ter-
ra i & fendo jà crecida , também fe atreve a cortarlhe as
folhas.
Sendo jà a folha baftantemente crecida , fe lhe chega ao
pé aquella terra , que fe tirou das covas em que foy plantada,
daquella parte , que ficou arrumada raais alta : porém em
tempo de Inverno naõ fe aperta muito , porque toda efta hú-
mida : no Veraõ aperta-fe mais , para que a terra a defenda ;
& a hum idade, pofto que menor, lhedè o primeiro alimen-
to. E ifto faz quem a planta.
E irando a planta em fua conta, com oito, ou nove folhas,
conforme a força , com que vem crecendo , fe lhe tira o olho
decima, ougrello, antes de eípigar : o que por outra frafe
chamaó capar. E porque íaltando-lhe efte olho , nace em ca-
da pé das folhas outro olho-, todos eftes olhos fe haõ de bo-
tar fóra,(&: a ifto chamaõ defolhar)para q naõ tirem a fuftan-
cia às folhas. E efta diligécia fe faz pelo menos de oito em oi-
to dias: & mais frequentemente fe vifitaõ,&: correm os regos,
para
&• Opulência doBrafil. 1 1 1<
para tirar o capim , atèeftarem as folhas fazonadas : o que fe
conhece por apparecerem nellas mias nódoas amarelías ; ou
por eftar jà preto por dentro o pè da folha , o que commum-
mente fuccede ao quarto mez depois de polias em fuás co^
vas as plantas .
■
C A P I T U L O III.
Como fe tiraõ, Q? carão as folhas do [Tabaco : co-
mo delias fefa^em y & beneficiao as
mrdas.
, ■ . ' ■ ' ti x '■
Uebraõ-íè as folhas rente da haftía com otalo , Sc jim-
< tas em cafa fedeixaô eftar aílim por vinte & quatro*
horas, pouco mais , ou menos : & logo antes de fe ef~
quentarem 5 &feccarem3 fedependuraõ duas & duas pelo
pè , metidas entre a palha ( de que conftaõ as cafas , em que
fe beneficiao ) & as varas j ou em outra parte , aonde lhes dè
o vento, mas lhes naó chegue o Sol .-porque fe eftelhesche-
gafle, logo fefeccariaõ , &1 perderiaó a fuftaneia* % tanto
que eftiverem enxutas em fua conta , que pouco mais ou me -
nos fera depois de eítarem aííim dependuradas dous diasjfe
botão -np-çhaõ,. &: fe lhes tira a mayor parte do talo pela parte
inferior3com o devido cuidado, para qfe naó rafguem com o
defvio do talo : ftj a ifto chamaõ efpinicar. E entaô fe dobrão
pelo meyo as melhores, qhaõdefervirdecapa paraacorda,
quefe ha de fazer de todas as mais folhas. E advirta-fe 5 que
as folhas , que fe tiráraõ em hum dia , naó fe haõ de m-iilurar
fenaõ comas quefe tirarem no dia feguinte j para: que .feja6
— —
,iii Cultura,
igualmente fazonadas : & fe naõ forem aífim , húas prejudi-
caráõ ao bom concerto das outras.
Curadas as folhas , & tirado já o talo como eftá dito* del-
ias fe faz húa corda da grofliira quafi de três dedos. E pata if-
fo haverá Roda , & hum Torcedor entendido, para que a
corda fique unida, igual, & forte : ôcatraz delle eftará ou-
tro colhendo a torcida fobre hum pao, ou fobre o aparelho ,
como qualquer outra corda fimples , & naõ como as que fe
fazem de cordoes : & junto do Torcedor vaõ os Rapazes ,
que daõ as folhas para fe torcerem em corda.
■I
■I
■
H
■II
CAPITULO IV.
Como fe cura o Tabaco depois de torcido em
corda.
FEita a corda do comprimento , que quizerem , Sc enro-
dilhada em hum pao}fe defenrola cada dia, a faber , pela
manhaá, & ánoyte, ôtpafía-feaoutropao, para que naõ
arda: & na paífagem fe vay torcendo, & apertando branda- t
mente , para que fique bem ligada, & dura. E tanto que ficar
preta, vira-fe fó húa vez cada dia : & como fe vay aperfei-
çoando, fe diminuem as viradurasj atè ficar em eííado, que
fe poífa recolher fem temor de que apodreça. E commum-
mente efte beneficiocoftuma durar quinze, ou vinte dias, cõ-
forme vay o tempo , mais ou menos húmido , ou fecco.
Segue-fe atraz difto o que chamaõ ajuntar , que vem a
fer , pôr três bollas de corda de Tabaco em hum pao , aon-
de rica, atè que chegue o tempo de enrolar. E entre tanto
gtiardaõ-íeeítas bollas no Tendal, que he como hum andai-
me
&- Optikncia do TèrafiU 1 1 3
me alto , cornfeus regos em baixo , para receberem a cal da ,
que botaõ de íi eíTas bollas } & efta fe ajunta , & guarda T pa-
r&depois ufar delia , quando for rempo de enrolar.
O ultimo benefício,, que fe lhe faz, he ofeguinte. Tem-
pera-fe a calda dò mcfmo Tabaco com feus cheiros de herva
doce, alfavaca, & manteiga de porco : ôcquem faz mano*
jos de encomenda , botalhe almifcar >ou âmbar , fe o tem : 5c
por efta caida mifluradacommeldeaíTucar ( quanto mais
groílb , melhor) fe paífa a raefma corda de Tabaco húa vezj
£c logo fe fazem os Rolos do modo feguinte.-
CAPITULO V.
Como fe enrola* Çf encoura o Tabaco: ©* què-
FeJJoas fe occupav em toda a fabrica delle r
defde a [ua planta atèfe enrolar.
PAraenrolaro Tabaco, dobrão a cordajá curada ,&* nffei-
lada , de comprimento de três palmos^ fobre húa eftacár
naó muito groffa, 6c leve, que nas extremidades tem- 'quatro1
taboinhasem cruz. "fobre as quaes dobrada , & feguradade-
húa & outra parte a ditacorda, fe vay enrolando atè ofímr
puxando fempreben*, & unindo húa dobra com outra ; de
íbrtcque naó fique vaó algum entre as dobras. E para 4 as ca-^
becas fiquem fempre direitas^ alem das cruzetas , que levaõV
lhes vaõ metendo folhas deUrucurí nos- vãos, para que fi-
quem bem unidas com as dobras de dentra
Acabado o Rolo, fe cobre primeiramente com folhas de
Caravatá feccas,amarradas cõembíraj&depoisfe lhe faz hú&
çappa de couro da medida do rolo : a qual colida , &: aperta^
*m
Mi
■
■II
JI4 Cultura,
da muito bem, marca-fe com a marca do fen dono. Edefta
forte vaõ osRolos por terra em carros,8rpor mar em barcos, a
ferem defpachados na Alfandega., antes de fe meterem nas
a tS/ ,cada Ro*° Péza comrnum mente oitoarrobas
Vindo agora ajallar dasTeílbas, que fcoccupaó na fabri-
ca, & cultura do X ábaco j ella he tal, que a todos 4á que
íazer : porque r^llatrabalbaõ grandes.,^ pequenos ihom és,
& mulheres 5 Feitores , Sc fervos. Mas nem todos fervem pa-
ra qualquer minifterio dos que acima fieaõ referidos. Parafe-
mear3&píantarafciha, ne necefTario , que feja pefToa , que
entenda diíTo, para que fe guarde bem o modo, a direitura,
&adiítancia aflim dos regos, cómodas covas. O. cavar as
covas pertence aos que andaõ no ferviçocom a enxada : os
Rapazes botaé os pés da planta, afaber, hum em cada húa
das covas , que jà ficaõ feitas. E o que planta, apertalhea
terra a opé, mais ou menos, conforme a humidade delia. To-
da aGente fe occupa em catar a Lagarta duas vezes no dia , a
faber, pela madrugada, & depois de eftar o foi pofto: porque
de dia eftá debaixo da terra;Sc o final de eftar ahi5be o acharfe
algúa folha cortada de noite. Chegarlhe a terracom a enxa-
da, he trabalho dos grandes. Capar a planta jà crecida , ifto
he , tirarlhe o olho , ou grello na ponta da ha&a -y he officio
de Negros Meftres. Defolhar,quevemafer3tirar os outros
olhos , que nacem entre cada folha, & ahaftia; fazem peque-
nos , & grandes. Apanhar, ou colher as folhas, he de quem fa-
be conhecer quando he tempo, pelo final , que tem a folha,
aonde fe pega com ahaftia , que heo fer ahi de cor preta.To-
da a Gente de ferviço íè occupa em dependurar as folhas nos
altos : & ifto fe faz commummente de noite. Pinicar , ou ek
pinicai- , ou efpicar , que tudo he o mefmo , & vem a fer, tirar
otalo às folhas do Tabaco •> he trabalho leve de pequenos , Sc
grandes. Torcer as folhas fazendo delias corda3 encomenda-
k a algum Negra Meftre ; ôc o que anda com a -Roda, ouEn-
genho
& Opulência do ^Brafil. %%%
genho de torcer, ha de fer Negro robufto : & também botar
acappa á corda , para que fique bem redonda, he obra de
Negro experimentado- Os Rapazes daõ ao Torcedor as fo-
lhas, & também as cappas ao que vay cobrindo com as me*
íhores a corda : •& o memio que bota as cappas , heo que en-
rola. O palíar as cordas de hum pao para outro, corre por
conta de dous Negros : dos quaes hum ©ítà no virador, & ou-
tro vay defandando a corda enrolada n o pao. Os que víraõ*
ou mudaõ a corda de -hum- pao para cãftfo; fao Negros Me-
ítres 5 Sc em cada virador faõ neceílarios três .* hu m , que lar-
gue acorda^ outro; que a ColH^Sc outro,que ande no virador.
Ajuntar, que hepôraGordadetresbollasemhiim pao, he
obra dos Negros mais deíf ros : Sc faõ três, éo às vezes quatro^
porque naõ bafta hum fò no virador, mas ha mifter doiis, pa-
ra que apertem bem a corda. Enrolar finalmente, he occupa-
çaõde bonsOffíciacs;, paraquefícpeaobrâfegura.
C AP r T 0 t o
Dajegunda , Qf terceira folha do Tabaco : (
de diverfas qualidades delle r, fará fe mají
[ C4r, cachimbar , Qffi^ar*
TVdo o que eftá dito até aqui do Tabaco ," que cham a$
da primeira folha , &■ vai o mefmo , que o da primeira
colheita* feha de entender também do da fegunda , Sc tercei^
ra folha } fe a Terra ajudar para tanto , Sc for para ííTo ajuda-
dacomo beneficio do tempo , Sc do efterco. Por tanto tira-,
áastodasaspnmeiasfolhaSíCorta-feahaítia menos de hum
Hz
=— ■
uí Cultura,
palmo fobre a Terrâ^ para que brote as fecundas :8r recen-
do ellas, felhestiraó ( como eftà dito acima ) os olhos do
tronco í & o capim dos regos : & o mefmo benefício , que fe
fez às primeiras folhas, fefaz às da fegund a colheita. Efe a
1 erra for forte, faz- fe a terceira, 6cmultiplicaõ-fe os Rolos.
O Tabaco da primeira folha heo melhor, ornais forte3 3c
o que mais dura: & .efte ferve para o eachirnbo,, 6c para fe maf-
çar , & pizar. O fraco , parafemafcar naó ferve 5 Sc fó prefla
para fe beber no cachimbo. Os que oquizerem pizar, haõ de
ajuntar ao melhor.aquel]es talos, q fe tiraõdas folhas, depois
d eeftarem.bexnfeccos: porque eftespizados corn as folhas
fazem ao Tabaco forte, Sc deboacor, E para o Tabaco era
pó , o das Alagoas de Pernambuco, & o dpsCampos da-Ca.
choeira ., 6c das Capivaras, he o melhor,
CAPITULO
Comofifi^a o Tabaco i do Granido , & eMfó;
Qfcomofç lhe dà o cheiro,
PAra fe pizar o Tabaco , ha de ferbem fecco , ou ao Sol ,
ou em bacias, ou fornos de cobre, com attcnçaó para
que fe naó queime; 6c por iífofe ha de mexer continuamen-
te :& os piloens , cm que fe piza, haódefer de pedra már-
more, com as mãos de pizar de pao. Pizado, peneira-fe : 6c
o que eftiver capaz ,fe tira aparte* 6c o mais groífo fe torna
a pizar , até fe reduzir em pó. E efte he o que commummentç
mais fe procura, 6cfeeítima.
Do Granido fe ufa muito em Itália : 6c faz-fe defta forte.
.Toma-fe o Tabacojá feito em pó, §c poem-fe em hum algui-
tez
C> Opulência do líra/iL 1 i y
dar vidrado : botafe-lhe em quantidade moderada algum
mel, ou calda de Tabaco -, & fe efta for muito grofla , fe fará
liquida com hum pouco de vinho. Depois ', para que fe vá
encorporandoj. fe mexe muito bem , & mexido fe levanta, 6c
mcnea-fe entre as mãos, como quem faz bolinhos : & eílan-
doaííim húmido , fe paíTa porhúa oropêma fina : Sc nefta
pàiTagem pelos buraquinhos da oropêma fe formão os gra-
nitos, como os da pólvora fina ;& fica o Tabaco granido. E
o que naõ paíla pela oropêma , por fer ainda groíTo , torna-fe
a menear, como eílá dito, entre as mãos , atèfer capaz de paf-
far. Paflado , fe féccãao Sol fem fe mexer -y para que naõ torne
a amaííar-fe i & perca o fer de granido.
Depois de o Tabaco granido eftar fecco , fe lhe quizerent
dar algum cheiro , borriía-íe com agua cheirofa : ou poem-fe*
no mefmo vafo , em que fc recolheo , húa vainilha inteira , ou;
alguma quantidade de âmbar , ou de algalia , ou de almifcar.>
Porém o Tabaco em pò naó he capaz de fer borrifado com:
agua cheirofa ; porque com ella fe amaífaria , 8c naõ ficaria ,
como fe pretendeo , folto em pó.
O Tabaco , que fe piza no Brafil , vay fem miftura , íin-
gelo , & legitimo em tudo ; & por iífo tanto íè eftima. Mas o
que fe piza em algumas partes da Europa, vende- fe tam vi-
ciado, que apenas merece o nome de Tabaco | pois com ellc;
ate as cafeas de laranjas fe pizaô.
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C A-
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Cultura >
M;k:
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C AP I U LO VIII.
. Do ujo moderado do Tabaco fará a faudei Qf da
demajia nociva d mefmafaude , de quais
quer modo que Je ufe delle*
OS que faõ demaíiadamente affetçoados ao Tabaco ,
o chamaõHer va fanta: nem lia epitheto de louvor,que
lhe naô dem, para deféder o exceflb digno de reprehenfaõ, 6c
de nota. Homens ha, que parece náõ podem viver fero efte
quinto elemento ; cachimbando a qualquer hora em cafa , 6c
nos caminhos \ roafeandoas fuás folhas 3ufando de torcidas>
&■ enchendo os narizes defte pó. E efta demaíia naó fomente
fe vè nos Marítimos , & nos trabalhadores de qualquer cafta,
forros ,-..& Efcravos , os quaes eftaõ per fu adidos y que fó com
Tabaco haõ de ter alento , & vigor h mas também em muitas
Peíloas nobres , ôcociofas; nosfoldados dentro do corpo da
guarda ■> 6c em naó poucos Ecctefiaftieos Clérigos , 6c Reli-
giofosma opinião dos quaes toda eíTa demaíia fe defende, ain-
da quando fe vè manifeftamente > q fe naõ ufa por mezinha,
mas por dar goíto a hum excelíivo, & mal habituado prurito.
Eu 3 que de nenhum modo ufo delle , ouvi dizer 3 que o fumo
do cachimbo } bebido pela itíanhaã em jejum moderadamen-
te, deífeca as himiidades doeftomago ; ajuda para a digeftaõâ
& naõ menos para a evacuação ordinária; alivia ao peito, que
padece n\ixaò afmatica > & diminue a dor infoportavel dos
dentes.
Qma.fcallonaõhetamfadio : porém aflimcomomafca^
' d7
ç> Opulência do 'Brafil. 1 1 9
ão pel a manhãa em jej um moderadamente , ferve para deííe-
car a abundância dos humores do eftomago ; afíini o ufo im-
moderado o relaxa : & pela continuação obra menos , altera
o gofto , faz grave o bafo, negros os dentes , &■ deixa os beir
ços immundos. ;
Vfaõ alguns de torcidas dentro dos narizes, para purgar
por efta via a cabeça, & para divertir o eftillicidio , quevay
a cabir nas gengivas, & caufa dores de dentes : Sc poftas pela
manhãa , & á noite , naõ deixaõ.de fer de proveito. Só fe en-
commenda aos que ufaõ delias, o evitarem a indecencia , que
caufa o apparecer com ellas fora dos narizes, & com húa got-
ta de eftillicidio fempremanante, que fujaa barba, & càtifa
nojo a quem com elks converfa.
Sendo o Tabaco em pó o mais ufado , he certamente o
menos fadio : aílim pela demafia , com que fe toma , que paf,
fa de mezinha a fer vicio -, como por impedir o méfmo coftu.
me exceílivo os bons eífeitos , que fe pertendem , ôc que talA
vezcaufaria , fe o ufo foífe mais moderado. Deixando po.
rém de reparar nefta viciofa fuperfluidade , fó lembro quan^
todous Surtimos Pontífices Vrbano VIII. & Innocencio X
eftranháraõ oufar delle nas Igrejas , pela grande indecencia,*
que reparâraõ,& julgarão ter efte intolerável abufo,digno de
fe notar, & eftranhar nos Seculares, & mais nos Eccleíiafticos
pouco acautelados ainda quando afliftem no Coro aos Offi*
cios d i vinos -, & muito mais nos Religiofos , que devem dar
exemplo a todos ( & mayormcnte nos lugares fagrados ) de
gravidade, &modeftia. E por iífo ambos os fobreditos Pon-
tífices chegarão a prohibillo corri excommunhaõ mayor : o
primeiro com hum Breve de 30. de Janeiro do anno 1Ó42. o
proh ibio na Igreja de Saõ Ped ro em Roma , & no adro , Sê
alpendre do dito Templo : o fegundo com outro Breve de-
baixo da mefma pena aos 8 . de Janeiro de 1 61) o. nas Igrejas de
^odo hum Arcebifpado , em que fe hia introduzindo eíta de-
mafia
■i
tiíu
■i
x*o Cultura,
máfia com cfcandalo. E em algumas Rdigícens mais 0bfcr;
vantes feprohibio o uíò publico do Tabaco nas Ideias com
privação de voz aftiva , & paffiva , ifto lie , fob pena de mó
poderem fer eleitos os transgreííores, nem poderem efeolher
a outros para Superiores, Separa outros oííicios da Ordem.
CAPITULO IX.
Do modo com quefe def-paeba o Tabaco na Alfan*
dega da Bahia.
BEneflciado,& enrolado o Tabaco 5 & pago ofeu dizi-
mo a Deos . que he de vinte arrobas húa : ( &■ rende efte
dizimo hum anno por outro dezoito mil cruzados , como
contra çlo arrendamento do dizimo, que fe tira da Cachoeira
da Bahia , & fuás Fréguezias annexas -y fora o que fe lavra pe-
ias mais partes do CertaÕ delia em Serigippe de EIRey, Co-
tmguíba, Rio Real , Inham búpe , Montegordo, & Torre,
que apartado do rendimento do dizimo do AíTucar, & mais
meunças, rende dez atè doze mil cruzados) vem pagando
feus carretos, & fretes para a Cidade da Bahia, atè fe meter
em hua lua própria Alfandega , aonde fe defpachaÕ para Lis-
boa , hum anno por outro , de vinte Se cinco mil Rolos para
cima : os quaes pagão por hum Contrato da Camera, a feten-
ta reis por cada Rolo 5 & deites tem Ei-Rey a terceira parte :
& as duas faõ para o Frefidio da mefma Cidade , q ue im por-
tão eme o mil cru zados.
PagaÕ mais a húa balança a três reis por arroba, que a
iieraarrendanamefmaformajádita, 6c importa mil &
:enrns rrur^Hno - *
Carne
duzentos cruzados.
Deite
&* Opulência doBrajil. iu
i Deite Tabaco íepermitte a extracção de treze mil arro-
bas , para a navegação da Coita da Mina , que fe arrumaõ em
cinco mií Rolos pequenos de três arrobas : os quaes também
pagaõ a íetenta reis por cada Rolo para o íbbredito Contra-
to 3a Camera , & importa mil cruzados..
Deitas treze mil arrobas íe pagaõ por dizimo a F.l-Rey
quatro vinténs por arroba, &pagaõ-íe na Caía dos Contos:
o que importa três rail cruzados.
Vaó para o Rio de Janeiro todos os annos, três mil arro-
bas : as quaes nada pagaõ na Bahia j mas vao a pagar no dito
Rio de Janeiro vinte Óz cinco mil cruzados cada anno por
Contrato de El-Rey 3 o qual pouco mais ou menos por tanto
fe arrenda.
E tudo o que neíteCapitulo do dcfpacho do Tabaco eítá
dito, importa ieííenta & cinco mil & duzentos Cruzados.
C A-
Ill
Cultura ,
C Â P I T U L O X.
^#£ cufla hum Rolo de Tabaco de oito arrobas foflo
da Bahia na alfandega de Lisboa , Qf já
def cachado > Çff corrente fará
jahir delta.
O Rolo do Tabaco
O couro , & ò enrolallo nelle
O Frete para o Porto da Cachoeira
O Aluguer no Almazem da Cachoeira
O Frete para a Cidade da Bahia
A defcarga no Almazem da Cidade
O Aluguer no Almazem daCidadc
O chegar á Balança do pezo
O pezar a dez reis por Rolo , & botar fóra
O Pezo da Balança , a três reis por arroba
Direitos , 6c Fretes , & mais gaftos em Lisboa
O que tudo importa doze mil cento Sc vinte
Sc quatro reis—
8Uooò
1U300
U550
U040
U080
U020
. U040
"Uoio
poio
XJ024
2U050
1 2U 1 24
Vaõ ordinariamente cada anno
da Bahia vinte 6c cinco mil Rolos
de Tabaco : Sc a doze mil cento 6c
vinte
ç> Opulência do cBra/il.
vinte Sç quatro reis , importaõ tre-
zentos & três contos & cem mil
reis
Vaõ ordinariamente cada^nno
das Alagoas de Pernambuco dous
mil & quinhétos Rolos : & a deza-
íeis mil feiscentos & vinte réis ,
por fer melhor o Tabaco, impor-
taõ quarenta & hum contos , qui-
nhentos & cincoenta mil reis—
Importa todo eíleT ábaco tre-
zentos & quarenta &r quatro con-
tos , feiscentos & cincoenta mil
reis—
E reduzidos a cruzados yíâõ oi-
to çétos Sfltíeífenta& hum mil, feis-
centos & vinte & cinco cruzados.
"3
303.100U000
41.550U000
344.65'oUboo
€ A-
H4
Cultura ,
C A P I T U L O XI.
Da eítimaçaõ do Tabaco do Brafil na Europa 1
Qf nas mais fartes do &lâundo: & dos gran*
des emolumentos , que delle tira a Fazen-
da Real.
II
O que até agora fe tem dito , facilmente fe pode enten-
der a eftimaçaó , 6c valor a que tem chegado o Ta-
baco ? Sr mais particularmente o do Brafil. Pois (como diííe
ao principio) havendo pouco mais de cem armos, quefe co-
meçou a plantar, &: beneficiar na Bahia ; foraó as primeiras
arrobas, que fe mandarão a Lisboa , como húa íementeira de
defejos, para que cada anno fe pednTem logo , & femandaf-
fem mais , St mais arrobas. E paliando de mimo a fer mercan-
cia-, hoje apenas os tantos milhares de Rolos , que levaõ as
frotas , faòbaílantes para fatisfazér ao appetite de todas as
Naçoens , naó fomente da Europa , mas também das outras ,
partes do Mundo ,dqnde encarecidamente fe procuraõ.Val
húa livra de Tabaco pizado em Lisboa de vinte atè vinte &c
quatro toftoens , conforme he mais , ou menos fino : & o que
El-Rey tira defte Contrato cada anno, faó dous milhoens, &
duzentos mil cruzado*. Nem hoje tem os Principes da Eu-
ropa Contrato de mayor rendimento , pela muita quantida-
de de Tabaco , que fe gaita em todas as Cidades, Sc Villas.
Sirva de prova o que conta Engelgrave no primeiro To-
mo da Luz Evangélica , na Dominga quinta depois do Pen-
tecoíteaojf. i.allegando por teftimunho do que diz aoHi-
ítoria-
& OpuhmU h ^Brdfíl. 1 1 5
ftoriador Barnabè de RijcKe , como certamente informado.
Diz pois efte Author, que na Cidade de Londres, Cabeça dá
Gram Bretanha j povoada de mais de oitocentas mil Almas,
paíTaó as vendas do Tabaco o numero de fetemil | &c dando,
que cada húa deftas naó venda mais cada dia, que hum flo-
rim &: meyo de Tabaco ; importará o que fe vende cada diz. ,
dez mil & quinhentos florins : os quaes reduzidos ámceda
Portugueza , em que cada florim faò dous toítoens , ímpor-
taó cinco mil 6c duzentos Sc cincoenta Cruzados; E confe-
quentemente o que fe vende fó cm Londres em humanno,
que confta de trezétos Sc feílenta Sc cinco dias , importa hum
milhaò , novecentos 8c dczafeis mil , duzentos & cincoenta
cruzados. E a que fomma chegará o que fe vende cada anno
e m toda a Gram Bretanha , em Flandes , em França , em to^
da Hefpanha, Sc em Itália ? para naó fallar de outras partes,
Sc do que vay para fora da Europa , particularmente às ín-
dias Oriental, 6c Occidental : procurando-feo doBrafil, por
mais perfeito, 6c melhor curado, em mayor quantidade da
que fe Ihepóde mandar , por naó faltarem os | CommirTarios
aos Mercadores, que trataõ de prover as paítes mais pró-
ximas. * í
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Cultura ,
C A P I T U L O XII
D^í p^y afer qmleztâ Tabaco naõ defpacha*
do nas Alfandegas : <gr das induftrias ,
^ <p<? /<<? ^ -parafe levar de com
trabando*
V.'
I
Hl
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QUalqucr defcaminhodo Tabaco, por qualquer defta<
partes do Brafil , fora do Regiílo á 5c Guias , debaixo
_ ^° Wl tudo vay defpachado , tem por pena a perda
do 1 ábaco, & daEmbarcaçaÕ, em que fe achar , & mais
cinco annosde degredo para Angola ao Author deita culpa.
1 orem muito mayores fóas penas , que tem os transgrcfib-
res do bando em Portugal. E em outros-Rey nos fao tantas, &
tam graves, que a cada paífoíaõ cauía da mina de muitas
famílias. E quanto mais rigorofas faõ eftas penas } tanto
may or prova faõ do muito a que fubio o Contrato, & do gra-
de lucro, que tem delle todos os Príncipes.
Mas ainda mayor prova do grande valor, & lucro, que
dao labaco,heoperderemmuitos, por ambição, otemor
deltas penasj amfcando-fea elías com dcfprezo do perigo de
ie verem comprehendidos nas mefmas miferias , a que outros
íe reduzirão, por ferem tam confiados. E para ifTo parece ,
quenaõhamduítria, dequefenaóufe, para o embarcar, Sc
tirar das Embarcaçoens às efcondidas , à vida dosmefmos
Miniitros, que como Argos de cem olhos vigiaõ ; quando
naolao juntamente Briarêos de cem mãos para receber ; &
mais mudos, que os peixes, paracallar. Paraapontaralgíías
deitas
&• Opulência- do ^Brafit. n 7
deftas índuílrias, direy, por relação dos cafos , em que fe apa-
nharão naõ poucos ; q huns mandarão o Tabaco dentro das
peças da artilharia j outros dentro das caixas, 8c feches do
AíTucarj outros arremedando as caras também de AíTucar
muito bem encouradas. Servírao-fe outros dos barris de Fa-
rinha da Terra3dos de Breo Sc dos de Melado,cobrindo cora
a fuperficie mentirofa oquehia dentro em folhas de Flandes.
Outros valeraõ-fe das caixas de roupa , fabricadas a dous fo-
brados, para dar lugar a efeondrijos : de frafqueiras que eftaõ
ávifta, pondo entre os frafeos de vinho outros também de
Tabaco. Quanto foy , & vay cada anno nas obras mortas 3 &c
nos forros das cameras 8c das varandas das Nãos ? Quanto
nas curvas , que para iíTo nas partes mais efeuras fe forraõ ? E
na5 faltou quem lhe déffe lugar até dentro de huas Image ns
ocas de Santos } aflim como huns Carpinteiros de Navios o
efcondèraõ em paos ocos , mifturados entre os outros 3 de
que coítumaõ valer-fe. Deixo o que entra , & fae em algib ei-
ras grandes de couro dos que vaó 4 8c vem das Nãos para os
Portos, com repetidas idas,, 8c voltas , debaixo de Lobas , Sc
Túnicas : Sc o que {barrada debaixo dos bateis ., èz das pipas
da aguada pelas ondas do mar. Nunca acabaríamos , fe qui-
zeílemos relatar as invençoens 5 que fuggerio a cautela ambi-
iciofa: porém iemprearrifeada, 8c muitas vezes defeuberta,
com fucceíTo infeliz. O que claramente prova aeitimaçaõ3o
appetite , 8c a efperança do lucro , que ainda entre rifeos acõ-
panha ao Tabaco.
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TERCEIRA PARTE.
CULTURA
E
O P V LENCIA DO BRASIL
Pelas Minas do Ouro.
CA. PITVLO L
Das *5\dinas do Ouro , que[e dej cobri-
rão no ^Bra/il.
Oy fempre fama confiante, que no Brafil havia
Minas de Ferro, Ouro,& Prata.Mas também hou-
ve fempre baílante defcuido de as defcobrir, 6c de
aproveitar- fe delias : ou porque contentando-fe
os Moradores com os frutos, que dá a Terra abundantemen-
te na tia fuperíkie •, & com os peixes, que fe pefcaó nos Rios
grandes, & aprazíveis * naõ tratarão de divertir o curfo na-
tural deites, para lhes examinarem o fundo, nem de abrir
áquella as entranhas , como perfuadio a ambição infaciaveí
a oufrasmuJLtas Naçoens ; ou porque o génio de bufcarln-
» ; 1 dios
m
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;. -i
f|* Cultura,
dios nos mattos os defviou deita diligencia "menos efcrupu*
lofa,&: mais útil.
Na Villa de Saõ Paulo ha muita pedra ufual, para fazer
paredes , & cercas ; a qual com a cor , com o pezo , & eom as
veas t que tem em íi, moftra manifeftamente, que naõ defme-
rece o nome, qne lhe deraõ de Pedra ferroj & q donde ella fe
tira x o ha. O que também confirma a tradição de que já fe ti-
rou quantidade delle, & fe achou fer muito bom para aso-
bras ordinárias , que feencommendaó aos Ferreiros. E ulti-
mamente na Serra Ibirafoyâba , diftante oito dias da Villa de
Serocâba , &: doze da Villa de Saõ Paulo * a jornadas mode-
radas, o Capitão Luiz Lopez de Carvalho, indo lá por man-
dado do Governador Artur de Sá, com hú Fundidor Eftran-
geiro, tirou ferro, ôc trouxe barras,das quaes fe fizeraõ obras
excellentes. '
Que haja também Minas de Prata , naõ fe duvida .-por-
que na Serra das Colunas , quarenta lcgoas alem da Villa de
Outú , que he húa das de Saõ Paulo ao Leite direito , ha cer-
tamente muita prata , & fina. Na Serra de Seboraboçú tam-
bém a ha; Da Serra de Guarumê defronte do Ceara tirâraõ os
Hollandezes quantidade delia no tempo ,em queeftavaõ de
políe de Pernambuco. E na Serra de Itabayâna, ha tradição,
que achou prata o Avó do Capitão Belchior da Fonfeca Dó-
ria. Eernbufca de outra foy alem do Rio de SaõFrancifco
Lopo de Albuquerque , que faleeeo neíta fua malograda em*
preza.
Mas deixando as Minas de Ferro,& de Prata, como infe-
riores 3 paliemos ás do Ouro, tantas em numero , Sc taõ ren-
dofas aos que delias o tiraõ. É primeiramente he certo , que
de hum Outeiro alto , diftante três legoas da Vi lia de SaõV
Paulo, a quemchamãojaraguâ, fe tirou quantidade de ou-
ro , que paífou de oitavas a livras. Em Parnaíba,tambem jun-
to da meíma. Villa no Serro Ibiturúna, fe achou Ouro, ècú-
rou-fe
e> Opufencid do UrafiL %$ %
fciroii-fe por oitavas. Muito mais , &" por muitos annos fe conT
tinuou a tirar em Parnaguâ , & Coritiba , primeiro por oita-
vas , depois por livras , que chegarão a alguma arroba , pofto
que com muito trabalho para o ajuntar , fendo o rendimento
no catar limitado * atè que íè largarão , depois de ferem ,de£
cubertas pelos Pauliftas as Minas Geraes dos Cataguâs , & as
que chamaõ do Caetê j & as mais modernas no Rio das Ve-
lhas , Sc em outras partes , que defcobríraõ outros Pauliftas ;
<Sc de todas eftas iremos agora diftintamente fallando.
t».«> *'-& &*>?> j&«*£t ssss&í i£®?]& ^fi^^&U» jSJffl?& «sjS1Sí& «*■!$&-& áS SíiiSSS&^Sí* á$!;?£iiÊ8-*í?Ét
CAPITULO II.
Das Minas do Ouro , que chamaõ Geraes : &2
dos defcobridores delias*
HA poucos annos , que fe começarão a defcobrir as Mi-
nas Geraes dos Cataguâs , governando o Rio de Ja-
neiro Artur de Sá : èc o primeiro deícobridor dizem , que foy
hum Mulato , que tinha eftado nas Minas de Parnaguâ , 6c
Coritiba. EfteindoaoCertaõ com nuns Pauliftas a bufcar
índios, & chegando ao Serro Tripuí , deceo abaixo com
huma gamella , para tirar agua do Ribeiro, que hoje chamaó
çlo Ouro preto : h metendo a gamella na ribanceira para to-*
mar agua, ôcroçando-a pela margem do Rio } vio depois,
que nella havia granitos da cor do aço , fem faber o que eraò :
nem os companheiros, aos quaes moftrou os ditos granitos*
fouberaõ conhecer,8c eftimar o que fe tinha achado taõ facil-
mente ; 6c. fó cuidarão , que ahi haveria algum metal , naõ
bem formado, & por iífo naõ conhecido. Chegando porém
a Taubatê » naõ deixarão de perguntar, que cafta de metal
•^ " íz .feria.'
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1
I
I
41
ii
ii
1 'i/íJ
131 Cultura,
feria aquelle. E fem mais exame ,' venderão a Miguel de Sou-
fa alguns deftes granitos, por meya pataca a oitava , fcm fa-
berem elles o qué vendiaõ, nem o comprador que eoufa com-
prava j atè que íe reíblvèraõ a mandar alguns dos granitos ao
Governador do Rio de Janeiro Artur de Sá : & fazendo-fe
exame delles , fe achou , que era Ouro riniflimo.
Em diftaneia de meya legoa do Ribeiro do Ouro preto ,
achou-fe outra Mina, que fe chama a do Ribeiro de António
Dias : & dahi a outra meya legoa a do Ribeiro do Padre Joaó
de Faria : & junto defta , pouco mais de húa legoa , a do Ri-
beiro do Bueno , & adeBentoRodriguez. E dahi três dias
de caminho moderado atè o jantar, a do Ribeirão de Nofla
Senhora do Carmo , defcuberf a por Joaó Lopez de Lima ;
além de outra, que chamaó a do Ribeiro Ibupiranga. E todas
eftas tomâraõo nome dos feus defcobridores , quetodosfo-
raõ Pauliftas.
Também ha hua paragem no caminho para as ditas Mi-
nas Geraes, onze, ou doze dias diílante das primeiras,andan~
tio bem até as três horas da tarde : a qual paragem ehamaô a
do Rio das Mortes , por morrerem nella huns homens , que o
paífáraô nadando -, êc outros , que fe matàraõ às pelouradas ,
brigando entre ú fobre a repartição dos índios Gentios , que
traziaõ do Certaõ. E nefte Rio, &: nos Ribeiros , que delle
procedem , & em outros , que vem a dar nelle, fe acha Ouro:
&: ferve efta paragem , como de éftalagem dosque vaó ás Mi-
nas Geraes >& ahi fe provém do neeefTario, por terem hoje
es que ahi aíTiflem , Roças , &: creaçaõ de vender.
N aõ fallo da Mina da Serra de Itatiay a , ( a faber do Ou-
i o branco , que he Ouro ainda naõ bem formado ) diftante
do Ribeiro do Ouro (preto oito dias de caminho moderado
atè o jantar: porque deita não fazem cafo os Pauliftas, por
terem as outras de Ouro formado, & de muito melhor ren-
dimento. E eftas Geraes, dizem, que íicão na altura da Capi-
taniadoEfpiritoSaitfo,. Ç -fa
■■
rym
&• Opulência do fèrafíl.
C A P I T U L O III.
De outras Minas de Ouro no Rio das falhas,
& no Çaetê.
ALcm das Minas Geraes dos Cataguâs , defcobrlraõ-fe
outras por outros Pauliftas no Rio, que chamaõ das
Velhas : & ficaõ , como dizem , na altura de Porto-feguro, 6c
de Santa Cruz. Eeftasfaõ,a do Ribeirodo Campo , defcu-
berta pelo Sargento Mor Domingos Rodriguez da Fonfeca:
a do Ribeiro da Roça dos Penteados : a de Nofla Senhora do
Cabo, da qual foy defcobridor o mefmo Sargento Mor Do-
mingos Rodriguez : a de NoflaSenhora de Monferrate : a do
Ribeiro do Ajudante :-& a principal do Rio das Velhas he a
do Serro de Seboraboçu, defeuberta pelo Tenente Manoel
Borba Gato Paulifta , que foy o primeiro , que fe apoderou
delia , & do feu Território.
Ha mais outras Minas novas -, que chamaõ do Caetê , en-
tre as Minas Geraes, 6c as do Rio das Velhas, cujos descobri-
dores foraõ vários : & entre ellas ha a do Ribeiro , que defeo-
brio o Capitão Luis do Couto , que da Bahia foy para ena
paragem , com três Irmãos , grandes Mineiros 5 alem de ou-
tras, que fecretamente fe achao , & fe naõ publicaó , para fe
aproveitarem os descobridores delias totalmente , Sc naõ as
fujeitarem á repartição 1. & as que ultimamente déícobrio o
Capitão Garcia Rodriguez Paez, quando foy abrir o cami*
nho novo detraz da Cordelheira da Serra dos Orgaõs , no
diftri&o do Rio de Janeiro, por^nde corta òRiõ Paraíba do
Sul;
U C A.
■ t* ■
134
Cultura $
ÍJÍWfllÇisJ
C A P I T
U L O IV,
[Lo rendimento dos Ribeiros : &* de diverfas qua-
lidades de Ouro > que delles fe tira.
D As Minas Geraes dos Cataguâs as melhores , & de ma-
yor rendimento foraõ até agora a do Ribeiro do Ouro
preto , a do Ribeirão de NcíTa Senhora do Carmo , & a do
Ribeiro de Bento Rodriguez,do qual em pouco mais de cin-
co braças de terra fe tiráraõ cinco arrobas de Ouro. Também
o Rio das Velhas he muito abundante de Ouro r affim pelas
margens 3 como pelas Ilhas, que tem, & pela Madre ou Veyo
da agua : & delle fe tem tirado , & íe tiraainda em quantida-
de abundante.
Chamaó os pauíiítas Ribeiro de bom rendimento 3 o que
dá em cada bateada duas oitavas de Ouro. Porém affim co-
mo ha ba teadas de meya oitava, & de mey a pataca ; affim ha
também bateadas de três , quatro , cinco , oito, dez, quinze,
vinte, & trinta oitavas , & mais: & ííto naõ poucas vezes fuc-
eedeo na do Ribeirão, nado Ouro preto,na de Bento Rodri-
guez, & na do Rio das Velhas.
Osgrãosdemayorpezo, que fe tirarão , foraõ hum de
noventa <k cinco oitavas: outro de três livras, que repartirão
entre íi três PelTòas com hum machado : outro , que paííou
de cento &cincoenta oitavas , em. forma de hua lingua de
Boy , que fe mandou ao Governador da Nova Colónia : &
outro mayordefeislivraSr
Quanto ás qualidades dtverfas do Ouro : fabe-fé^ que o
Ouro, a quem chamaó preto, por ter na fuperficie húa cor
leme*
»-v
& Opulência do TSraJfl. *5 f
femelhante á do aço , antes de ir ao fogo , provando-fe com?
o dente logo apparece amarellõj vivo , gemado , Sc he o mais
fino 5 .porque chega quaíiavinte Serres quilates : Sc quando
fejlhe põem o cunho na fundição , faz gretas na barreta , co-
mo fe arrebétaííe de todas as partes : & por dentro áá taes re-
flexos, que parecem ray os do Sol. O do Ribeirão he mais
miúdo , & mais polme , & compete na bondade com o Ouro
preto ; porque chega a vinte Sc dous quilates. O Ouro do
Ribeiro de Bento Rodriguez , pofto que feja mais grofTo, Sb
palpável , & bem amarello 5 comtudo naõ tem a perfeição do
Ouro preto , & do Ouro do Ribeirão ; mas quando muitos
chega a vinte quilates. O Ouro do Ribeiro do Campo, 6c o
do Ribeiro.de NoíTa Senhora de Monferrate he groíío , 6c
muito amarello, Sc tem vinte Sc hum- quilates Scmeyo. O
Ouro do Rio dasVelhas he finifíimo,& chega a vinte Sc dons
quilates. O Ouro finalmente do Ribeiro de Itatiaya hédc
cor branca 3<:omo a prata i) por naõ eftar ainda bem formado,
como diífemos acima : Sc defte fe faz pouco cafo ; pofto que
alguns digaó , que indo ao fogo ás vezes por mais formado,
foymoftrandoacor amarella.
Houve anno , em quede todaseftas Minas , ou Ribeiros
fe tirâraõ mais de cem arrobas de Ouro $ fora o que fe tirava*
8c tira efeondid amente de outros Ribeiros ,, que os defcobrin
dores naó manifeftâraõ,para os naõ fujeitarem logo á reparti-
ção» E le os quintos de EiRey chegarão a dezafete , Sc a vinte
rrobas, fonegando-fe tanto Ouro naõ quintado ; bem fe
leixa ver , que o Ouro , que cada anno fe tira, fem encareci-
mento algum pa(Ta de cem arrobas : Sc que neftes dez annos*
aífados fe tem tirado mais de mil arrobas. E fe nos primeiros
nnos naõ chegarão a cem arrobas -, nos outros certamente9-
aflaraó. E continuado ao prefente o rendimento com igual,
u com mayor abundância por razaõ do mayor numero dos
ae fe em pregaõem catar j í&os Quintos^ devidos a-Sua Ma- .
I4 gefta;
Cultura ,
geftade j fe foraõ notavelmente diminuindo : ou pur ie diver-
tir para outras partes o Ouro em pó > ou por naõ ir á Caía dos
Quintos j ou por ufarem alguns de cunhos falfos , com enga-
no mais deteftavel. Mas ainda aífim não deixou Sua Mage-
flade de ter grande lucro na Cafa da Moeda do Rio de Janei-
ro: porque comprando o Ouro a doze toíloens a oitava, 6c
batendo-fe em dous annos três milhoens de moeda nacional,
&■ provincial de ouro i foy lucrando feiscentos mil cruzados
de avanço.
C A P I T U L O V;
Das Pefjoas , que andaõ nas Minas r Ç$* &■*&
Ouro dos Ribeiros»
A Sede insaciável do Ouro eítimulou a tantos a deixa*
rem fuás Terras , & a meterem-fc por caminhos tarn
aíperos , corno faõ os da^Mírras; que diilicultofamente fe po-
derá dar conta do numero dasPeífaas, que a&ualmente là
cftaõ. Com tudo os que affiftiraónelías neftes últimos annos
por largo tem po,.& as correrão todas, dizem, que mais de
trinta mil Almas fe occupão , húas em catar , & outras em
mandar catar nos Ribeiros do Ouro j & outras em negociar,
vendendo, ôc comprando o que fe hamifter naô fó para a
vida , mas parao regalo , mais que nos Portos do Mar.
Cada anno vem nas Frotas quantidade de Portuguezes»
& de Eftrangeiros , para paífarem às Minas. Das Cidades .
Villas, Recôncavos, & Certoens do Brafil vaõ Brancos,
Pardos, & Pretos j 6c muitos índios , de que os Pauliftasfe
íervcm. A mifturahe de toda a. condição de Pefíòas : Ho-
mens, '
—
*TT
&• Opulência do IZraJiL 137
mcns , Sc Mulheres : Moços , Sc Velhos : Pobres , Sc Rieos :
Nobres, & Plebeos: Seculares , Sc Clérigos ■:& Religiofos
dediverfoslnftitutos ,. muitos dos quaes naó tem no Braíil
Convento, nem Cafa,
Sobre efta Gente quanto ao temporal naõ houve atè o
prefente coacção, 011 governo algum bem ordenado : &ra-
penasfe guard ao algumas Leys, que pertencem às Datas , Sc
Repartiçoens dos Ribeiros. No mais nãoha Miniítros , nem
Juftiças , que tratem , ou poílaõ tratar do caftigo dos crimes;
que naõ íaõ poucos r principal mente dos homicidios , Sc fur-
tos* Quanto ao efpiritual, havençtoaté agora duvidas entre
os Prelados acerca da Jurifdiçaõ, os mandados dehua, Sc
outra parte , ou como Cura», ou corroo Vilitadores, fe acha-
rão baftantemente embaraçados : Scmô pouco embaraçarão
a outros, que naóacabaõ defaber a que Paftor pertencem
aquelles novos Rebanhos. E quando fe averigue o direito
do provimento dos Párocos ; pouco haõ de fer temidos , Sc
refpeitados naqucllas Fréguez ias móveis de hum lugar pa^
ramitro ., como os Filhos de Ifrael noDeferto.
Teve El-Rey nas Minas porSuperintendente delias ao:
Defembargador Jofeph Vaz Pinto, o qual depois de dous ,
ou três annos tornou a recolher-fe para o Rio de Janeiro
, com baftante cabedal: Sc delle fupponho ficaria plenamente'
informado doque por là vay j 6c que apontaria asdefordens,
Sc o remédio delias ,fe foíTe poílivel a-execuçaõ:
Aílifte também nas Minas hum Procurador dá Coroa, Sc
hum Guarda Mòrcom feu eítipendio. Houve atè agora Ca-
ía de quintar em Taubatê , na Viila de Saõ Paulo , em Pa*
ratij , Sc no Rio de Janeiro : Sc em cada húa cíèítâs Caías ha
hum Provedor , hum Efcrivaõ , Sc hum Fundidor^ que fun-
dido o Ouro em: barretas ,. lhe põem o Cunho Real > final do
Quinto que íepagou a El-Rey deífe Ouro.
Havendo Caías da Moeda,, Sc dos Quintos na Bahia , St
» no^
*3' Cultura;
no Rio de j aneiro ( por ferem eítes os dons Pólcs \ aonde vav
parar todo o Ouro) teria Sua Mageftade muito mayor lucro
ao que ate agora teve : & muito mais, fe nas Cafas da Moeda,
bem fornecidas dos aparelhos neceílarios , houveíTe fempre
d ínheiroprõmpto para comprar o Ouro, que os Mineiros
trazem , & lolgaó de o vender fem detença.
3 4l°ra/OUbemos ^lle Sm Mageftade manda Governa-
dor,MiniírrosdeJuftiça,&ievantar hum Terço de Solda-
dos nas Mmas, para q tudo tome melhor forma, & governo.
C A P IX V L O VI.
Das Datas , m Reparti$aem das plainas.
P Ara evitar a confufaõ , o tumulto, & as mortes , que ha-
veria no descobrimento dos Ribeiros do Ouro, fe aten-
tou o que pertence ás Repartiçocns deita forte. Tem o Def-
cobndof a primeira Data, como Defcobridor , & outra como
Mineiro :íegue-fe a q.ue cabe a El-Rey3 6c atraz deita a do
Guarda Mor : as outras fe diítribuem por fortes. As que cha-
rnaõ Datas inteiras, faõ de trinta braças em quadra i &taes
iaõa d' Ei-Rey,& as do Defcobridor, & Guarda Mor. As
outras , que fe daõ por fortes , tem a extençaõ proporcionada
ao numero dos Efcravos , que trazem para catar ; dando duas
braças em quadra por cada Efcravo , ou índio , de que fe fer-
vem nas catas:& allim a quem tem quinze Efcravos fe dâ húa
Data inteira de trinta braças em quadra. Paraferadmittidoá
Repartição por fortes, heneceífario fazer petição ao Super-
intendente das ditas Repartiçoens , ao qual fe dá pelo defpa-
cho da petição húa oitava de Ouro , & outra ao feu Efcrivaó:
& ás vezes acontece ofièreceré-fe quinhentas petiçoens,& le-
varem,
&> Opulência do "Bra/iU i jj>
varem ó ÍLepzMdóf 5 êr o Efcrívaó mií oitavas $ & naõ tira-
r em todos os Mineir os juntos outro tanto de taes Datas 5 por
falharem tio feu rendimento : Sc poríflb procuraò outras Da-
tas , havendo defco brímento de novos Ribeiros, A Data
d*El-Rey logo fe vende a qitémais offerece.' Sc pôde também
qualquer vender ,ou trocar a fua Data : & nifto fe viraõ 9 êc
vem a cada paílo vários, & diíTereiltes fucceífos 3 tirando hiís
Mineiros de poucas braças muito Ouro -y & outros de muitas
pouco : 5cjá houve quem por poiTComaiscfe mií oitavas ven -.
deo Data , da qual o comprador tirou- fetearrobas de Ouro,
Pelo que fe tem por jogo de bem , ou mal afortunado , o tirar/
c n naõ tirar Ouro das Datask
C A F I T U L O Víí.
&a> abundância- de Mantimentos , <5f ^ f^
*/ftf/~, que hoje ha naf Mtna? : &* do fouc®
caf o que Je fardos preps extraor*
, dinariamente altos s
SEndo a Terra que dá Ourocfteriliílima de tudo óqiíê
feha mifiêr para a vida humana 3 6c naõ menos eíterif
a mayor parte dos caminhos das Minas '? naõ fe pode crer
o que padecerão ao principio os^Mineiros por falta de man-
timentos , áchando-fe naõ poucos mortos com humaefpi-r
ga de milho namaõ , fem terem outro fuí!ento; Forem
tanto que fe vio a abundância do Ouro, que fe tirava* &
a largueza 5 com que fe pagava tudo o que lá hía- logo*
k íizeçaõ eftalagens , & logo começarão 0$ Mercadores
ama»*
H'. '
149 CulvUTd y
a mandar ás Minas o melhor que chega nõs Navios do Rey-
no , & de outras partes > aílim de mantimentos , como de re-
galo , .& de pompoío parafe veílirem ; alem de mil bugiarias
de França, que lá também foraõ dar. E aefterefpeito , de
todas as partes do Braíil fe começou a enviar tudo oqueclá a
Terra , com lucro naõ fomente grande, mas exeeíEvo. E naõ
havendo nas Minas outra moeda mais que Ouro em pó } o
menos que fe pedia , Sedava por qualquer coufa , erao oita-
vas. Daqui fefeguio, mandarem-fe às Minas Geraes as Bo-
yadas de Parnaguâ , & às do Rio das Vellias as Boyadas dos
Campos da Bahia -f & tudo o mais , que os Moradores imagi-
na vaõ poderia a ppetecer-fe , de qualquer género de coufas
naturaes, Sc induftriaes, adventícias, & próprias. E ainda que
hoje os preços fejap mais mode/adoS -, çomtudo porey aqui
hum Rol , feito íinceramente por quem aííiftio nas Geraes
três annos , dos preços das coufas , que por commum aflento
là fe vendiaõ no amio 1 705. repartindo-o em três ordês : a fa-
ber, os preços que pertencem às coufas comeftivcisj os do
veftuario , & armas 5 & os dos Efcravos , ôc Cavalgaduras : q
faó os íèguintes.
Preços das coufas comtftiveis.
POr húa Rez oitenta oitavas.
Por hum Boy cem oitavas.
Por húa mão de feífenta efpigas de Milho trinta oitavas.
Por hum alqueire de Farinha de Mandioca quarenta oita-
vas.
Poríeis bolos de farinha de Milho três oitavas.
Por hum Payo três oitavas.
Por hum Prezunto de oito livras dezafeis oitavas.
Por hum Paftel pequeno húa oitava,
for húa livra de Manteiga de Vaca duas oitavas.
Po*
&- Opulência àoTZrafiL
141
Por húa Galliiifra três ou quatro oitavas.
Poríeis livras de carne de Vaca húa oitava.
Por hum Queijo da Terra três ou quatro oitavas , conforme
o pezo.
Por hum Queijo Flamengodezafeis oitavas.
Por hum Queijo de Alemtejo três Sc quatro oitavas.
Por hua boceta de Marmelada três oitavas.
Por hum frafco de Confeitos de quatro livras , dezafeis oi-
tavas.
Por hua Cara de AíFucarde hua arroba 3 2 oitavas.
Por húa livra de Cidraõ três oitavas.
Por hum barrilote de Agua ardente, carga de humEfcravcf
cem. oitavas.
Por hum barrilote de Vinho, carga de hum Eferavoj duzen*
tas oitavas.
Por hum barrilote de 'Azeite duas livras;
Por quatro oitavas de Tabaco em pó com cheiro hua oitavai
Por féis oitavas de Tabaco em pó fem cheiro hua oitava.
Por húa vara de Tabaco em corda três oitavas;
Preços das coufas > que pertencem a&vefttiariO) & armas?
POr húaCâçaca de Baeta ordinária doze oitavas»-
Por húa Caçaca de Panno fino vinte oitavas.
Por húa Vefte de feda dezafeis oitavas:
Pdr huns Calçoens de Panno fino nove oitavas*
Por huns Calçoens de feda doze oitavas.
Por hua Gamiza de linho quatro oitavas.
For húas Ciroulas de linho três oitavas.
Por hum par de Meyas de feda oito oitavas.'
Porjhum par de C3apatòs de Cordovaòi:inco oitaya&
Por hum Chapeofino de Caftor doze oitavas,
^£1^5* Ghapço ordinai :io íeis. oitavas-.
I
I
■
*4^ Cutw.t9 1
Por hila Carapuça de feda quatro ou cinco oira^as^
Por húa Carapuça de panno forrada de feda cinco oitavas.
Por húa boceta de Tartaruga para Tabaco féis oitavas.
Por húa boceta de prata de relevo para Tabaco., fe tem oito
oitavas de prata, daõ dez, ou doze de ouro, conforme
o feitio dei la.
Por húa Efpingarda fem prata dezafeis oitavas.
PorhúaEfpingarda bem feita, & prateada, cento & vinis
oitavas.
Por húa Piftola ordinária óez oitavas.
Por húa Piftola prateada quarenta oitavas.
Por húa faca de ponta com cabo curiofo féis oitavas.
Por hum Canivete duas oitavas.
J?or húa Tizoura duas oitavas.
E toda a bugiaria , que vem de França , &■ de outras par-
tes , vende-fe conforme o defejo , quemoltraõ ter delias os
compradores.
Preços dos Efcravosy &das Cavalgaduras,
FOr hum Negro bem feito , valente , Sc ladino trezentas
oitavas.
Por huni Molecaõ duzentas Sc cincoenta oitavas.
Por hum Moleque cento Sc vinte oitavas.
Por hum Crioulo bom Ofrkial quinhentas oitavas. <
Por hum Mulato de partes, ou Oíficial quinhentas oitavas.
Por hum bom Trombeteiro quinhentas oitavas.
Por húa Mulata de partes , feiscentas , & mais oitavas.
Por húa Negra ladina Cozinheira trezentas ôc cinecenta oi-
tavas.
Por hum Cavallo fendeirocem oitavas.
Por hum Cavallo andador duas livras de Ouro.
Eeftes preços taim altos , Sc tam correntes nas Minas >
foraé'
&- Opulência da çBrafíL 143
faraó caufa de fubirem tanto os preços de todas as coufas, co-
mo fe experimenta nos Portos das Cidades, & Vijlas do Bra-
fil i 6c de ficarem desfornecidos muitos Engenhos de Aífucar
das Peças neceflTarias ; & de padecerem os Moradores o-rande
careftia de mantimentos , por fe levar-m quaíl todos , aonde
v e ndido s haõ de dar mayor lucro.
MMGHOi
• j^$.<5% 0^*5* ^§Sfe j»1? '% aj^íg* *«»& Ataeo
CAPITULO
De diverfos preços do Ouro vendida no Brajtl : £j*
do que importa o que cada anno ordinária*
mente fe tira das tZMinas*
VArios forao os preços do Ouro no difcurfo deites an-
nos : naõfó por razaõ da perfeição de hum , mayor á
a do outro , por fer de mais fubidos qu ú ates ; mas também a
refpeito dos Lugares v aonde fe vendia : porque mais barato
fe vende npMinasydo que na Villa de SafrPauío , & de San-
tos :& muito mais vaí nas Cidades do Rio de Janeiro, & da
».Bahia,doquena& Villas referidas. Também muito mais vai
quintado , do que em pó : porque o que fe vende em pó , fae
do fogo com bafíantes quebras : alem do que vay de diffèren-r
ça por razaõ do que fe pagou , ou naó fepagou de quintos,
Hita arroba de Ouro em pó pelo preço da Bahia, a quator-
%t : toflroens a oitava,importa quatorze mikrezentos & trinta
&feis cruzados, Quintado r pelo preço da Bahia a dezafeis
toftoens a oitava , importa dezafeis mil trezentos Sé oitenta
êc quatro cruzados.
Bua arroba de Ouro em pó pelapreço daRio de JaneiV
io*a tj^ze toftoens a-oitava, importa treze mã trezentos &r
doze
^H H!
I
■ '
■I
144 Cultura,
doze cruzados. Quintado, a quinze toífcens aokava,impor*;
ta quinze mil trezentos 6c feffenta cruzados.
Donde fe fegue, q tirando-fe cada anno mais de cem arro-
bas de Ouro , a quinze toftoens a oitava , preço corrente na
Bahia, 6c noRio de Janeiro, fendo quintado, vem a impor-
tar cada anno hum milhaõ quinhétos & trinta & féis mil cru-
zados. Das quaes cem arrobas, fe fe quintarem , como he ju-
foj cabem a Sua Mageftade vinte arrobas , que impor tao
trezentos & fete mil & duzentos cruzados , mas he certo que
cada annofe tiraõ mais de trezentas arrobas.
E com ifto naõ parecerá incrível o que por fama conflan-
tefe-conta haverem ajuntado em.diverfos tempos aíílm nuris
Defcobridores dos Ribeiros nomeados , como huns mais
bem afortunados nasDatas : 6c também os que metendo Ga-
do , 6c Negros para os venderem por mayor preço , 6c outros
géneros mais procurados , ou plantando , ou comprando
Roças deMilho nas M inas,fe foraõ aproveitando do que ou,
tros tirarão. Naõ fallando pois do grande cabedal 9 que ti-
rou o Governador Artur de Sá , que duas vezes foy a ellas do
Rio de Janeiro : nem dos que ajuntarão hua , duas , 6c três ar-
robas , que naõ foraõ poucos. Tem-fe por certo, que Baltha-
fa.r de Godôy , de Roças , & Catas ajuntou vinte arrobas de
Ouro. De vários Ribeiros, 8c da negociação com Roças,Ne- »
gros , & Mantimentos fez Francifco de Amaral mais de cin-
coenta arrobas. Pouco menos Manoel Nunez Viana , & Ma-
noel Borba Gato : 6c com baftante cabedal ferecolheo para
Saõ Paulo Jofeph Góes de Almeyda ■, 6c para o Caminho no-
vo Garcia Rodriguez Paez. Joaõ Lopez de Lima tirou do
{eu Ribeirão cinco arrobas : os Penteados de fuás lavras , &
induílrias , fete arrobas : Domingos da Silva Moreira de ne-
gocio , 6c lavra , cinco arrobas : Rafael Carvalho cinco arro«*
bas .Joaõ de Góes cinco arrobas : Amador Bueno da Veiga 3
do Rio do Ouro preto > do Ribeirão, 6c de outras partes , pi-
tei
&- OpulemiadoBrafiL
to arrobas. E finalmente deixando outros muito bem apro-
veitados : Thomás Ferreira abarcando muitas Boyadas $&
Gado , que hia dos Campos da Bahia para as Minas , & com-
prando muitas Roças 3 Sc occupando muitos Efcravos nas
Catas de Vários Ribeiros, chegou a termais de quarenta ar-
robas de Ouro , parte em íer, 8c parte para fe cobrar. Mas tra-
tando de cobrar o Ouro , que fe lhe devia , houve entretanto
queralhedeopordefgoftos húas poucas balas de chumbo >
que he o que fuccede naõ poucas vezes nas Minas,
Também com vender coufas comeftiveis , Agua ardente,
Sc Garapas, muitos em breve tempo accumulâraõ quantida-
de coníideravel de ouro. Porque como os Negros , & ós ín-
dios efcondem baftantes oitavas3 quando cataõ nosRibeiros>
& nos dias fari.tos , &:_ nas ultimas horas do dia tiraõ Ouro pa-
ra íi , a mayor parte deite Ouro fe gafta em comer 3 & beber:
& infenfivelmente dá aos vendedores grande lucro , como
coíluma dar a chuva miúda aos campos , a qual continuando
a regallos fem eílrondo , os faz muito férteis. E por iíTo àté os
homens de mayor cabedal naõ deixarão de fe aproveitar por
efte cam inho deíía Mina á flor da Terra , tendo Negras co-
zinheiras , Mulatas doceiras 3 & Crioulos Taverneiros 3 oc«
çupados nefta rendoíiílíma Lavra} &c mandando vir dos Por-
tos do Mar tudo o que a gula coftuma appetecer % Scbufcar.
K
CA-
■
I !
1
C A P I T u L O IX.
% obrigação de pagar a El-Rey noffo Senhor ~i
<jutnt& farte doOaro , qnefe ftra das Minas
do BrafíL
DE dous modos fepóde tratar cíle ponto:afaber, oir
pejoq pcrtenceaoforocxtefriòpelas-Leys, & Orde-
«açoens do Reyno :oh pelo que pertence ao fcàw interno, at~
tentando a obrigação em confeieneim
c. Quanto á primeira parte, conítapela Ordenação de Por^
tugalliv.2tit.26.^
/^.ym > £ M»* de ouro , & prata , & qualquer cutro metaU
íí. no titulo 28. do mcímo Livro 2. expreíTamcnte fe de-
clara : que nas Datasvou Doaçoens feitas ,. nunca fe entende-
jao comprehendidos os Veeyros , & Minas. Tor quanto ( diz
a Ordenação )em muitas doações feitas per Nósy&perosReys
mosjntecejjbresyfaa poftas algumas -claufulas muito mães.
&^l^mtu:de€larmas^e^taesdoaítíês9 & claufulas
ndlasconteudas^nuncafe entende ferem dados os Veeyros &
Mnas,de qualquer forte quefejao;fal™fe exprejfamente forem
nameadas & dadas na dtta doação. Epara aprefcripçao das
i^mmírtl *"* ^erUlle^r P'f* ^mlpWquefeja
Podendo pois El-Reyrirarà fua cufla das Minas, que re-
lervaparaii, osmetaes, que faÕ o fruto delias : attendendo
!lg yT,PraÍíí°íaóncceírarios' & querendo animar
aos léus VaíTaUos ao defçpbrimento das ditas Minas , & a par-
ticipa-*
y (
&* Opulência do WajiL i
ticiparém do lucro delias : aífentou, como fe díznotit. 34 j
do dito Livro 2. das Ordena çoens 5 quede todos os metaes, que
fe tirarem ^depois de fundido , & apurado , paguem o quinto, tm .
falvode todos os euftos»
E para fegurar , que fe lhe pagaíTe o dito quinto , man-
dou , que os ditos metaes fe marcafiem 3 & que fe naó pudef-
fem vender antes de ferem quintados 3 nem fora doReyno,
íob pena de perder a fazenda, & de degredo de dez annos pa-
raoBrafiliComoconftadoditotit. 34.^.5. E o que vender os
ditos metaes antes de ferem marcados, ou em madre antes Refun-
didos i perderá, a fazenda 3 &ferà degradado dez annos para o
Brajil. Até aqui a Ordenação.
E os Doutores , que falliraõ nefta matéria , aífi m Portu-
guezes, como de outras Naçoens, afíirmaõeoncordemen-
te , ferem de tal forte as Minas do Direito Real , por razão
dosgaftos, queEl-Rey faz em prol da Republica -3 que por
efta caufa naõ os pode alienar.Veja-fe entre outros Portugue-
zes Pedro Barbofa ad L. Divortio §. Si vir íF.foluto matri-
monio à-n. 17. ufque ad 2 1 . Cabedo parte 2.decif. 5 5 . de venis
metallor. Pegas adOrd.RegniPort.lib.2,tit. 28.11.24 comoj
Authores de outros Reynos 5 que allegaõ : particularmente a
Lucas da Penna L. Quicumque. defertum col. 2. poft princi-
1 pium Cod. de omni agro deferto 9 Sc RebuíFo tom.2.ad 'legefc
Gallix tit. ut beneficia ante vacationem ari. 1 . gloífa nlt. poífc
médium pag.346. E alem deites veja-fe Solorzano de Indiar,
Gubern.tom.2.1ib.i.cap.i3.n. 55.8c lib.5.cap.i.n. 19.com ou-
tros m uitos , que traz : o q uai d i z , ferefte o çoftii me de todas
as Gentes. §[uade caufa (diz di£to n. 55 . ) metallorumfodien^
dor um jus ipfi Romani '3 érpoftmodum alia Gentes inter Rega-
lia computârunt, & proprie adlocorumfapremos Principes per*
tinerefanxerunt,
E porque nefta matéria bem he ouvir também aos Theo-
Jogos ., feja.0 primeiro o P. Molina de Juílit, & Jure difp. 5 4*
K2 tam
1
- 1
tam verfado no Direito y como na Theologia } Sshàmm par-
ticularméte no Direito de Portugal. Regulariter(diz eíle) de
jure civjli5vel cõmuni, vel particularin Regnorum, ubicumq
vcnaemetallorúfuerintrepertae,«ímtòfolent ene deputatx
lnncipi> autReipublicxadmmptlTs públicos , oneraque
Reipublicx fuftinenda : unde jf . 16. tit.26.lib. 2. Ord.Lufita*
^xKegniCichabailtem Direito Real he os Fèeyros f & MU
nas de ouro , & prata, oti qualquer outro metal Ut tamen lucri
fpehominesallicianturadeas in bonum publicum quxren-
das , & aperiendas * ftatui íblent varix íeges pro temporum
& locorurn varietate , quibus vel pars aliqua eorum , qux in-
de fuerint extrada , veíprxmia alijs inventoribus confti-
tuuntur. Ein terminis pela Ordenação de Portugal diz : Cõ-
ceifam , & ítatutum eft , ut deduftis expenfis , quinta metal-
lorum pars, qux inde extrada fuerit yRegi perfol vatur.
O Padre Vafquez in Opuículis Moralibus deReftitutio-
uecap. 5. JT 4. dub. 2.fallandodoReynode Caítelladiz : In
noftro Rxgno applicatafunt património Régio quxeurnque
Mineralia , ubi metallá fíunt argenti, auri, & argenti vivi per
U.Recop.tit. 1 3.I.4. Sed quo jure ( diz elle ) Rex potuerit fi-
biapplicare Mineraliaomnia, in fundis etiam privatis pro-
creara , nullus Authorum dixit , quos cita vi. Mini videtur ad
hxcdicendum, quòd quamvis Mineralia jure naturaliíint
dominiipfiusagri ; potuit hoc jus Mineralium ab antiquo
eíle indu&um , quodfint Regij Patvimonij : eâ enim conditio-
nepotuérunthujusRegniterrx, & prxdia diftribui, ut ta-
men Mineralia Regibusrefervatamanerent, fuo Patrimoniê
mnumerata.
E a meíma razaõ dá Molina de Juft.&Jure difp.f 6. jT.ult.
por eftas palavras. Lieèt enim ftando in foloGentiumjure,
ca inventa 3 qux domino carent , fint primo occupantisi nihi-
lominus,quemadmodumjuscivile ftatuerepotuit, ut qui
cafuthefaurumin agro alieno inveniret; in interiori, &êx*
terion
■»
C> Opulência do¥>raftl «4»
terlorl foro teneretur tribuereilliusdimidiíim domino ágri $
qtiiveròillumdeinduftriâ inveniret, teneretur tribuere eí-
demtotura : curetiamnon poterit fimih modo ftatue*e,, ut
adfuftinendaReipublic* onera, thefauri, qui demcepsrn-
venientur, pertineant integri ad Regem, aut ut in ilhs cerram
aliquamhabeat partem ? Nequeemmideft ftatuere aliquid-
contra jus Gentium* fed rationabili ex caufa impedire, ne
dominium theíauri inventi fit alicujus , cujus eflet *\m&*m
folonaturaliacGentiumjure; cfficereque ut fit alteriusiid
quod poteft optimèRefpublicafacere> non fecusac efiicerc
poteft ; ut venatio aliqua iilicita fit , quae , ftando in fojo jure
naturaliacGentium, eíTet licita 5ut difp.43.oftcniumeit.il*
pelaméfmarazaõ fe ha de dizer o mefmo das Minas, ainda,
que foífem achadas em Terras de Particulares.
E quando nao baftaífe efta razaõ /que certamente he tor-
çofa;o Cardeal de Lugo in tradatu de Juftitia 8c Jure tom. 1 .
difp.é.fea. lo.n. io8.moftra , que El-Rey pode refervar pa-
ra fi as Minas (ainda que fe achem emTerra de Particulares^
por modo de tributo , & tributo muito bem pofto , mandan-
do, que fe lhe pague algúa parte do que fe tirar delias, para
os gaftos da Republica. Et de fado (diz) jure humano fo~
lent hujufmodi Mineralia , quoad aliquam faltem partem
maiorem, vel minorem, Principi applicari; quoad aliam vero
inventori : quod quidem fieri potuit , vel quia ab mitio agri
eâ lege fin^ulis in ea Província diftributi fuerunt, ut Minera*
liaPrincipis difpofitioni refervarentur , ut vult Vafquez de
Reftitutionecap.f.iT4.dub.2.n. 17. vel cera per mdumtrt*
buti i ficut poteft Princeps ad fubfidkim & fumptus públicos
alia tributa exigere. Aliunde vero juftificatur non pa rum ille
modus tributi ex eo , quòd cum Aurum 6c Argentuni ímt
potiílimxReipublicx vires j non expedit, quòd in íjs Prin-
ceps ipfe, ôctotaRefpublica dependeat à duobus, vel ta-
bus privatis, quifolieametallain fuis prxdijs colligant , aç
1^ ■* conecta
RI -.<!
2 * Xthiiwi & )
colleaarefervent, & ad nutum diftribuant
n,V n i confiderem P°is « Minas comoparte do Patrimcv
bio Real, oucomojufto Tributo para os gaftosero p ddt
Republica, heeerto, quefedeveaEl-Rey o que paFafirí
ír'frrhClqTparteí0uro ' q«e dellasfet a^
pi.ro & l'vredetodoSosgaftos:&q„eoquefemandanaS
deve nafi^ntqUalqUer P6na ', ° VÚnto ex natum "»" fe H*
dooa5ra hZn r' qUMUKO ^^^^jufto tributo , ordena.
t«E W 1?"ePubIlca » ou c°™° cobra a pcnfaõ, que im-
põem febre qualquer outra parte do feu Património? coZ
he a que fe lhe deve , & fe lhe paga dos Feudos. *
• li galguem diíTer , que de outra forte fe ha de iuW daff
Minas do Brafi , que das do Reyno de PortugaliPor Ir mais
certo o direito do domínio, & poflequecom^ aEl Rey
exam^^fePOrtngaUqTO°dasCA«iftasLBrafiS
rSX ç ?,ngJemJ merecer£ como temerário a mefm»
reporta que fajlando dasConquiftas das índias Occiden-
> andr^V? T^f* ?&** Pd° Summ° Pontifi« Ali
J-andre VI. derao, depois de tratarem efta matéria com An-
gular doutrina & attécaó, Varoens doutillimos em feusTrâ-
át?hòS d°aScBuI,aS'p&P°?derand'3' & examinando
™ °? dade do Summo fowifiee para femelhantes doa-
çoens;&os^ftos de asfazergm. d.zendo uk.ma_
meme , que ja fe nac > devia permirtir o por-fe ifto em duvida .
cub Hr aT^ d° Vigari° de Chrifto na Terra , dada &
fílnK g,t™amente'JdeP°is «^maduro confelho, &
K'iH Tr °°T Pedla a»«eria, & defendida porju-
ita,vauda, & licita de tantos, & tam infignes Doutores
1 aSolorzano de IndiarumGubernationetom. r. lib. Iffi
ípwron™ AIendanhoinThek«ro Indico tom. t.tit.t.cap.
„;K°™ j ^Pl^Pueir.^num.i/. aonde também diz.
qucMafcardomTraftatude judxis & Infidehbus t Pa«é
cap.14. '
BH
&- 'Opuhticta do <Bra/í!. i
cap. 14" naó duvida affirmar , que o poder do Papá para tal
doação he tam cerco > que dizer o contrario parece que tem
fabor de herefia: o que o mefmo Avendanho explica em que
fentidofe deve entender.
E que mereça a mefma repofta quem diífero mefmoda
Conquifta doBrafil,ninguem o poderá negar com razaõrpof-
fuindo os Reys de Portugal pelos mefmos titulos o Braíll,
& as outras Conquiftas , pelos quaes todos eííes Authores ,
Solorzano, 6c Avendanho , 6c outros doutiííima , & folidiíli-
mamente provaõ o legitimo dominio , 6c pofíe , que compe-
te aos Reys de Cafteíla , das índias Occidentaes, como con*
lia pelas Bulias dos Summos Pontífices Callifto III. Nico-
lao V, 6c Alexandre VI. que fe aeharáõ no mefmo cap. 24. de
Solorzano defde a pag. 344. atè a pag.3 5 3 . & em todo o Li-
vro 2. do dito primeiro tomo delndiar.Gubern. que coníta
de 25 . Capitulos ; & no terceiro , que confta de 8. aondecom
fingular erudição prova unicamente ajuíliça , com quefe
acquirio , 6c fe conferva o dominio , 6c poíTe deitas Con«
quiftas.
E fallando o mefmo Solorzano , no fegundo tomo lib. f J
cap. 1 .em particular das Minas , 8c dos Metaes , que delias fe
tiraõ, num. 19. diz, que aííim nas índias, como em qualquer
outra parte pertence ao Direito de El-Rey , como íeu Patri-
mónio , 6c parte do feu fupremo dominio , quer fe achem em
lugar publico,quer em Terras, ou Fazendas de Particulares;
de forte , que nunca fe entendem com prehendidas nas datas -,
Sc doaçoens , ainda que geralmente feitas , fe íe naó fizer ef.
pecialmençaõ delias. E para confirmar o que diz , traz vin*
te 6c quatro Authores, que tratarão de Regalibus , de Me-
tallis, 6cdeJureFifcij ou interpretarão o Capitulo 1. Quae
fint regalia , ou a Ley %. Cod.de Metallar. Diz também num.
20. que por razaõ dos gaftos , que faõ neceíTarios , para tirar
os Metaes dasMmas deftasConquiftas,contentaõ-fe os Reys
'":"' .":"" K4 com
ÍH*
111
com que fe lhes pague a quinta parte do Metal, quefetirar:
pronibindoufardelle atènaõfer mareado cõ o cunho Real*
para que confte, que fe pagou a quinta parte. E porque po!
dia haver duvida 3 fe efta quinta parte de Metal fe havia de
entender como vem da Terra naõ limpo, & fefehaviaõde
eomprehender nella os gaftos , oufe fe havia de dar livre deí-
ies5traznonum.i6.aordemdeEl-Rey de i^.quedecidio
ambas as duvidas por eílas palavras : El quinto neto , y fin
éefcuento de cofias, puefio en poder dei mtefiro Teforero , o Re*
•eeptor : que he o que também diz a Ordenação de Portugal
-t1t.34.do Livro 2. Depois de fundido > & apurado, paguem o
qwnto emjalvo de todos os eufios,
fe Nota mais Solorzanonum.27.do dito cap. 1. do Livro f.
que quando fe falia de frutos da Terra , fe entendem também
©s Metaes; allegandopara iíTo a Joaõ Garcia de expenfis cap.
22.n.47.LazartedeGabell!S€ap.i9.num,59.Barbofaindiaô
tf. Si vir, L.Divortio ff. foluto matrimonio, Marquech.. de
diviíionebonorumlib.2.cap. 1 1. num. 23.&feq. Cabedode-
cif. 81. num. 2. parte 2.Gilken de expenfis metaílorum in L>.
Certum Cod.de reivendicát.Cap.5.pag.722. Farinac.quíeft'
xo4.num. 62. ..& 63. Tufch. verbo Minera>com\. 237. & ver-
bo Pr^ventio 3 aonde trata de como as Minas ,. de quemquer
que fe oceupem , fempre paífaõ com fua obrigação. Nxvius
in Syftem. ad L. 2. Cod. deMetallar. Fancirolus in Thefaur
«D-3-cap. 31. pag. 214.327.ee 372. Maríil.fmgul.53i.& Me.
íioch.conf.798.ánum.i6.Eque€onfequentemente,comoos-
outros frutos da Terra , eftaõ fujeitos ao dizimo , que os Pa-
pas -oncedèraõaos Reys de Portugal, & aos de Caftella:ut
ex L.^un£fr Cod.de Metallar.Butrius , &: aíij m cap. Ferve-
»/ídedecimis,ReburTusquxft.io.num.23.&:24. & Solor-
zanodelndiar. Gubern.tom.2.1ib.3.cap.2i.num. io.pofto
que os Reys í como diz o mefmo Solorza no ) naõ tratem de
cobrar, efte^dizanqs dos Minemos, contentando-fe porra- (
zaõ
mm
&- Opulência Hú ^BraftL 1 5 j
£aõ dos gaftos com que lhe paguem a quinta parte do ouro,
6c prata que tirão de íuas Minas , que faó parte do feu Patri-
mónio, 6c parte fempre refervada3 como eílà dito.
Panando agora ao outro ponto , em que fe pergunta , fe
cita Ley de pagar a El-Rey a quinta parte d&Ouro que fe]ti-
ra das Minas , obriga em confciencia : Digo , que a refoluçaó
deita duvida depende de tirar húa falia imaginação de alguis
menos attentos , 6c accelerados em refolver : os quaes por ve-
rem , que efta Ley heacompanhada da comminaçaõ da pena
daperda da fazenda 5Sc do degredo por dez annos , 6c de ou-
tras pelo novo Regimento acerca das Minas do Braíil , cui*
daõ que he Ley meramente penal , 6c que como tal naó obri-
ga em confciencia , nem antes da fentençado Juiz5 aos traní-
greflbres delia , conforme o com mum fentir dos Theologos,
Sc Moraliftas r que trataõ das Leys , Ôc em particular das
penaes. . . e ,
Porém o P. Franeifco Suarez examinando mais proíun«*
damente ( como coftuma ) efte ponto no 5 . Livro de Legi-
bus cap. 15. à n, 2. refolve , que as ímpofiçoens , 6c penfoens ,
que fe pagaõaos Reys ,. 6c Principes por coufas fuás imitio-
reis , 6c frutos delias , faó tributos reaes , & naturaes y funda*
dosemjuftiçaj porque fecobraõ dercoufas próprias dos di-
tos Principes y aos quaes fe deraõ para a fua fuítentaçad } 6c
ellesas deraõaosfeus VaíTallos com obrigação de lhes paga-»
rem eftas penfoens : 6c que por iflo as Leys que mandão pagar
eftas penfoens , ou tributos , ainda que fe lhes ac recente algfm
pena , fem duvida naó fe podem chamar , nem faõ puramen*
te penaes, mas difpofitivas , Sc moraes : aíTim Como faõ as cá*
vencionaes^ntre Partes , que para mayor firmeza admíttent
pena entre os Contrahentes, para que fe guardemos contra-
tos , 6c as promeflas de fazer , ou de pagar qualquer divida?
que aliunde de jufíiça fe deva. E que confequentemente eftas
>. JLeys obrigaó em confciencia a pagaivtaes penfoens , Sc tribu.
r .
«54 Cm..
tos inteiramente; 8t efpontaneamente, & fcm diminuição-
alguma, ou engano, ainda quefe naõ peçaói porque fe S
de juíhça comutativa , que traz comigo eftí intrinfeca obrt
SSSJSfe P^oetncontraà Atéaqui oP.£.
E deite fundamento certiffimofe infere também certa-"
1U, íe devem a Ll-Rey em confciencia : & que a Lev feita oa.
que traga annexa a commmaçaó da pena contra os tranf
greffoms , mas que he Ley difpofitiva ,& moral" & que obril
Í„ $? í **? ProVado •» Pnmeira parte defla queftaó)
Senhor Jegttimo das Minas., pordoaçaõ, que lhe fez delias
ComaConqu ftadoBrafdoSummopL^ce, &portoS
ftomóTTtl '^^^«^SolorzanoemtodooLfvrò ° do
J.tomodelndiar.Gubern. communs aos Reys dePortueal
to Real ,& parte dofeu patr.mionio,como quaefquer outros
Jxns, que fe lhe deraó para a fua fuilenfaçaó, & gaL que faZ
|m proldaRepubhca, Scparaaconferv^ó I aumSa
«n'^1 Vín ^/n™ fVem t0daS asdatas • nem d^do li.
cençadet.rarOurodellaS,fenaó com condição , que quem .
0 tirar lhe pague a quinta parte do que tirar , puro 8c defeca.
rni?- J- ^ Ͱd°S °S gaft<? \& Prendo pertender ifto
(prefcmdmdodos outros titulos)porjufto,&6em ordenado
1 nbuto , comoeftaprovadoxró as razoes , & authoridade de
ía»s D°"K>res ac'ma alegados : claro eftá, q efta obrigação
elta tudada em juftiça comutativa , como a de quaefquer ou-
tros paitos, Sc promeíTas de qualquer outrojufto contrato,á
çoltumaõ admittiroscontrahentesemiuas convencoens • Sc
que ainda que aLey naó acrecentafle pena aos transgreuores,
iempre deyjaõ pagar eltes quintos, por fer obrigação inrrin-
feca '
r— i
nm?
PT?
& Opulência do TZrajil. 1 57
feca : Sc que crporlhe a pena, he para facilitar mais a cobrança
do q fe lhe devej Sc naõ para fazer húa Ley meramentepenal.
Nam adje&io pcenoe ( diz Suarez n. 10. ) noa tollit obli-
gationem , quam eadem lex , prseciíe lata fine pcena, indu-
ceret in confcientiâ : ergo licèt illi addatur poena 3 obligat per
feadtributumperfol vendiam, vel reftituendum (fi contra
juftitianinonfitfolutum ) abfqueulla condemnatione , vel
fententia, etiamfi tune nemo obliget ad poenx folutionenx
antefententiam , juxta generalem do£trinam datam de lege
pcenali. E declarando ifto mais diz y que eíla Ley he mifta ,
©uquaíi compofta de tributo^ Sc de pena} Sc que fe ordenaõ a,
diverfos fins a impoíiçaõ da penfaõ ou tributo^Sc a pena , que
fe lhe acrecenta : porqueo tributo fe ordena á fuftentaçaó de
El-Rey, ou afatisfazer á obrigação natural , que tem os Vaf-
fallosde dar jufto eftipendio a El-Rey , que trabalha em prol
ck Republica: Sc a pena fe ordena a que fe cumpra eíià obri-
gação , 5c fe caftigue quema naõ comprir como deve .-logo
ainda que o? tributo , ou penfaõ fejajufta , 5c adequada ao
feu fim ,8c a obrigação fique inteira > juftamente fe lhe acre-
centa a eommioaçaõ da pena ,. 6c juftamente fe executa, fe
bouver culpaa alem da inteira cobrança do tributo. AffirAco»
monas penas, que de comum eonfentimento fe põem pelos
► contrahentes emalgú jufto contrato, fe pode juftamente obri*
gar o violador da promefla feita no contrato a q pague a dita
pena , alem do interefíe , & dana, q da tranfgreflaõ le feguio,
E diz 3 que o-mefmo fuccede no noío cafo : porque fe faz co-
mo hum contrato entre El-Rey, Sc os VaíTallos, para que
El-Rey os governe , Sc os Súbditos o fuftentem com os tribu-»
tos 3 Sc peníòens . E para fegurar que fe paguem , pode acr$~
centar-felhe apena -, a qual naõ diminua a força 5 & obriga-
f aõ do contrato-, mas írrva de húa nova coacção } para que os
Súbditos paguem oque por juítiça lhe devem, Àtè aqui o P,
i^uarez no dito cap^i 3 .n. i o.
íí
I
■ •
íf* r Cultmài
E ifto parece ^que bailava para moftrar que õs quintos M
Ouro , que fe tira das Minas do Brafil, fe devem em confcien-
cm, & antes da condenação , ou fentença aEl-Rey NqíTo
Senhor de juftiça , & naõ por níía Ley meramente penal ^ co-
mo alguns erradamente imaginaó. Acrecentarey porém ou-
tros motivos para eftabelecer mais efta IRefoluçaõ. E feja o
primeiro, que efta Ley dos quintos (como advertio Aven-
danho in Theíauro Índico tom.i.tit. 5.cap.8.n43.)he muito
racional , pela razaó , que traz Molina difp. 5 6.âe Juft. & Ju-
re, §. ult. & vem a fer : porque eftá poftoem razaó , que o
l rincipe.tenha alguma parte mais, que os outros particulares
em coufas de preço fingular , como tem em outros bensj ain-
da quando pareceria fer melhor dálias ao publico. E alCrn ,
faltando os Parentes atè certo grão 9 os bens dos que morrem
ab inteftato vaô ao Fifco Real : m em pena de alguns crimes,
logra El- Rey de tal forte os bens confifcados , que fe alguém
por Parente , ainda que muito chegado do Reo , os tiraíTe ao
^i.fco5peccaria contra a juftiça, com obrigação de os reftav .
tuir. Logo quanto mais fe ha de dizer o -mefmo , quando o
refervar os quintos doOurofe ordena naõ fomente á fuften*
taçaõ deELRey,, mas também aos gaftos em proveito da
Republica , & para a cojifervaçaõ^ & aumento da Fé 5 fican-
do aos Mineiros o mais do Ouro , de que fe tiraó os quintos? 1 <
I Segundo. Porque Filippe II. Rey de Caftella , depois
de ter ouvido o parecer dos Theologos , .& Confelheiros di
índia, cfcreveo refolutamente ao Viío-Rey do Peru o Conde
deV illar no anno de 15 84-defta forte : Tpudierayo cobrar en-
feramente el quinto de todo ellv : (aíaber , do Ouro, & Prata
lavrados ) y las Per fonas , que le deben , efian. obligadas en con*
ciência ame lo pagar. O que naó diria de fua cabeça , contra o
carecer dos ditos Theologos, & Confelheiros , íe aíllm o nao
tjveflTem entendido, como refere A vendanho no ditocap. 8.
n. 44. & traz logo em confirmação difto a Ley de Portugal f
pel^
«M
&Opyknciado(Brafil. 157
pela qual (como diz o P. Rebello) fe devem os quintos a El-
Rey , antes da condenação ou fentença. Diz mais Ayenda-
nho em prova de que fe devem os quintos em confciencia ,
queaaímotemmaisdevinteAuthoresquealléga : entreos
quaes faó Vafquez > Molina, Lugo, Rebello , Azor , Leííio,
Caítilho,Fragofo, Sc outros quinze , todos da mefma. opi-
nião. Edealgims quero citar as palavras, para que melhor
coníteda verdade , & da authoridade das Peííoas , que a-flim
fentem. . : *
1 Vafquez in tra-ft. de Reftitutione cap.5 . jT 4-n- 50iait : Ar~
bitror,quòdpr2edi£fex leges non fundentur in prxfumptio-
ne, nec pcenales fint : & ita nullâ expe£tatâ fententiâ funt ob«
fervandx. Et n. 29. citat Covarruviam , Caietanum ■> ôc Na*
varrum ita fentientes. ;
Lugo tom. r.dejuílitia&juredifp.ó.feíí;. ii.n.i^i.diz:
Âlix autem leges, qu^ poenales non funt, potuerunt quideim
transferre dominium in Fifcum .* ôc ideò videntur in con-
fcientia obligare ante omnem fententiam judieis.
Molina di£ta difp.5 6.de Juítitia ôc Jure J.ultábi '■: In wte*
riori , & exterioriforo.
Terceiro. Porque do O uro, 6t da Prata fe deve pagar a
Dizimo, cfomefmo modo que dos outros frutos da Terra ,
como eftá provado acima com os Authores que traz Solor-
zano tom. 2. lib. 2, xap. 2 1 . n < 1 o. U o prova também o P .Sua-
reztom.i.deReligionelib. 1. de divino cultucap. 34. n. 3.6c
&& o P.Tancredi tra&. 1 .de Religione Jibd . difp. í 1 . n.7 . ex
omnium méte:ôc fe infere ex generali difpoíltione in cap.Ná
eft, de decimis,ubi illa habentur verba .* Deommbus hórnsde^
cimafuntmimftris Ecclefiambuend^iSc ex cap.Tranfmiíras
êcexcap.Tuanobis. Tendo pois os Sumsnos Pontifices da-
áo os Dizimos do Brafií,ôc de outrasConquiítas aos Reys de
Portugal , pelas defpezas que fazia6 , ôc fazem nas meímas
eoiaquiftas;, & pelos-outíos motivos, qallegáoemfitòsBuk
fel
**-
mà II
■1
11
I
■ I
■Wfi '
J$% Cultura,
Woquépodiaofazer, Scdefafto o fizeraô a outros Revi
&Principes, pelas razoens, Scauthoridades, quetrazerul
d.tamemeSolorzano.com as mefmas Bulias, tom. 2.deín-
°'ftfT hy'hC&p- "* fe"ue-fe > 1™ <*mb™ & lhes dl
ruo^ielheshaodepagarOsDizimosdoOuro, & Prata,
que das minas do Brafil fe tirarem :& qne affim eftes , como
os Dízimos dosoutros frutosda Wfe lhes deve em cont
fíTnnr f V d° **• MÍMS dos Reys » untando aos ga-
o S£ £le™r tlrar °S Metaes • naõ trato» ^ cobrar
fnllTr ' a c°teBtem coni a Penfao, ou tributo do Quin-
^íon 4 P°t Cíí dlzerrlg°rofos » »* antesbenignos ,com0
™ A/W°d^°"oh'gMc^°^-45-comFlgofôtom.
i.pag.265.i-.AliJaddunf. T7 5
m fií . c? £ fegue' 1ue ° dizer 1lie os Quintos do O w
ro feaeyem a El-Rey em confciencia , he a opinião verd.dei-
teTSTrTf mds feSUra' affiffi Prfos motivos intriu-
tecosdosfeusfUndamentos;particularmente pelos quetraz
th™- ví1TZ/"Sa referÍdos ' como PeIos extrinfecos da au.
thoj idade dos Doutores alkgados , quefaóTheolosos de
grande doutrina , & ReUglí> deixaJ0 „ ^^ £££
muito duvidofa , muito fraca , & nada fegu ra. E que os Offi-
çiaes deputaaos por RURey á cobrança dos Quintos, & a cu-
h™ * fl ? ' tem °°fW* iô Srave em confciencia , de fazer «
bem ,& fielmente o feuoflicio i & que naó podem diffimu^
fe? graviffimos prejuízos , que fe fazem ao Património
Real, defraudadopor culpa delles, de muito lucro ; rece-
bendoeíhpendio do mefmo Rey , que tem a fua tencáó bem
tundada, para que com fidelidade façaÓ feu oflicio. ItaAven-*
QantlOn.48»
- Q qual porém M6. hede opinião, que a prohibiçaõ de
negoaarcomOuroempó, naõ obriga em confeien cia, co-
mo obriga a Le y de pagar os Quintos ; mas que o dito Ouro
empo.p^ila cora a mekna obrigação de ler quintado a quem
quer'
Ci> Opulência dó Bra/il. i$>
«|tierquevay, até íè fatisfazer a eíta intrinfeca obrigação. E;
com ifto mais fe confirma o que eftá dito daLeydosQun>
tos, por fer difpofitiva, •&• penal ; porque em quanto be dif-
poíitiva do que fe deve de j uftiça a El-Rey , que faõ os Quin-
tos ^ obriga em confciencia : & em quanto he penal , faz que
a pena dos transgreflbres náó fe deva em confciencia, fenaó
depois da fentença. Em húa palavra: o Quinto femprefe de-
ve de juítiça; ôc a perda dafazenda,^ o degredo,ió poíl fen-
tentiam. :
CAPITULO X.
'Koteiro do caminho da fâllade Sati Paulo para
4& Minas Germes, ©^ para o Rio das
f^elbas*
Àílaó comummente osPauliftasdefdeaVílía de SáÔ
J Paulo até as Minas Geraes dos Cataguâs pelo menos
» dous mezes : porque naó marchaó de Sol a Sol, mas até o mè-
yo dia j & quando muito até húa , ou duas horas da tarde : af~
ílm para fè arran charé, como para teré tépodedéfcançar,$:
de bufcar alguma caça , ou peixe , aonde o ha , mel de pao, Sc
outro qualquer mantimento» E deita forte aturaõcomtam
grande trabalho. -
■ O Roteiro do feú caminho dèfdè aVilla dè Saõ Paulo até
a Serra de Itatiaya, aonde fé divide em dous j hum para às
Minas do Coatê, ou Ribeiràõ-de NoíTa Senhora dó Carmo,
■& do Ouro Preto •, & outro para as Minas do Rio das Ye*
lhas i he ofeguintei em queie apontaé es3>ouíòs>& paragens
1
■li
HII
160 Cultura 9
do dito caminho, com as diftancias que tem , Sc os dias que>
pouco mais ou menos fe gaftaõ de húa Eftalagem para outra ,
em que os Mineiros poufaõ , & fe he neceííario defcançaõ . &
fe refazem do quehaòmifter 3 ôc hoje fe acha eni taes pa-
ragens.
». No primeiro dia fahindo da Villa deSaõ Paulo vaõ or-
dinariamente a poufar em Noíía Senhora da Penha , por fer
{. como elles dizem) o primeiro arranco de cafa : Scnaóíaó
mais que duas legoas.
Dahivaõà Aldeã deTacuaquifetúba, caminho de hum,
jdia. '.-....
Gaftaõ da dita Aldeã atè a Villa de Mogi dons dias.
De Mogi vaõ ás Larangeiras, caminhando quatro ou cin-
co dias atè o jantar.
Das Larangeiras atè a Villa de Jacarey hum dia até ás
três horas. |
De Jacarey até a Villa de Taubatê dous dias até o jantar,
DeTaubatêaPindamonhangâba,Fréguezia de NoíTa
Senhora da Conceição, dia & meyo,
DePindamonhangâbaatéaVilla de Guiratínguetâ cin-
coou féis dias atè o jantar.
De Guiratínguetâ até o Porto de Guaipacarê , aonde fi-
caõ as Roças de Bento Rodriguez , dous dias atè o jantar.
Deitas Roças atè o pé da Serra afamada de Amantiquíra,
pelas cinco Serras muito altas , que parecem os primeiros
Muros 3 que o Ouro tem no caminho^ para que naõ cheguem
lá os Mineiros, gaítaõ-fe três dias atè o jantar.
Daqui começaõ a parTar o Ribeiro 5 que chamaõ PaíTa-
vinte , porque vinte vezes fe paíTa } & fe fobe ás Serras fobre-
/ditas : para paífar as quaes 3 fe defcarregaó as Cavalgaduras,
pelos grandes rifcos dos defpenhadeiros s que fe encontrão:
.6c a (Tini gaftaõ dous dias em paílar com grande difficuldada
eftas Serras -, 8c dahi fe defcobrem muitas , Sc aprazíveis ar-
vores
& Opulência do TSrafít. i £i
,VoresdePinhcens,que a íeu tempo daõ abundância dellei
para o fuftento dos Mineiros, como também Porcos monte*
zes , Araras, &Papagayos. o- ^ \ .
< ■ Logo paflando outro Ribeiro que chamao Faíia-trinta ,
porque trinta & mais vezes fe pafla , fe vay aos Pinheirinhos:
lugar affim chamado, por Ter o principio delles : & aqui ha
Roças de Milho , Abóboras , & Feijaõ , que faõ as Lavouras
feitas pelos defcobridores das Minas , & por outros, que por
ahí querem voltar. E fó difto conílaó aquellas, & outras Ro-
ças nos caminhos , & paragens das Minas : &. quando muito,
tem de mais algumas Batatas. Porém em algumas delias ho-
je acha-fe creaçaõ de Porcos domefticos, Gallinhas , & Franw
çãos , que vendem por alto preço aos Paflageiros , levantan-
do-o tanto mais, quanto he mayor a neceíTtdade dos que paf-
faó. E dahi vem o dizerem , que todo o que paflbu a Serra d©
Ainantiqulra, ahi deixou dependurada , ou fepultada aconk
cLonciâ. ' T
Dos Pinheirinhos fe vay á Eftalagem4o Rio Verde , eni
oito dias , pouco mais , ou menos , até o jantar : & efta Efta la
gem tem muitas Roças, •:& Vendasde coufas comeftiveis,
íèm lhe faltar o regalo de doces. ? i
Dahi caminhando três ou quatro dias , pouco mais , ou
menos, atè o jantar, fe dá na afamada Boa Viftaj a quem bem
fe deo efte nome , pelo que fe defcobre daquelle Monte , que
parece hum Mundo novo, muito alegre : tudo campo bem
eftendido,& todo regado de Ribeirões , hunsmayores que
outros j & todos com feumatto, que vay fazendofombra,
com muy to Palmito.que fe come, & Mel de pao, medicinal,
êcgoftofo. Tem efte Campo feus altos, & baixos > porém
moderados : & por ellefe caminha com alegria; porque tem
os olhos, que ver, & contemplar na profpediva do Monte
Caxambu , que íé levanta ás nuvens com admirável altura.
Da Boa Vifta fe vay i Eífcalagem chamada Ubay, aonde
• t -, L tam-
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|?l Cultura ,
também ha Rofas:&feráõ oitodias de caminho moderado
tteojantar.
Do Ubay , em três ou quatro dias vaõ ao Ingay.
■ Do Ingay , cm quatro ou cinco dias fe vay ao Rio Gran:
de } o qual quando cftá cheyo j caufa medo , pela violência
com que corre : mas tem muito peixe , & Porto com Canoas
& quem quer paliar, paga três vinténs : & tem também perto
luas Roças.
Do Rio Grande fe vay em cinco ou féis dias ao Rio das
Mortes, aífim chamado pelasqnelle fefízeraõ.-ôceftahea
principal Eftalagem, aonde os Paflageiros fe refazem , por
chegarem jà muito faltos de mantimentos. EnefteRio, 6c
nos Ribeiros, & Córregos, que nelle daó , ha muito Ouro,
Sc muito fetem tirado , & tira : & o lugar he muito alegre , Sc
capaz de fefazer nelle morada eftavel, fenaõ foíTe tam lon-
ge do Mar.
Deita Eftalagem vaõemfeis ou oito dias ás Plantas de
Garcia Ro driguez.
E daqui , em dous dias chegão á Serra de Itatiâya.
Defta Serra feguem-fc dous caminhos : hum , que vay a
'dar nas Minas Gcraes do Ribeirão de NoíTa Senhora do Car-
mo , Sc do Ouro Preto -, Sc outro , que vay a dar nas Minas do
Rio das Velhas : cada hum delles de féis dias de viagem. E
defta Serra também começaõ as Roçarias de Milho , & Fei-
jão , a perder de vifta, donde íe provém os que afHftem , & la-
vraõ nas Mina».
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& Opulência do Jira/S. x <S)
CA PITU LO XI.
Roteiro dó Caminho velbo da Cidade do Rio
Janeiro fará as Minas Geraés dos Ca*
tagvâs}& do Rio das^ falhas. (
EM menos de trinta dias , marchando de Sol a Sol , po-í
dem chegar os que partem da Cidade do Rio de Janei-
ro ás Minas Geraes : porém raras vezes íuccede poderem fe*
fuir efta marcha 3 por fer o caminho mais aípero , que o dos
'auliítas. E por relação de quem a ndou por elle em compa-
nhia do Governador Artur de Sá, he o feguinte. Partindo aos
23.de Agofto da Cidade do Rio de Janeiro foraó a Paratijs.
De Paratijs a Taubatê. De Taubatê a Pindamonhangâba.Dc
Pindamonhangâba a Guaratingaetâ. De Guaratingaetâ ás
Roças de Garcia Rodriguez. Deitas Roças ao Ribeirão. E
do Ribeirão com oito dias mais de Sol a Sol chegarão ao Ria
das Velhas aos 29. de Novembro : havendo parado no cami-
nho oito dias em Paratijs i dezoito em Taubatê 5 dous em
Guaratingaetâ ^ dous nas Roças de Garcia Rodriguez ; 8c
vinte ôc íeis no Ribeirão y que por todos laó cincoenta & féis
dias. E tirando eftes de noventa 8c nove , que fe contaõ defdc
23.de Agoftoate 29. de Novembro 5 vieraò a gaitar neil:ec%
minho nao mais que quarenta ôc três dias.
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C AP I T U LO XII.
Roteiro do Caminho novo da Cidade do Rio de f 4+
neiro fará as Minas.
PArtindo da" Cidade do Rio de Janeiro por terra com
gente carregada, & marchando á Paulifta , a primeira
jornada fe vay a Irajá : a fegunda aoEngenho do Alcaide Mór
Thomé Corrêa : a terceira, ao Porto do Nóbrega no Rio
Iguaçu 5 onde ha pafiagem de Canoas, &: Saveiros : a quarta,
ao Sitio , que chamaõ de Manoel do Couto.
E quem vay por mar em embarcação ligeira , em hum dia
fe põem no Porto da Freguezia de NoíFa Senhora do Pilar:
&c em outro, em Canoa, fubindo pelo Rio Morobaí acima ,
ou indo por terra, chega pelo meyodia ao referido Sitio do
Couto.
Deííefevay à Cachoeira do Pé da Serra, &fe poufa cm
ranchos. E daqui fe fobe à Serra , que faõ duas boas legoas :
&: decendo o cume, fe arrancha nos Poufos , q chamaõ Frios.
No dito cume faz humTaboleiro direito, em que fepóde
formar hum grande Batalhão : & em dia claro, he Sitio bem
fermofoi & fe defcobre delle o Rio de Janeiro, & inteiramen-
te todo o f eu Recôncavo.
-. Dos Poufos Frios fe vay á primeira Roça do Capitão
Marcos da Coita : & delia em duas jornadas á fegunda Ro.
ça , que chamaõ do Alferes.
Da Roça do Alferes , em húa jornada fe vay ao Pao Gran-
de, Roça que agora principia , & dahi fe vay ao poufar no
tnattoaopè de hum Morro , que chamaõ o Cabarú.
' *~1 " ~ Dcftcf
C> Opulência do 'Bra/tl. i 6 5
t>efte Morro fe vay ao famofo Rio Paraíba , cuja patifa
^em he em Canoas. Da parte dàquem , eítá húa venda de
Garcia Rodriguez,6c ha baftantes Ranchos para os Paflagei.
ros: & da parte dalèm,eítà a Caía dodito Garcia Ródriguez,
com larguiílimas Roçarias.
Daqui fe pafia ao Rio Paraibúna em duas jornadas: a pri-
meira no matto } $3 a fegunda no Porto , onde ha Roçaria j ôc
venda importante, 6c Ranchos para os PaíTageiros de húa ,
Ôc outra parte. He efte Rio pouco menos caudalofo , que o
Paraíba: patifa- fe em Canoa. _
Do Rio Paraibúna fazem duas jornadas á Roça do Con-
trafte Simaõ Pereira : 6c o poufo da primeira he no matto. Da
Roça do dito Simaõ Pereira fe vay á de Mathias Barbofa : &
dahiàRoçade António de Araújo : 6c deita à Roça do Ca-
pitão Jofeph de Soufa> donde fe paífa à Roça do Alcaide
MórThomè Corrêa. Da Roça do dito Alcaide Mórfe vay
a húa Roça nova do Azevedo : 6c dahi à Roça do Juiz da
Alfandega Manoel Corrêa : 6c deftaà de Manoel de Araújo.
E em todas eítas jornadas fe vay fempre pela vizinhança do
Paraibúna.
Da Roça do dito Manoel de Araújo fe vay á outra Roei-
nhadomefmo.
Deita Rocinha fe. patife à primeira Roça do Senhor Bif-
po :6c dahi à fegunda do dito'.
Da fegunda Roça do Senhor Btfpo fazem húa jornada
pequena à Borda do Campo à Roça do Coronel Domingos
Rodriguez daFoníeca,
Quem vay para o Rio das Mortes , patife deita Roça à de
Alberto Dias : dahi à de Manoel de Araújo, que chàmaó da
Refaça : & deita á Ponta do Morro , que he Arrayal baftan*
te, com muitas Lavras, donde fe tem tirado grande copia de
ouro : 6c ahi eftàhum Fortim, com trincheiras , 6c foflo , que
fizeraóos Emboabas no primeiro levantamento. Deite lugar
u
ie vay
l'MEt.«'li
xSá
-'-■\
»
fevay jantar ao Arrayal do Rio das Mortes*
: E quem fegue a eftrada das Minas Geraes3da Roça fobre-
dita de Manoel de Araújo da Refaça do Campo, vay àRo
çji qucchámaõ deJoaÕBautifta : dahi à dejoaô da Silva
Coita : & deíla á Roça dos Congonhas junto ao Rodeyod*;
fcatiaya : da qual fe palia ao Campo do Ouro Preto \ onde ha
varias Roças j & de qualquer delias he húa jornada pequena
ao Arrayal do Ouro Preto, que fica matto dentro, onde eílaõ
as Lavras do Ouro.
Todas as referidas marchas faraó diftancia de oitenta le
goas, arefpeitodosrodeyos , que fe fazem em razaõ dos
muitos, ■& grandes Morros : & por rumo de Norte a Sul naõ ;
iaó mais que dous grãos de diftancia ao Rio de Janeiro- por-
que^ Ouro Preto eftà em vinte & hum grãos } & oRiodas
V elhas eftarà em vinte , pouco mais ou menos, E todo o dito
caminho f e pode andar em dez até doze dias, indo efcoteiro
quem for por elle.
Do Campo do Ouro Preto ao Rio das- Velhas faõcínco
jornadas, poufandofempre em Roças.
C A P I T U LO XIII.
Roteiro do Caminho da Cidade da Bahia çarà
as Minas do Rio das falhas.
PArtindoda Cidade da Bahia , a primeira poufada he na
Cachoeira: da Cachoeira vaô à Aldeã de Santo António
de JoaÕ Amaro ; & dahi à Tranqueira. Aqui divide-fe o ca-
minho : & tomando-o à maõ direita , vaõ aos Curraes do Fil-
gueira longo à nacença do Rio das Raás .Dahi paíTaõ ao Cur-
ral do
€>■ Opulência dõ TBrafiL
faldoCoronel AntòniQ Vieyra Lima : 6cdei&Gurràlvaõa©
Arrayal de Mathias Gardofo. ,n >■> : ?
Mas fe quizereni fegUir o caminho à maõ efquerda : chew
gando à Tranqueira , metem-fe logo no caminho novo , 6g
mais breve , que fez Joáõ Gonçalvez do Prado* 6c vaõ adian-
te até a nacença do Rio Verde. Da dita nacença vaõ ao Garn^
po da Garça : 6c dahi fubindo pelo Rio acima vaõ ao Arrayal:
do Borba , donde brevemente chegaõ às Minas Geraes do
Rio das Velhas. v J; .
Qs que feguíraõ o caminho da Tranqueira à maó direi-
ta > chegando ao Arrayal de Mathias Gardofo, vaõ longo do
Rio de Saó Francifco acima , até darem na Barra do Rio das
Velhas : 6c dahi, como eftà dito* logo chegaõ às Minas do
mefmoRio. * %
Mas porque nefta jornada da Bahia huns caminhão até o
meyodia, outros até às três da tarde, 6c outros de Sol a Sol:
porey âdiítancia certa por legoas deftes douscaminhos da
Bahia para as Minas do Rio das Velhas , que heta feguinte.
Da Cidade da Bahiaatè a Cachoeira doze legoas.
Da Cachoeira atè a Aldeã déjoaõ Amaro vinte & cinco
legoas.
Da Aldeã de Joaõ Amaro até a Tranqueira quarenta 8c
três legoas. -
: Da Tranqueira caminhando à maó direita até o Arrayal
de Mathias Gardofo cincoenta 6c d uas legoas. :
.-) Do Arrayal de Mathias Gardofo atè a Barra do Rio da*
Velhas cincoenta 6c quatro legoas.
Da Barra do Rio das Velhas atè o Arrayal do Borba^on-
de eftaõ as Minas , cincoenta 6c hua legoas. E faõ por todas,-
duzentas 8c trinta 6c fete legoas. ' -y
< Tomando o caminho da T ranqueira á maõ efauerda , q
da Bahia atè ahi confta de oitenta legoas : faõ da Tranqueira)
atè à nacença do Rio Giurarutibatrintá6e três legoas, -
Viu '^ L4
-
Da
*68 LfíUmaj
Da dita naccnça atè o ultimo Curral do Rio das Velhas
quarenta & féis legoas.
^Defte Curral atèo Borba vinte & fete legoas. E faõpor
todas , cento & oitenta & féis legoas,.
Eftecaminho da Bahia para as Minashe muito melhor,
qucodo Riode Janeiro, ôcoda Villa de Saõ Paulo: porque
poito que mais comprido,he menos difficultofo, por fer mais
aberto para as Boyadas, maisabundante.para ofuftento, &
mais accommodado para as Cavalgaduras, & para as cardas i
CA P I T U L O XIV.
Modo de tirar o Ouro das Minas do Braftl,
&* Ribeiros delias , obfervado de quem
jgsllas a/Jtftio com o Governador
Artur de Sà.
1J Orcy aqui a Relação , que o mefmo Auaior meman-
. dou, Scheafcguintc. Conforme as difpoíiçoens , que
vi peífoalmente nas Minas do Ouro de SaÓ Paulo, affimnas
Lavras de agua dos Ribeiros, como nas da Terra contigua
a elks 5 direy brevemente o que pôde bailar, para queoscu-
noíos Indagadores da Natureza mais facilmcnteconheçaô
cm fuás experiências , que Terra , & que Ribeiros poflaõ ter,
ounaõtcr Ouro. Primeiramente em todas as Minas , que vi,
ôcemqueaffiftí, note y que as Terras faómontuofas, com
berros, & Montes, que íe vaó às nuvens > por cujos centros
correndo Ribeiros de baftante agua , ou Córregos mais pe-
quenos, cercados todos de arvoredo grande 6c pequeno, em
todos l
& Opulência dó *BrâjiL i èp
todos eítes Ribeiros pinta Ouro com mais , cai menos abun-
dância. Osfinaes, por onde fe conhecerá fe o tem * faõ> naõ;
terem áreas brancas à borda da agua , íenaó huns feixos miú-
dos , 8c pedraria da mefmacafta na margem de algumas pon-
tas do&Ribeiros : Sc efta meumformaçaõ de pedras leva por
debaixo da Terra. E começando pela Lavra defta , fe o Ri-
beiro depois de examinado com íbcavaõ f aifeou Ouro, he fi-
nal infallivel , que o tem também a Terra : na qual dando , ou
abrindo Catas , Sc cavando-a primeiro em altura de dez, mm
te, ou trinta palmos* emfeacabando de tirar efta Terra , que
de ordinário he vermelha, acha-fe logo hum pedregulho ,á
que chamaõ defmonte , & vem a fer feixos miúdos com área,,
unidos de tal forte com a Terra , que mais parece obra artifi-
cial j do que obra da Natureza .-ainda que também fe acha al-
gum defmonte dèfte folta, 6c naõ unido» & com raais3 ou me-
nos altura. Efte defmonte rompe fe comalabancas :Sc fe aca<-
fo tem Ouro , logo nelle começa a pintar , ou (como dizem)
a faifcar algumas faifcas de Ouro na batea r lavando o dito
defmonte: Mas ordinariamentev fe pintou bem o defmonte^
he final , que a piçarra terá pouco ,oumenhum Ouro : & di*
go ordinariamente ; porque naó ha regra fem exceíça5*
Tirado fora o defmonte j que às vezes tem altura de mais
áèbraça jfegue-feocafcalho: Sc vem a fer huns feixos mayo-
fes , Sc alguns de bom tamanho , que mal fe podem virar } Se
tam queimados , que parecem de chaminé. E tirado efte cate
calho , apparece a piçarra , ou piçarracr, que he duro , Scdk
pouco: 8c eftehe hum barro amarello, ou quafi brancormt '
to*nado ; & o branco he o melhor :8calgum<Íeftefeacb
que parece talco, ou-maracaxetai a qual ferve como de ca
aonde eftà o Ouro. E tomando comalmocafres nas batcà*
efta piçarra r 8c também aterra , que eftà entre ocafcalho ,/fe
vay lavar ao Rio : Sc botando fora aterra coma mefma batea?
^andandojeonvelk i roda dentro da agua pouco a pouco 5 o
- ' '- Ouro
— «■ —
■1
*7® í/UUwr a $
Ouro ( fe o tem ) vay ficando no fundo da batea : ate que la*
vada toda a batea da terra , pelo Ouro , que fica , fe vè de que
pinta he a Terra.
AJgua Terra ha , que toda pinta } outra fó em partes : & a
cada paíío fe eftá vendo , que as Catas em hua parte pintaó
bem } & em outras pouco , ou nada. Jà fe a Terra tem Veey-
ro , que he 0 mefmo que hum caminho eílreito 3 & feguido,
por onde vay correndo o Ouro ; certamente naõ pinta pelas
mais partes da Cata3 & f e vay entaõ fèguindo o Veey ro atraz
do Ouro: & eiras de ordinário faõ as melhores Lavras,quãdo
o Ouro pega em Veeyros, onde fe encontrão com grandeza*
& he final 3 que toda a Data da Terra , para onde arremete o
Veeyro , tem Ouro. As Catas ordinárias , que fe daõ em ter-
ra , faõ de quinze , vinte , & mais palmos em quadra ; Sc po-
dem fer mayores , ou menores , conforme dà lugar a terra. E
fe junto dos Ribeiros a terra faz algum taboleiro pequeno,
(porque ordinariamente os grandes naõ provaó bem) eíta he
a melhor paragem para fe lavrar. Pofto que o comum do Ou-
ro he eftar ao livel da agua- vi muitas Lavras ( & naõ das pe-
yores) que naõ guardaõ eíta regra , fenaõ que ao Ribeira
hiaõ fubindo pelos Outeiros acima,com todas as difpoíiçoés,
que temos dito , de cafcalho &c. mas naõ he ifto ordinário. .
Atè aqui, o que toca às Lavras daTerrajunto.daagua •
porém as dos Ribeiros, fe elles faõ capazes de fe lhes' poder
«defviar a agua, fe lavraõ divertindo eíta por hua banda do
mefmo Ribeiro 5 com cerco feito de paos muy direito } deita-
dos huns fobre outros com eftacas bem amarrados , feito era
forma decano poi hua , & outra parte , para que fe pOíía en-
tupir de terra por dentro , do modo que aqui fe vè»
i ; •
Mar-
&• Opulência do TZraJíl.
Margens
Margens
Iílo fe entende ] quando fe nao pode defvíar todo o Ri-
beiro para outra parte : para o que raras vezes daõ lugar os
Serros. Divertida, &efgotadaaaguacomasbateasJ oucu-
yas jíe tira o cafealho , ou feixos grandes , & pequenos r que
na agua naõ he muy alto, 6r fe dá cõ a piçarra : vé-fe , fe o Ou-
ro denianda para a Terra depois de lavada a Cata ; ôc fe buf-
ca aTerra , entrando porella , & fe vay feguindb ,&: abrin-
do Catas , húas fobre outras . E ordinariamente fe deve pro-
var feriíprè em primeiro lugar o Ribeiro dentro daMadre an-
tes de lavrar na Terra , para ver , fe tem Ouro : porqfe orem,
quafi fempre o ha de haver em terra com mais y ou menos
abundância. E muitas vezes fuecede f como fe vio nas mais<
das Lavras de C5aburàbucú) que pintando muy pouco na
agua 5 ou Madre > enrmuitas Lavras fora da agua fe deo com
muito Ouro.
For tanto para fe examinar 5 fe hum Ribeiro tem Ouro v
vendo-lhe as difpofíçoens , que temos dito entre a agua , Sc
a. Terra , fe dará hum focavaõ de fete s„ ou oito palmos
em quadra ,, atè chegarão cafealho, ôc piçarra-, &fefaif-
Car, he final, qxieeni terra, 8wia agua ha Ouro: 6c pelas pin-
tas
!,* I
IjM Cultura,
tas deites focâvoèns fe conhecerá , fe faó de rendimento.'
Nem neítas Minas fe repartem Ribeiros, fem ferem primeiro r
examinados com eftes focavoens junto da agua. Nos Ribei-
ros , onde ha área pelo meyo , & a naõ ha nas barranceiras ,
também fe acha Ouro , havendo cafcalho : aífim também
nos Ribeiros, onde ha área por entre pedras, fe acha. O efmc-
ril acha-fe com área preta entre o Ouro : & em qualquer par-
te que fe acha efmeril, tendo o Ribeiro cafcalho, ha Ouro.
Quando o Ouro corre em Veeyro, de ordin ario corre di-
reito do Ribeiro para a Terra adentro : & no mefmo Ribei-
ro fe fucceder acharem-íe muitos Veeyros, feráõ diítantes
huns dos outros ; &• fuppofto que perto do Veeyro fe ache
formação } com tudo fó no Veeyro fe acha mais Ouro. Tam-
bém fe àchaõ muitos Teixos com granitos de Ouro.
Eíias faó algúas das coufas > que fe podem dizer deftas*
Minas, para que fe pofla por aqui fazer exame em alguns
Ribeiros , aonde fe fufpeita, que haverá Ouro. Naõ deixarey
com tudo de referir aqui também o que vi no famofo Rio das
Velhas j porque parece fora de toda a regra do Mineral. Em
humapeninfula , que da terra entra no Rjo, quaíi atè o meyo,
em que com as çheas fica toda cuberta de agua, vi lavrar dous
Córregos pequenos , juntoda aguajos quaes abrindo-fe com
ajabancas , eraõ todos de hum piçarraõ duro, & claro : 8c por <
entre elle fem fe ir lavar ao Rio ,foy tal a grandeza do Ouro,
de que eítavaõcheyos , que fe eftava vendo em pedaços , Sc
granitos nas mefmasbateas. Ebateada houve, emquefeti-
jravaó de cada vez quarenta , cincoenta , & mais oitavasj fen-
do as ordinárias , em quanto fe lavraõ , de oito, & mais oita-
vas. Ainda que lavrando-fe depois pela Terra adentro na
mefma peninfula , foy diminuindo cada vez mais a pinta j 8c
•foraõlogo appareçendo ,as difpofiçoenstodas , que temos
dito , de terra, defmonte, cafcalho, Sc piçarra } que naõ ha re-
.^ra,cpmojà diflè, fem exceiçaó : 6c muitas vezes naõ dá com
Ouro
&• Opulência dç 'Brafil. 1 75
wrãtõ quem mais cava , fenaõ quem tem mais fortuna. Tam-
pem fe acha muitas vezes húa difpofiçaõ de defmonte, que fe
chama Tapahhuacanga , q vai o mefmo q Cabeça de Negro,
pelo teçume das pedras , tam duro , que fó a poder de ferro fe
defníancha : & naõ he mao íinal ; porque muitas vezes o caf-
calho , que fica em baixo, dà Ouro.
De alo-umas particularidades mais deitas Minas , por fe-
rem menos eííenciaes , naõ fallo :. & porque faõ mais parafe
verem , do que para fe efcreverem } & eftas faõ as que baftaõ
para o intento dos que ou por curioíidade , ou para acertar na
Lavra as procuraõ.
CA P I T U L Q XV.
Noticias para fe conhecerem as Minas de f ratou
■ ....... I "/■
Primeiramente pela mayor parte fe achaõ as Minas de
Prata em terras vermelhas , & brancas* limpas de arvo-
res , èc de poucas hervas : fcfemprefe haõ de bufcar no cume
dos Outeiros , ou Serros , que he onde arrebentaó as betas a
modode paredes velhas , que correm fenipre direitasyou a
modo de alicerfes , que eftaõ debaixo da terra $ ou corno hu
marachão de muitas pedras unidas em- roda : &r fefe achaô
muitas juntas , bufqne-fe fempre a mais larga , ou aque eílà
mais no meyo daOuteiro* Em4ravendo çavadohCia vara, oa
braça ,feguindo fempre abeta, fe pode fazer experiência dos
géneros de Metal , que tiver } porque ha batas, que tem c'm~
co, ou féis géneros de pedras ,, a que chamaõosCaftelhanos
Metaes. As ditas betas coftumaõter de largo húa braça, oia
quatro palmos* ou três %m dous , ou hum. Pela mayor parte
' ' entre
■
t74 Cultura,
çntreabetafe acha terra de varias cores 5 & Is vezes tudo he
pedra maciça: 8c entaõ coftuma fer negra, & branca a dita
pedra a modo de feixos .« &: quando ha terra entre a pedra ;
pedra , & terra, tudo tem Prata. Efta beta ordinariamente
eftà metida entre penhafco agrefte y & defde a fuperficie da
Terra atè o fundo, fempre vay encaixonada.
A pedra he de varias cores , differente das outras , &: muy
alegre : branca , negra , a modo de maracaxeta que fe lança
nas cartas, cor de ouro, amarella, azul,efverdeada, parda,
de cor de fígado , laranjada, leonada : & ordinariamente tem
ocos , onde fe coftuma crear Prata como em cubellos. Outras
pedras faõ todas prateadas j &: outras com veas de prata : 6c
ío eftas fe conhecem logo, que tem prata. Porém as acima no-
meadas , fò quem tem muita experiência , ou quem a fouber
fazer , virá em conhecimento que a tem. Também às vezes
fe acha hua maracaxeta negra , a qual toda tem prata : & de
ordinário huma livra deita maracaxeta rende duas onças de
prata. Pela mayor parte naó ha beta de prata, que junto a ella
fe naó ache maracaxeta branca, ou amarella, ou em pedra*
agreftes, ou em terra.
A todas eftas pedras chamaó os CaftelhanosMetaes :8c a
algumas daó eftes nomes. Metal Cobrizo : & he hua pedra,
que tira a verde , muy pezada , falgada ao gofto , eftitica , Ôc
frange os beiços pelo acre do antimonio , 8c vitriolo, que tem
mifturado. Metal Polvorilha : & he hua pedra hum tanto
amarellaj 8c he de mais ley, que o acima, ôc às vezes para o
fundo coftuma dar em prata maciça. Metal Negrilho da pri-
meira qualidade he pedra negra çomrefplandores delima-
duras groffas de ferro ; he de pouca ley j porém porque fac
mifturado com Metal negro da fegunda qualidade , que he
com refplandores de área miúda , 6c com o da terceira quali-
dade , que he aquelie que feito pò, a fua área naó temreiplan-
,dor algum > he o melhor , 6c dev£fe fazer cafodelle. Metal
Rociw
&- Opulência do 'Bra/íl. 17$
Rocicler he húa pedra negra , como o Metal Negrilho ;, jne-
lhor de área , como pó eícuro fem refpkndor : Sc fe conhece
fer Rocicler em que lançando aguafobrea pedra , fe lhedi
com húa faca, ou chave , como quem a moe , Sc faz hum mo-
do de barro, comoenfanguentadoi & quanto mais corado
o barro, tanto melhor he o Rocicler: Sc he Metal de muita ri-
queza, Sc fácil de fe tirar* Sedando em parte que haja deía-
gue ao Serro, naõtoa mais que pedir : dà em caixa de barro
como lama, Sc pedrinhas de todas as cores.
Metal Paço he também como ò Rocicler , ó qual he húa
pedra quaíi parda , como o panno pardo , ou defumado , Sc
muy pezada. Seria eftender-fe muito , fe fe houveíTe de pôr
feus géneros de caixa, de qualidade, Sc benefícios .; porque
he , Sc fe faz de muitos modos fegundo os géneros de Paços.
Porém fendo a pedra fem gofto algum ao maftigar-fe pizada,
fera de boa ley para a fundição , por ter muito chumbo , quej'
ajuda a mefma fundição : Sc efbe género de Metal , Sc o Ne-
grilho faó os mais abundantes nas Minas , fem fe perderem ,
nem mudarem j Sc quando muito , mudaõ de Paços a Negri-
lhos , Sc de Negrilhos a Paços. Metal Piorno Ronco he húa
pedra de cor de chumbo , porém mais efeura , Sc muy dura,
& pezada. He riqueza de fundição: Sc deita pedra amrmaõ
alguns ,*que fazem bóias de bolear os índios Charruas, que
vizinhaó , ou vizinhavaõ com os Porc«gue zcs na Nova Co-
lónia do Sacramento.
Cultura,
C A P I T U L O XVI.
Modo de conhecer 4 Prata > Qf de beneficiar
os Metaes.
I §1
SE houver lenha ( Sc melhor he bofta de Gado, por fer
mais a£tivo o fogo delia) farfe-ha húa fogueira^ ôc no me -
yo delia íe lancem as pedras do género , que tiver a Mina : 6c
as deixaráõ queimar , até que feponhaó vermelhas , comofe
põem o ferro. E eftando vermelhas 3 fe lancem em agua fria,
cada húa em diverfa parte , para fe conhecer qual das cores
tem mais Prata j que logo fe moftrará na agua : porque fe tem
Prata , brotaõ por toda a pedra como cabeias de alfinetes, ou
como grãos de munição.
Também fe podem reconhecer com chumbo nefta for-
'ma.Quando os Metaes faó negros, com poucas veas brancas,
(que fe faõ muitas faz-fe com azougue ) fendo muy pezados
íe moeráõ , de forte que o graó mayor fique como o de trigo:
6c em húa furna, como as que fe fazem para derreter metaes
de Sinos , fe botará chumbo , & fe lhe dará fogo com fol-
ie, até que aquelle chumbo fe derreta, & ponha corado j &c
entaó íe lhe botará a pedra moida : afaber, em meyaar-
robade chumbo fepoderáõ beneficiar féis livras de pedra ne-
fta forma. -
Eftando derretido , & corado o chumbo , fe lhe lançaráó
âim livras de pedra , eftendendo-as por cima do chumbo : &
eftando tudo encorporado com o chumbo , a modo de ag*a
(para
<á> Opulência do *Brâf3'« tff
forma fe vay lançando a mais terra, atè que fe acabem as íeis
livras. E em fe acabando a pedra , ou Metal 3 fe continue com
dar fogo ao chumbo 3 atè que o fogo o confuma3 ou o conver-
ta em hum farello 3 que vay criando por cima > o qual fe irá ti-
rando com a efcumadeira 3 6c apartando aos lados do vafo ,
atè que a Prata por ultimo fe difpa de húa teagem , que tem
por cima :6c antes que de todo o faça , faz primeiro três ou
quatro acometimentos , como quem abre & cerra os olhos ,
a modo de ondas ; até que de todo fe abre, 6c fica a Pra-
ra liquida 3 fem fazer movimentos. E entaó fe pára com
o fogo 5 & eftando hum pouco dura 3 fe mete a efcuma-
deira por hum lado , 6c outro 5 para a defapegar do vafo , 6c
fe tira fora.
Se quizerem fazer enfayo por azougue, farfe-ha dos Me-
taes 3 que naó forem negros : ou fe forem negros , queimarfe-
haõ primeiro em forno de reverberação , até que fe lhes tire
a maldade de coufas acres , que temosMetaes, ou pedras
negras. E efta queima fe faz , depois de moidos : 6c fe algum
dos outros Metaes tiver acridades, fe deve primeiro queimar
também. O que pofío : digo 3 que todos os Metaes} ou pedras
fe devem moer 3 U peneirar 5 de forte que fiquem como fari-
nha de trigo : a peneira ha de fer de panno j 6c pezarfe-haõ os
Metaes. Se forem féis livras, fe lhes botará hum punhado de
fal •, 6c tudo junto fe molhara com agua 3 como quem miftu-
ra acal com área. Depois de bem unido 3 fe faz hum mònti*
nho3 de forte que efteja brando com a agua 3 para que feèn-
corpore comelle o fal : 6c nefta forma íe deixara eftarfobre
húa taboa quatro ou cinco dias ao Sol. E paílados eftes dias,-
fe desfará o montinho, 6cfeLpizarà muy bem aquella terra : 6c
em hum panno fino de linho febotaràô duas onças de azou-
guevivo3 6c com omefmopannofeefpremerà por cima da
dita terra, que eftaràefpalhada3 6c bem fina: 6c junta fe amaf-
M íatà
Bi
s?8 Cultura^
fará com á maõ , por tempo de híia hora 5 Sc fe eftiver muy
feeo 3 fe molhará com agua , atè que fique como barro de fa-
«zer telha.
Depois diftofe tornará a fazer monte, & apolloaoSol
outros tantos dias j no cabo dos quaes , fe tem prata alguma ,
o moftrarà nefta forma : &' vem a fer, que o azougue, & a pra-
ta fe converterão em hum farello branco. E eítando aíTim, fe
lhe lançará mais azouge, 6c fe tornara a àmafTar, como eítà
dito, & a pollo ao Sol outros tantos dias ; Sc depois fe torne a
molhar, êc amaflar. Ifto feito, fe bote em húa cuya enverniza-
da hum pedacinho daquella ferra, do tamanho de húa noz-
& com agua limpa fe irà lavando , atè que fique limpa a areá
na cuya , para conhecer fe o azougue ha colhido toda a pra-
ta ; •& fe eftiver ainda com farello , fe lance mais azougue, co-
mo acima.
r Havendocolhidooazouguetodaaprata, jànaõfarà fa-
rello na cuya 3 ôíeftaràtodaencorporada. Entaõ fe lave to-
do o mente com muito cuidado, Sc fe lance em hum panno
de linho novo, &feefprema:&aquella bola, que ficar, fe
queimara , atè que fe queime todo 6 azouge* & ficará liquida
a prata : & fe conhecerá , fefaõ os Metaes de rendimento
cu naõ. "
Se o azouge eftiver frio (o que fe conhecera, eítando me-
tido dentro como em hum faquinho negro , que de fi mefmo
forma) fe lhe botara mais fal,ou Magiftral: Sc fe eftiver quen-
te (o que fe conhecerá de eftar muy negro o farello da prata )
fe lhe botara cinza molhada , & fe mifturarà tudo , como fica
dito acima. Alguns dizem , que a fobredita malTa fe ha de re-
volver , Sc amaífar todos os dias duas vezes , por efpaço de
quarenta dias j & que a cada quintal de pedra fe lança hum
«imude defaldecompàz,6c dez livras de azougue na forma
acima.
&- Opulência d^BraftU 179
Ultimamente daó eftas regras geraes. As Minas de Nor-
te a Sul fixo , faó permanentes. As Minas de Ouro cabeceaõ
de Oriente a Poente j Sc daõ em feixo branco , ou negro > ou
em barro vermelho , fe faõ boas, Naó havendo fal de pedras
junto das ferras de Minas de Prata -, he final , que naõ faõ Mi-
nas de permanência : ôc a efte chamaó os Caítelhanos Sal de
Compàz. Só à vifta de quem tem experiência fe podem dar
axonhecer fixamente os Metaes> porque ha outros géneros,
de Pedras como elles 3 que naó faõ de Prata.
CAPITULO XVII.
Dos danas , que tem caujado ao Br afã a cobiça
depois do defGobrimento do Ouro nas
iSMÍmas*
NAõ ha côufâ tam boa , que naõ pofla fcr occafiaõ dé
muitos males, por culpa de quem naõ ufa bem delia;
E atè nas fagradas« fe cõmettem os mayores facrilegios. Que
maravilha pois , que fendo o Ouro tam fermofo , 8c tam pre-
cioíb metal , tam útil para o comercio humano , 5c taõ digno
de fe empregar nos vafòs, & ornamentos dos Templos para
o culto divino } feja pela infaciavel cobiça dos Homens, con*
tinuoinftrumento, Sc caufa de muitos danos ? Convidou a
Fama das Minas tam abundantes do Brafil homens de toda a
cafta,8c de todas as partes: huns de cabedal} ôc outros vadios.
Aosde cabedal, que tirâraõ muita quantidade delle nas Ca-
tas, foycaufa de fe haverem comakívez, 6c arrogância: de
Mi anda-
«>,.* D
i. ■■;
ttô Cultura ,
andarem fempre acompanhados de tropas de efpingardeíros
de animo prompto para executarem qualquer violência 5 Sr
de tomar fem temor algum da Juííiça grandes , & eftrondo-
fas vinganças. Convidou-os o Ouro a jogar largamente, &;
agaftaremfuperfluidades quantias extriordinarias fem re-
paro ^comprando (por exemplo ) hum Negro Trombeteia
f o por mil cruzados > & húa Mulata de mao trato por dobra-
do preço, para multiplicar com ella contínuos, .& efcanda-
lofos peccados. Os vadios , que vaõ ás Minas para tirar Ouro
naõ dos Ribeiros, mas dos canudos, em q O ajuntaõ, & guar-
daõ os que trabalhão nas Catas, ufâraó de traiçoens lamentá-
veis, & de mortes mais que caieis; ficando eítes crimes fem
caftigo /porque nas Minas a Juftiça Humana naõ teve ainda
Tribunal, nem o refpeito, de que em outras partes goza,
aondehaMiniftros defuppoíiçaõ, aíliftidos de numerofo,
& feguro Preíidio } & fó agora poderá efperarfe algum remé-
dio indo là.Governador,& Mi niftros.E até os Bifpos, &os
Prelados de algumas Religioens, Tentem fummamente o naõ
fe fazer conta alguma das cenfuras, para reduzir aos feus Bif-
pados, & Conventos naõ poucos Clérigos, &: Religiofos ,
que eícandalofamentè por lá aqdaõ ou Apoftatas , ou fugiti-
yos. O irem também às Minas os melhores géneros de tu-
do o que fe pôde defejar, foy caufa , quecreceíTem de tal
forte os preços de tudo o que fe vende •, que os Senhores
de Engenhos , & os Lavradores fe achem grandemente em-,
penhados : & que por falta de Negros naõ poíTaõ tratar do
Aífucar, nem do Tabaco, como faziaó folgadamente nos
tempos paílad os ; queeraõ as verdadeiras Minas do Braíil,
& de Portugal Eopeyor he , que a mayor parte do Ouro,
que fe tira das Minas , paífa em pó , .& em moedas para os
Rcynos eítranhos : & a menor he a que fica em Portugal,
&nas Cidades do Brafil : falvo o quefe gaita em cordoens,,
arreca-
& Opulência do Bra/ií. 1 8 1
arrecadas, & outros brincos, dos qnaesfe vem hoje carre-
gadas asMulatas de mao viver, & as Negras.muito mais qu»
asSenhoras. Nem ha Peflba prudente . que |naô coníeíic
haver Deos permittido que fe defeubra nas Minas tanto
Ouro, paracaftigarcomclleaoBrafili aífimcomoeftâca-
ftigandonomefmo tempo tam abundante dç guerras , aos
Europeos com o ferro.
Mj
QU
r& IV*
I $ . ■
* ■ I
QUARTA PARTE.
CULTURA
E •
OPVLE N C I A DO BRASIL
Pela abundância do Gado, & Coura- ;
ma ,& outros Contratos Reaes,
que fe remataõ nefta Con-
quiíta*
C A P I T V L O L
t)a grmde extenfao de Terras fdr a Taflos^ ;
\ ; çhUs de Cf do % que ha no TBrafik
i . Staide*feoGertâõdaBahiaàté a Barra do Rio ââ
|J S, Francifco oitenta legoas por Coítâ:&: indo para)
jj-i oiRio adma atèaBarra} que chamaô d*AguaGran-
de5 fica diftante a Bahia da dita Barra cento & quinze legoas; •
de Stauiafé oentaôc trinta legoas. a del&odellas |# dentro
M4 oiten-
■ 1
oitenta lepàs : das Jaeoabinas noventa : & do Tucano cm*
coenta. ^porque as Fazendas , & os Curraes do Gadafeil-
^aoaqnde;ha largueza deCampo , & agua fempre manántc
aeKios , oiiLagoasj porifib os Curraes da parte da Bahi*
citao poftos na borda do Rio de S. Francifco , na do Rio das
Velnas^na do Rio das Raãs , nado Rio Verde , na do Rio
mamerim, nadoRioJacuippe, na do Rio Pojifca , nado
Kioisnhambupe, na doRioItapicurú, na do Rio Real na
dO:Rio Vazabarrís, nado Rio Serigippe, & de outros Rios-
em osquaes por informação tomada de vários ■, que correrão
eite Certao, eítaó adualmentemais de quinhentos Curraes;
ócio na borda àquem do Rio de SaÓ Francifco cento òcíçis.
& na outra bordada parte de Pernambuco , he certo, que faó
muitos mais. E naó fomente de todas eftas partes , & Rios jà
nomeados vemBoyadas para a Cidade , ôc Recôncavo da
gania> 6c paradas Fabricas dos Engenhos > mas tambcm do
K-io Iguaçu , do Rio Carainhaem ., do Rio Corrente , do Rio
Cjuara^ra,, 6c do Rio Piaguí. grande, por ficarem mais per-
to ^ vindo caminho direito,* Bahia, do que indo por voltas
a Pernambuco.
... E poftoque fejaômuitos os Curraes da parte daBahia,
cfiegaõa muito mayor numero os de Pernambuco; cujo Cer-
taô fceftende pela Cofta deíde a Cidadede Olindaatè o Ria
de Saô Francifco oitenta legoas : 6c continuando da Barra
daRio de Saó Francifco atè a Barra do Rio Aguaçú > con-
fie âuzentâshgo^s. De Olinda para Oe fie atè oPiaguí,
Fréguezia de Nofla Senhora da Vittoria ,. cento 6c feflenta
legoas : ôc pela parte do Norte efiende-fe de Olindaatè o
Ceará Merim oitenta legoas,, &a dahi atè o Açu trinta &
cinco ; 6c até o Ceara Grande oitenta : èc por todas >
vem aeftender-fe defde Olindaatè efta parte quafi duzca*
tas legoas.
O* Rios dePernambuco , que por terem junto de fi Pa-
ftos
mknciâio^raJíL -M
ftô5CÕmpCíténtesr eftaò povoados com Gado' ( fofa o Rio
Freto , ó Rio Guaraíra , o Rio Iguaçu , o Rio Corrente 'j o
RioGuariguaê, a Lagoaàlegre , & o Rio de Saó Francjfco
da banda do Norte) faõ o Rio de Cabaços, o Rio de Saõ Mi-
guel , as duas Alagoas com o Rio do Porto do Calvo , o da
Paraíba, odosKarirís,odo Açu,odoPodi, ode jaguaré
be , o das Piranhas, o Payaú,4o Jacaré , o Kanindè , o de Par*
naíba ,o das Pedras,o dos Camaroens, Sc o Piagui.
Os Curraes deita parte haó de paflar de oitocentos : Sc dè
todoseíles vaó Boyadas para o Recife, Sc Olinda , 8c fuás*
Villas, & para o fornecimento das Fabricas dos Engenhos
defdeo Rio deSaõ Francifcoaté oRk>Grande ; tirando os
que 'acima eílaõ nomeados defde o Piagui até a Barra de T-
guaçu, ScdeParnaguâ, S^ Rio Preto s porque ás Boyadaí
deites Rios vaõquaí] todas ^ara a Bahia , por lhes ficar mei
lhor caminho pelas Jacoabinas , por onde paífàbv & defean-
çaó. Aillmeonro ahi tambenrparaô , & defcançaõ à# que ás~
vezes vemdemais longe.Mas quando nos caminhm fe àchao'
paftosyporque naáfaltáraõ as chuvas } em menos de três me-
zes chegaó as Boyadâs á Bahia , que vem dos Curraes mais
diftantés; Porém* fe por Caufada fecaforerrí obrigados a pa-
rar com oGado nas Jacoabinas , ahi o vendem os que o lé*
• vaõ s Sc ahi defcançafeis , fete , Sc oita mezes> âté poder ir
à Cidade. -
Só no Rio de Iguaçu: eííâ^hojé mais de trinta mil Cabe*
ças de Gado. As da parte da Bahia fe tem por certo , que pa£
úlò demeyo milhão-.* 8r mais de oitocentas mH haõ dè íer *s- •
da parte: de Pernambuco ♦ ainda' que deitas fe aproveitai
inaisos da Bahia, paraonde vaõ muitas Boyadasj queo^Per>
i mbucauos.
Apartedo BraíH , que tem menos Gado , he o Rio de
Janeiro : porque tem Curraes fomente nos Campos de Santsi
Ctaz » <tftànte> quatorze legoas da JQidáde • nos Campos
Novof,
Hl III
*$6 < "Cultúriti r
NovosdoRíodeSaóJoaõ, diftantes trinta 5 & nos Guaítei
#azes, diftantes oitenta legoas : & em todos eftes Campos
nacSpaíTaò de feíTenta mil as Cabeças de Gado , que nelles
paítaõ.
A Capitania doEfpirito Santo fe provê limitadamente
da M oribêea 9 .&■ de alguns Curraes àquem Ido Rio Paraíba
dq$ukv ,
_ As Villas de Saõ Paulo mataõ as Rezes , que tem em fuás
Fazendas, que náó fáõmuito grandes* 6c fó nos Campos
deporitíba.Yay crecendo ; & multiplieando.cada vez mais
o Gado.
Sendo o Certaõ da Bahia tam dilatado, como temos re.
ferido* quafi todo pertence a duas das principaes Famílias
dá n^fmaCidade, que faô a da Torre, & a do defunto Meftre
de Campo António Guedes de Britto. Porque a Gafa daTor-
re tem duzentas ■& feíTenta legoas pelo Rio de Saõ Francifco
acima à maõ direita > indo para o Sul} .& indo do dito Rio pa-
ra o Norte ., chega a oitenta legoas. E os Herdeiros do Me-
ftre de Çam po António Guedes poífuem defde o Morro dos
Chapeos ate a Nacenea do Rip das, Velhas , cento flç feíTenta
legoas, E neftas Terras ., parte os donos delias tem Curraes > ■
próprios; & parte faõ dos que arrendarão Titios delias , pa-
gando por cada lítio , que ordinariamente he de níia legoa, <
cada àrihò dez mil reis de foro. É aílim como ha Curraes no
TerritoriodaBahm^^
tanías, de duzentas, trezentas,; quatrocentas, quinhentas*
oitocentas , & mil Cabeças; aííim ha Fazendas** quem per-
tencem tantos Curraes , que chegao a ter féis mil , oito mil4
dez mil, quinze mil > & mais de;yjnte mil Cabeças . de Gado;
donde fe tiraó cada anno muitas Boyadas , conforme os
tempos faõ mais ou menos favoráveis à pariçaõ, &c multipli-
cação do mefmo Gado , & aos paftos ailim nos iitios ? como
íanibem nos caminhos, .. . if , ,
e> Opuknciaà) TZraftl.
C A P I T U LO II.
■t>ás Èoyadas , qzte ordinariamente fe tirafi cad&-:
anno dosQurraes , fará as Cidades, Vtllas r
Qf Recôncavos doBraftl , ajfimpara a
açougue^ como para o fornecimento
das Fabricas*
PAra que fc faça juíío conceito das Boyadas, que fe tiraõ
cada anno dos Curraes do Brafil , baila advertir, que to-
aos os Rolos de Tabaco que feembarcaõ para qualquer par-
te, vaõ encourados. E fendo cadabitm deoèío arrobas 3 6ç
5c os da Bahia, como vimos em feu lugar , ordinariamente
cada anno pelo menosyinte & cinco niil,,& qs dasAlagoas
de Pernambuco 'dòu<rm il & quinhentos -, ^bem-fe v% quantas
Rçzesfaõ neceíranasjparaencoLirar vinte 6c fetemil & qui-
imentGsP^olos. t \
Alem difto , vaõ cada anno da Bahia para o Reyao ate
cincoenta mil meyos de Sola > de Pernambuco quarenta mil*
& do Rio de Janeiro (naófeyfe computando* os que vinhap
da Nova Colónia , ou fó os-do mefmo Rio , Sc outras Capi-
tanias do Sul ) atè vinte mil : que veraaierpoj; todas , centos
& dez mil Meyos de Sola.
O certo he, que naõ fomente a Cidade rmas a mayorpae-
te dos Moradores do Recôncavo mais abundantes fe fuíten-
taõ nos dias naõ prohibidos da carne do açougue , & da que
fe vende nas Freguesias > & Villas : & que eommúmente os
Neeros, que fao hum numero muitograíide.nas Cidades, vi-
» ô - ^ vem
>-«
!
■I
■
1 ■
7*w ttútm,
vem de ferçuras , bofes , & tripas , fangue , & mais fato dâ$
Rezes: &: que no Certaõ mais alto a carne?& o leite he o ordi*
nario mantimento de todos.
Sendo também tantosos Engenhos do Brafil, que cada
armo fc fornecem de Boys para os carros ; & os de que necef-
íitaõ os Lavradores de Cannas , Tabaco , Mandioca , Serra-
nas, & Lenhas ; daqui fe poderá facilmente inferir , quantos
haverão miílerdeannoem anno, para confervar efte traba-
Ihofomeneyo. Por tanto deixar iíloáconíideraçaõ de quem
ler efte Capitulo , julgo, que fera melhor acerto > do que af-
firmarprecifamentc o numero das Boyadas : porque nem os
mefmos Marchantes , que faó tantos , & tam divididos por
todas as partes povoadas do Brafil , o podem dizer com cer-
teza; &dizehcío-o, temo, que naopa^ &que Je
julgue encarecimento fantaítko.
1
C AP I T U L O III.
pa eondmçaõ das Boyadas do Certati do Brafil :
'frtfo ordinário do Gado que Je mata , Q?d$
que vay para as Fabricas,
■' ' • ■ ' ' :■
Onftaó as Boyadas , que ordinariamente vem para t
Bahia , de cem , cento & cincoenta , duzentas , St tre-
zentas Cabeças de Gado: &deftas quafí cada femana chegaó
algumas a Capoâme , Lugar diftante da Cidade oito legoas;
aonde tem paito , ôc aonde os Marchantes as compraó : ôc em
alguns tempos do anno ha femanás > era que cada dia chegaõ
Boyadas. Os que as trazem , faó Brancos , Mulatos, & Pre-.
tos^
&• Opulência h ^rajiL % $$
tos 5 8c também índios , que com efte trabalho procuraô ter
algum lucro. Ggíaõfe, indo huhs adiante cantando, para
ierem deita forte feguidos do Gado y Sc outros vem atrazdas
Rezes tangendo-as , & tendo cuidado , quenaõfayaõdo
caminho, & fe amontem. Às fuás jornadas faõ de quatro ,
cinco , & féis legoas , conforme a cómo.didade des Paftos>
aonde haõ de parar. Porém aonde lia falta de agua ,feguem o
caminho de quinze , & vinte legoas, marchando de dia, & de
noite , com pouco defcanço, até que achem paragem , aonde
poífaó parar. Nas paflagens de alguns Rios , hum dos que
guiaõ a Boyada g pondo hua armação de:Boy na cabeça, Sc
nadando , nioftra ás Rezes o vao , por onde haõ de paífar.
Queinquer que entrega a fua Boyada ao PaíTador, pára
qiie a leve das Jacoabinas v. g. até a Capoâme , que he j orna-
da de quinze , ou dezafeis até dézafete dias ; lhe dá por paga
do feu trabalho hum cruzado por cada cabeça daditaBoya-
da : &c efte corre com os gaftos dos Tangedores , & Guias ; èc
fira daraefmaBõyada a matalotagem da jornada. De forte
que y fe a Boyada conftar de duzentas Cabeças de Gadoj
daó-felhe outros tantos cruzados, fe com todas chegarão
lugar deftinado. Porém fe no caminho algumas fugirem) tan-
tos cruzados fe diminuem , quantas faõ as Rezes > que faltao.
Aos índios, que das Jacoabinas vem para Capoâme ;, fe daõ
quatro atè cinco mil reis :'& ao Homem , que com o feu Ca»
valloguia a Boyada, oito mil reis. Sendo as diftançias mayo-
res , crece proporcionadamente a paga de todos. EporifTò
do Rio de Saõ Francifco acima vindo para-Capoâmeyalguns
dos qíietomaõ á fua conta trazer Boyadasalheas, querem
íeis, ou fete toítoens por cada Cabeçaj ôc mais, fe for mayor &
diftancia.
Hua R.ez ordinariamente fe vende na Bahia por quatro
atè cincc n il reis : os Boys manfos por fete paraoito mil reis.
Nas Jàc( ab nas vcnde-fe hua Rez por dous mil 6c quinhen-
S '.'"■■'" tos
s£* Ctdturà,
tosatètres mil reis. Porém nos Curraes do Rio deSaõFranri
cifco, os que tem màyor conveniência de penderem o Gado
para as Minas, o vendem na Porteira do Curral pelo mefm o
preço , que fe vende na Cidade. E o que temos dito atè aqui
das Boyadas da Bahia, fc deve também entender com pouca
dirTerencadasBoyadas de Pernambuco, & do Rio de Ja-
neiro,
CAPITULO IV.
G}ue eufla hum Couve em cabe lio , &* hum Meyo
de Sola beneficiado até fe fór do Brajil na AU
fandega de Lisboa.
VAI cada Couro em cabello 2U 1 00
Deofalgar3&fecar U200
De o carregar ao cortume U040
Deocortir U600
Importa tudo dous mil novecentos 8c quaren-
ta reis. 29U40
Hum Meyo de Sola vai 1U500
De o carregar á Praya Uo 1 o
De Frete do Navio . U120
De defearga para a Alfandega Uoio
Por tod os os Direitos U 340.
Importa tudo mil novecentos Sc oitenta reis. 1U980
OsMeyosdeSola, que ordinariamente vaõ cada annov
do Brafil para o Reyno 3 importaõ ofeguinte.
Da*
■I
tír- Opulência ao 'BraJiL %9*
Da Bahia cincoenta milMeyos de Sola
a 1U980 reis 99. oooTJooo
De Pernambuco quarenta mil a 1U750 70. 000U000
Do Rio de Janeiro , & outras Capitanias
do Sul, vinte mil a 1U640 reis _g2. gopUooo
O que tudo importa duzentos 6c hurn aot. 800Ú000
contos , & oitocentos mil reis •: que "~~
reduzidos a cruzados?faõ quinhen-
tos & quatro mil , & quinhentos
cruzados.
s jíp ííí)!?^ ^jaá^ íi^íí
CAPITULO V.
Refumo de tudo o que vay ordinariamente
armo doBrajií fará Portugal ; Q? do
jeu ualor.
POr ultima demooftraçaó da Opulência do Brafíí en*
proveito doReyno de Portugal } porey aqui agora o
t Refumo do que neftas quatro Partes tenho apontado j que.
por junto naõ deixará de caufar mayor admiração , do que
pode ter caufado por partes.
Importa pois todo o AíTucar ^S^- 142XJ800
Importa o Tabaco 344.650U000
Importaõ ao menos cem arrobas de Ouro 614.400U000
Importaõ os Meyos de Sola 20 1.800 Uboó
Importa o Pao Braíll de Pernambuco. 48.ooo17ooo
O que tudo fomma 3 como parece, três 3744,99^' ■■-■.^•-
mil fetecentos & quarenta & três contos,
novecentos & noventa & dous mil 6c oitocentos reis. Os
quaes
-
tftfl
■ i
Cultura?
quaes redn zidos §t cruzados , faó nove milhoens , trezentos
Òí cincoenta 6c nove mil , novecentos 6c oitenta Sc dous cru-
zados.
Aos quaes fe fe acrecentar o que rende o Contrato das Ba-
que por íeis annos fe rematou ultimamente na Bahia
porcento Sc dez mil cruzados ; 6c no Rio de Janeiro por três
annos , por quarenta & cinco mil cruzados : O Contrataan-
pual dos Dizimos Reaes , que na Bahia neftes últimos annos,
fora as Propinas , chegou perto de duzentos mil cruzados :
no Rio de Janeiro por três annos, por cento, &" noventa mil
cruzados: em Pernãbuco por outros três annos, per noventa
St fete mil cruzados : em Saõ Paulo por feííenta mil cruza-
dos 5 fora os das outras Capitanias menores, que em todas
notavelmente crecérao : O Contrato dos Vinhos.' , que na
Bahia fe rematou por féis annos em cento & noventa & cinco
mil cruzados : em Pernambuco por três annos em quarenta
& íeis mil cruzados > 6c no Rio de Janeiro por quatro annos
por mais de cincoenta mil cruzados: O Contrato do Sal na
Bahia arrematado por doze annos, a vinte 6c oito mil cruza-
dos cadaanno: O Contrato das Aguas Ardentes da Terra, ôc
de fora, avaliado por junto em trinta mil cruzados : O Ren-
dimento da Cafa da Moeda no Rio de Janeiro , que fazendo
em dous annos três milhoens de Moedas de Ouro, deo de lu-
cro aElRey , que o compra a doze toíloens a oitava, mais de
feiscentos mil cruzados ; alem das arrobas dos Quintos , que
cada anno lhe vaó : Os Direitos , que fe pagaõ nas Alfande-
gas dos Negros, que vem cadaanno de Angola , SaõTho-
mè , 6c Mina em tam grande numero aos Portos da Bahia ,
Recife, 6cJRio de Janeiro, atresmil 6c quinhentos reis por
Cabeça :E os dez por cento das Fazendas no Rio de Janei-
ro , que importaõ hum anno por outro oitenta mil cruzados;
Hemfevè a utilidade, querefulta continuamente do Eftado
do Bráfilá Fazenda Real, aos Portos, Sc Reyno de Portu-
gal*
& Opulência do ^Brâjú. $9 g
tf aí >' & tâmbem ás N-açoens eftrangeiras , que com toda
a induílria procura© '• aproveitaste de tudo o quevay deíle
Eftado. !
G A PI T U L O ULTIMO.
Quanto bâjvfto i que fe favoreça o Brafil , forfer
de tanta uni idade ao Reynàde Portugal.-
Elo que temos dito ate agora , naõ haverá quem poíílv
du.v idar y de íer hoje o Brafil a melhor , ôt a mais útil
Coiiquifca, aílim para a Fazenda Real, como para o bem pu-
blico , de quànras outras eofita o Rey no de Portugal , atten-
dendo ao mui ío que cada afino fae deíles Portos, que íaõ Mi-
nas certas ._, & abundantemente rendofos> Éfeaífifn he,quem?
duvida também , que eftatam grande } & continuo emolu-
mento merece jii (lamente lograr o favor de Sua Mageftade^
&" de todos es íbus Mimíhps nó defpacho das petiçoens 3 que
oíFereeem ?$k na aceitação desmeycs, qi4e para alivio . & có-
veniencia dos Moradores , as Gameras deite Eirado humil-
demente propõem ? Se es Senhores de Engenhos , ■& os La-
vradores do A fincar /& do Tabaco \ faões queimais promo--
vem huíii lucro tameítimavelj parece, que merecem mais
que os outros preferir no favor , & acharem todos os Tribu-
naesaquella proitipta expedição, que atalha as dilaçoens dos
réquerim entos , §ç o enfado , 8c os gaftos de prolongadas de-
mandas. Se erece tam copióíò o numero dos Moradores', na-
turaes de Portugal r que cada vez mais povoaõ as partes, que
antes eraõ defertas , /ficando muito diftantes das Igrejas ; hc
#juík> x que eílas fe multipliquem ,. para que todos tenhaõ
N mais
Culatra ,
mais perto o nepeíTario remédio de íuas Almas. Pàgando-fc
tam jon^iàlmente a í>o!dad€Íca , que ailifte nas Praças , &
nas FprtãMzas Marítimas ; riaõ poderiaó deixar de fentir os
gue para íílb concorrem, fecomfervieos iguaes naó fofTem
adiantados nos Poftos. Se pelo feu trabalho unto creceraõ es
Dízimos* que íe ofrerecem a Deos • pede a razaó, que os íeus
Filhos idóneos naó fejaõ poípoftos nosCòncurfcs, & pro-
vimentos das i Igrejas vacantes dò Eílado. E fendo comum-
mente um eimoleres com os Pobres, Sc um Jiberaes para o
culto divino ,-rneíecem ter a Deos propicio na Terra , 6, Re-
munerador eterno no Ceo.
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PRIMEIRA PARTE.
CULT U RA
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O PU L E N CIA 1}0 BR A SI li
Na Lavra do Aífuçar.
LI V R
• Cap. I. tt ^% O Cabedal, que ha de ter o Senhor dg'
%^$ . hum Engenho Real. pag-i.
Cap.íL Como fe ha de haver o Senhor do Engenho na
compra, Çff ccn ferva pê das I erras , <f*F nós
arrendamentos delias, p.£.
Cap. III. Coma/e hade haver: a Senhor do Engenho
comos Lavradores , Qf outros vinhos, Qf
. ejles com o Senhor, p. 7*
E Nv Cap.IV.
índice.
Càp.IV, Comofe ha de haver o Senhor do Engenho
m eleição das PeJToas> Çj* Offimes) q»e ad*
mlttlraofeu firviga ; & primeiramente da
eleição do C apelido p. i o,
Cap.F, Po Feitor Mar do Engenho y.Q? dos antros
■ Feitores menores , cpe affiftem na Moenda ,
Fazendas, Qjk Partidos da Canna : jnas o*
. briga coem > QFfoldadas.p.14.
Cap.VI. Do Meftre do dffmau gr Sotomeflre , a
quem chamã.0 Banqueiro , Qf dofeu r^\u^
daníe^ a q^cbam-So Ajudabanqueiro. p. 18.
Cap.VIL Do Purgador doA\\mar. p.20.
C ap. V f I L Do Caixeiro do Engenho, p . z 1 .
Cap. IX. Como fe ha de haver o Senhor do Engenho
com feus Efcravos. p. 1 1 ,
Cap. X. Comofe ha de haver o Senhor do Engenho no
governo da [na Família , Qf nos gaHos ordu
n ar los de cafa* p.29.
Cap*XI. Como fe ha de haver o Senhor do Engenho
no recebimento dos Hofpedes, ajjim Religiofos,
como Se cuia res. p . 3 1 .
Cap, XII. Como fe ha de haver o Senhor do Engenho
com os $y\/Lerç adores , Qf outros feus Corref-
■pendentes na Praça : Qf ^e alguns tnoãos d&
vender r& comprar o A\jmar 3 conforme o
cfhlo do BrafiL p.53*
r
Primeira Parte.
-
L I V R O II.
Ç '!P\ ^ eftolha da Terra y fará -plantar
'%J Cannas de Aguçar , ©"• para os
mantimentos nece fartos , Qf provimento do
Engenho, p. 36.
Cap. II. Da planta , Çff limpas das Cannas : &* da
diverftdade ,que ha nellas.p, 38.
Cap.IIL Dos Inimigos da Çanna , em quanto eflà no
CannaveaL p.41*
Cap.IV. Do corte da Canna , Qf* fua condução pa*
ra v Engenho, p. 41.
Cap. V. Do Engenho , ou Cafa de moer a Cam
na : Q? como fe move a Moenda com agua*
p*4<S. ; :
Cap. VI. Do modo de moer as Canna? :&* de quan*
tasPe[[oasneCeJfítaãtWoenda^p.y$.
Cap.VII. Das Madeiras , de que fe fa\a Moen*
day ©* iodo o mais madeiramento do En-
genho, Canoas v & Barcos : Qf- do que/e co»
fiuma dar aos Carpinteiros 3 Qj* outros [emes
IhantesOfficiaes.p.ió.
Cap. VIII. Da Cafa das Fornalhas , fèu aparelho ,
N3 d*
\y% índice. ^
Qf Lenha-, que ha mifter , Qf da Cin^a , ©*
Jua Decoada.p.fô.
Cap.IX. Das Caldeiras > Qf Cobres , feu aparelho 9
Officiaês, Qf Gente, que nellas ha mifler : Qf
Inftr amentos, de que ufaõ. p.63.
Cap.X. Domodo.de alimpar ,Ç?f purificar o Caldo da
Canna nas Caldeiras , Q? no Paról de coar9
ate p a ff ar para as Tachas, p. 67. -,\
Cap.XÍ. Do modo de co^er > & bater o Melado nas
Tachas. p,6p*
Cap. XII. Das Temperas do ^Melado % Qffuajujía
repartição pelas Formas, .p.72. )
Cap, I,
As Formas do Afincar , Qffua paf-
[agem doTendal para a Cafa de pur*
gar.p.yf.
Cap. II. Da Cafa de purgar oAJfucar nas Formas.
p. 77.
Cap.IIí. Daspefjoas , qje occupaõ em purgar, maf ca-
var, jecar , Qf encaixar o AfJ^car : Qf dos
Inflrumentos, qparaifj.o fao ?ieceflario*.p.79>
Cap J V.Do Barro, quefe bota nas Formai do %/$Lm?
car: qual deve fer> Qf comofe ha de amaffar:
©7'
£
Primeira Parte. 199
& fe be bem% ter no Engenho Olaria, p. 8 i.
Cap. V. Domododepurgar o Affucar nas Formas :
& de todo o beneficio, que/e lhe fa^naCa*
fa de Purgar , atéfe tirar.p 83.
Cap.VI. Do modo de tirar, mafcavar ,&fecar ao
afincar, p 86.
Cap.VII.DoP^p, Repartição, Qf Encanamento
do Afíucar. p.89.
Cap.VIU. De varias caftas de Affucar , que [erra-
damente fe encaixao : Marcas das Caixas,
Qffaa conducçao ao Trapiche, p.91.
Cap. IX. Dos Preços antigos , Qf modernos do *Af*
fucar, p.94.
Cap. X. Do numero das Caixas de Afiucar , que fe
fa\em cada anho ordinariamente no Brafil.
Cap.XLg?^? cuftabSaCaixa.de Affucar de trinta
Qf. cince arrobas, fofta na ^Alfandega de Lis-
boa , Qfjá defpachada : Qf do valor de todo
o Affucar , que cadaanno fe fa^ no BrafiL
Cap. XII. Do que padece o Affucar de/de o [eu nacu
mento na Canna , atèfahir do Braftl.p. ioi.
N.4
S E-
20O
tt I
Mhl 1
1
■
1 1.
í.
índice.
SEGUNDA PARTE.
CULTU
OPVLENCIA DO BRASIL
Na Lavra do Tabaco.
Cap. I. ãr "l OMOfe começou a tratar no Brafil
%^^j da Planta do Tabaco : &* a que efli-
maçad tem chegado p . 1 07,
Cap.II. Z?//a <^ confifte a Lavra do Tabaco ' ©* de
como fe fêmea planta , Qf alimpa : Qf em
que tempo Je ha de plant ar. p. 109.
©&p.III. Como fe tiraõ 3 &* curaô as folhas do Ta-
baco : Qf como delias fe fazem, & beneficiao
as cordas, p.111.
Cap.I V. Como fe cura o Tabaco depois de torcido em
corda.p.m. . . , . .
Cap. V. Comofe enrola , &* encoura o Tabaco : &*
que Pefíoasje occupao em toda a fabrica delle,
defde a fua planta atè fe enrolar, p . 1 1 3 .
Xap.
Segunda Parte. tor
Cap.VI. Dafegunda , &* terceira folha do Tabaco :
Qf dediverfas qualidades delle, parafe maf-
car , cachimbar , Qf pi^ar. p.n j.
Cap.VII. Como je pi^a o Tabaco : do Granido , Çj*
em pó; Q? como Je lhe d d o cheiro, p. i i 6»
Cap.VIII.Do ajo moderado do Tabaco para a faudé:
©* da demafia nocwa àmefmafaude % de
qualquer modo quefe ufe delle. p.i 1 8.
Ca p. IX. Do modo com que je de fp acha o Tabaco na
Alfandega da Babia.p. no,
Cap.X. §Lpe cufta hum B.olo de Tabaco de oito arro*
bas , pofto da Bahia na Alfandega de Lisboa,
& ja defpachado , &* corrente para fahir
delia, p.i-22.
Cap.XI.Díí efiimaçaõ do Tabaco do Brafíl na Euro-
pa, Qf nas mais Partes do Mundo : &> dos
grandes emolumentos , que delle tira a Fa-
zenda Real.p.114.
Czp.Xll. Das penas dos que levao Tabaco naS def-
pachado nas Alfandegas: Qf das indufirias}
de que fe ufa > parafe levar de contrabando.
p.120.
TER»
I
?
TERCEIRA PARTE.
OPVLENCIA DO BRASIL
Pelas Minas do Ouro.
Cap. I. T| "% ^j Minas do Ouro , 3/tf/i? defcobri-
^J raõ noB rafil. p. 1 2 9
Cap* II. £>^x Minas do Oura, que chamaõ Geraes :
& dos defcobridores delias, p. 1 3 1.
Cap. III. De outras Minas de Ouro no Rio das Ve*
lhas , Q}3 no Caetêop. 133.
Cap.IV. Do rendimento dos Ribeiros :Qfde diverfas
qualidades de Ouro, que deli es fe tira, p.134.
Cap. V. Das Pejjoas , que andao nas Minas, & ti*
raõ Ouro dos Ribeiros, p.i 56.
Cap. VI, Das Datas , ou Repartiçoens das Minas.
p.i$8.
Cap.VH.D^ abundância de Mantimentos, Çff de to*
do o ufual , que hoje ba nas Minas : Qf do
pouco ca/o qve fe fardos preps extraordina*
riamente altos ,p.i3<?. Cap.
Segunda Parte. ioj
Cap. VIII. De diverf os preços do Ouro vendido na
Brafil : Qf do q importa o que cadaanno w*
dinar -lamente fe tira das ■Minas. p. 1 43 .
Cap.IX. Da obrigação de pagar a EURey. NôfTo Se*
nhor a qúntaparte do Ouro» que fe tiradas
Mtnas do Brafil. pi 146.
Çap.X. Roteiro do Caminho daVilla de S. Paulo pa-
ra as Minas Geraes, Qf para o Rio dasl^es
lhas?i59.
Cap. XI. Roteiro do Caminho velho da Cidade do Rio
de Janeiro para as Minas dos Cat aguas ,
Qf do R, 10 das Velhas, p. i<^j.
Cap. XIL Roteiro do Caminho novo da Cidade do
Rio de Janeiro para as Minas, p.164.
Cap XllL Roteiro do Caminho da Cidade da Bahia
vara as Mtnas do Rio das Velhas. p 166.
Cap. XIV . Modo de tirar o Ouro das Minas do Bra?
Jily gf dos Ribeiros delias , obfervado de que
nellas affíjlia tô o Governador .Artur de Ja\
p.168.
Cap. XV. Noticias , para fe conhecer e as Minas de
Prata, p. 173.
Cap. XVI. Modo de conhecera Rrata^Çff de benefis
ciar os Metaes, p.iyó.
Cap. XVI LDos danos , q tem caufaâo ao Brafil a co-
biça ,depois do descobrimento do Ouro nas Mi"
nas.p.179* QVAR-
*~—.
OPVLENCIA DO BRASIL
Pela abundância do Gado , & Cou-
rama , & outros Contratos
Reaes, q fe remataõ nefta
Conquifta.
Cap. I. T"^ A grande extènfaõ de Terras fará
I 3 Pafios, cheas de Gado , que ba no Br a*
JiL p.i8j.
Cap. II, Das Bojadas , que ordinariamente fe tirão* '
cada anno dos Curraes para as Cidades ,
Filias , &* Recôncavos do Brafã , aft.mpa-
ra o dçongue , como para o fornecimento das
Fabricas, p. 1 87.
Cap. III. Da condução das Bojadas doCertaõdo
Braftl : preço ordinariodo Gado , que fe ma-
ta > & do que vaypara as Fabricas, p.i 88.
Cap.«
20
Quarta Parte.
Ctfp.IV.GjW cufta bum Couro em çabello , hum Me -
jo de Sola beneficiado até fe pôr do Brafil na
^Alfandega de Lisboa, p.ipo.
Cap*V- Refumo de tudo o que vay ordinariamente ca*
da anno do Brafil para Portugal : & dofeu
valor. p.ipi.
Çâp.ultimo. G)j4a?itê hejttfto , que fe favoreça o Bra*
Jtl , por fer de tanta utilidade ao Reym de
Portugal, p.193.
FINIS, LAUS DEQ.
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^^PPI^|F"■n, — "
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